Gaudium et Spes — Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo atual [2]


Na primeira parte da GS, considerada como a mais doutrinal — «A Igreja e a vocação do ser humano» — os padres conciliares, desejosos de «corresponder aos impulsos do Espírito», expressam o entendimento que têm sobre o ser humano. O documento é uma palavra de esperança sobre o campo de missão da comunidade eclesial: o coração de cada ser humano e a sociedade atual. Reconhece a distinção e independência entre a sociedade e a comunidade eclesial, mas destaca que pode haver cooperação: ambas se dedicam à promoção humana. O Concílio coloca as seguintes questões: «Que pensa a Igreja acerca do ser humano? Que recomendações parecem dever fazer-se, em ordem à construção da sociedade atual? Qual é o significado último da atividade humana no universo?» (GS 11). Neste tema resume-se o conteúdo do primeiro capítulo: «A dignidade da pessoa humana».

O ser humano criado à imagem de Deus

Desejando construir um diálogo com o mundo, a Igreja coloca como premissa cristã que a dignidade da pessoa humana deriva da afirmação de que o homem e a mulher foram criados à imagem de Deus (GS 12) e redimidos por Jesus Cristo que a todos liberta das cadeias do pecado (GS 13). Depois, afirma que o ser humano é um ser uno, composto de corpo e alma, pelo que não pode «desprezar a vida corporal; deve, pelo contrário, considerar o seu corpo como bom e digno de respeito [...]. «É, pois, a própria dignidade humana que exige que o ser humano glorifique a Deus no seu corpo, não deixando que este se escravize às más inclinações do próprio coração» (GS 14).

A dignidade do entendimento e da consciência moral

«Participando da luz da inteligência divina», o ser humano passou a dominar o universo através das ciências, das técnicas e das artes, o que lhe permitiu grandes avanços na conquista do mundo material. «Mas buscou sempre, e encontrou, uma verdade mais profunda», que na linguagem cristã é conhecida como vocação: o chamamento que Deus dirige a cada ser humano para que se realize enquanto pessoa no serviço ao próprio Deus, através do serviço aos irmãos (GS 15). E, usando os dons que Deus lhes deu, é chamado a promover e a defender a vida. No fundo da consciência humana, o ser humano descobre e vive uma lei escrita pelo próprio Deus no seu coração, que o chama a viver o amor e a fugir do mal, que é a consciência moral. Assim, a dignidade reside na singular consciência que Deus imprimiu em cada ser humano, que nem mesmo o pecado pode diminuir (GS 16).

A liberdade humana

Uma das afirmações significativas do primeiro capítulo é sobre a liberdade humana: «é um sinal privilegiado da imagem divina no ser humano» que lhe exige que «proceda segundo a própria consciência e por livre adesão» (GS 17). Nesta afirmação, a Igreja coloca-se contra todas as tentativas de controle das consciências.

A morte

«É em face da morte que o enigma da condição humana mais se adensa. [...] Mas a intuição do próprio coração fá-lo acertar, quando o leva a aborrecer e a recusar a ruína total e o desaparecimento definitivo da sua pessoa. O germe de eternidade que nele existe, irredutível à pura matéria, insurge-se contra a morte» (GS 18).

O ateísmo

O Concílio refere-se aos múltiplos rostos do ateísmo presentes no mundo moderno que tentam de todas as formas negar a importância da religião, afirmando que a autonomia humana deve ser plena. Alerta para o facto de que «os crentes podem ter tido parte não pequena na génese do ateísmo» (GS 19). Os que o professam entendem que a liberdade consiste em que o ser humano seja o próprio fim e autor único da sua história. E pensam que isso é incompatível com o reconhecimento de Deus. Por isso, quando alcançam o poder, atacam violentamente a religião, difundindo o ateísmo, sobretudo na educação da juventude (GS 20). Apesar de rejeitar o ateísmo, a Igreja espera que todos, crentes e não crentes, contribuam para a construção do mundo, a partir de um prudente e sincero diálogo, deplorando qualquer tipo de discriminação (GS 21). Vemos, pois, a abertura da Igreja que convoca todos os «homens de boa vontade» para a transformação do mundo com um profundo desejo de diálogo com a sociedade. Para a Igreja, agir e emprestar a voz aos que não têm voz, e chamar todas as pessoas, independentemente da religião, para transformar o mundo, deriva da fé no Espírito Santo que renova todas as coisas e na certeza de que a incarnação, a morte e a ressurreição de Jesus Cristo «abriu um novo caminho, em que a vida e a morte são santificados e recebem um novo sentido» (GS 22).

Este texto foi elaborado a partir das «fichas» apresentadas pelo «Ambiente Virtual de Formação» da Arquidiocese de Campinas, Brasil — www.ambientevirtual.org.br —

© Laboratório da fé, 2015

II Concílio do Vaticano, no Laboratório da fé, 2014


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 10.9.15 | Sem comentários
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