Gaudium et Spes — Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo atual [4]


Segundo a fé cristã, o ser humano é chamado por Deus a transformar o mundo através da sua ação e, especialmente, com o seu trabalho. O terceiro capítulo da primeira parte da GS refere-se à «atividade humana no mundo». Nela, a pessoa encontra o sentido da vida e a realização da sua vocação. A GS enfatiza que o trabalho existe para o ser humano e não o contrário. E também afirma que o trabalho tem uma dimensão social, uma vez que se orienta para o bem comum. Nesta perspetiva, é visto como condição para assegurar à pessoa a sua dignidade, sendo, portanto, um direito humano. Passados 50 anos, constata-se a pertinência a reflexão conciliar, já que numa grande parte dos países o trabalho humano foi (é) considerado apenas como uma mercadoria que a cada dia perde cada vez mais o seu valor o que, por consequência, atinge a compreensão do ser humano, fere a sua dignidade.

O sentido e valor da atividade humana

Graças à inteligência, à técnica e à ciência, o ser humano alcançou muitos bens que contribuíram para melhorar a qualidade da vida. Todavia, isto parece ter também contribuído para a perda do significado antropológico do trabalho e da própria vocação humana. Desta realidade brotam perguntas tais como: «Qual o sentido e valor desta atividade? Como se devem usar estes bens? Para que fim tendem os esforços dos indivíduos e das sociedades?». A Igreja, à luz da Palavra de Deus, quer dar o seu contributo para ajudar a responder a estas e outras questões relacionadas com o trabalho humano (GS 33). Para os que têm fé, a atividade humana, individual ou coletiva, corresponde à vontade de Deus, pois decorre do mandato de cultivar e guardar a terra (cf. Génesis 2, 15). Logo, é como um prolongamento da atividade divina na construção do mundo. «Isto aplica-se também às atividades de todos os dias. Assim, os homens e as mulheres que, ao ganhar o sustento para si e suas famílias, de tal modo exercem a própria atividade que prestam conveniente serviço à sociedade, com razão podem considerar que prolongam com o seu trabalho a obra do Criador, ajudam os seus irmãos e dão uma contribuição pessoal para a realização dos desígnios de Deus na história» (GS 34). Pelo trabalho, o ser humano transforma o mundo e a sociedade, mas também se constrói enquanto pessoa humana e descobre a sua vocação integral. Neste sentido, de forma profética, a GS afirma que, aquilo que o ser humano faz para promover a justiça, a fraternidade e o bem comum é muito superior a qualquer progresso técnico (GS 35).

A autonomia das realidades terrestres

A Igreja reconhece a «justa autonomia das realidades terrestres», sem contudo aceitar que «a íntima ligação entre a atividade humana e a religião constitua um obstáculo para a autonomia dos humanos, das sociedades ou das ciências». Tanto a religião como a ciência têm origem em Deus; por isso, não são incompatíveis. «A investigação metódica em todos os campos do saber, quando levada a cabo de um modo verdadeiramente científico e segundo as normas morais, nunca será realmente oposta à fé». Ora, a dita autonomia não significa afastar Deus da atividade humana, «pois, sem o Criador, a criatura não subsiste» (GS 36).

A lei do amor para um novo céu e uma nova terra

O progresso é um grande bem, mas também pode fazer esquecer a importância de fazer do mundo «um lugar de verdadeira fraternidade». Por isso, a Igreja «ao mesmo tempo que reconhece que o progresso humano pode servir para a verdadeira felicidade», lembra «que todas as atividades humanas, constantemente ameaçadas pela soberba e amor próprio desordenado, devem ser purificadas e levadas à perfeição pela cruz e ressurreição de Cristo» (GS 37). De facto, todo o esforço em construir um mundo novo e fraterno adquire um novo sentido pela fé em Jesus Cristo. «Ele revela-nos que ‘Deus é amor’ (1João 4, 8) e ensina-nos ao mesmo tempo que a lei fundamental da perfeição humana e, portanto, da transformação do mundo, é o novo mandamento do amor». Isto reflete-se «nas coisas grandes, mas, antes de mais, nas circunstâncias ordinárias da vida». Hoje, o Ressuscitado, pelo Espírito Santo e pelos Sacramentos, alimenta «o desejo da vida futura», mas «anima, purifica e fortalece também aquelas generosas aspirações que levam a humanidade a tentar tornar a vida mais humana» (GS 38). Por conseguinte, a certeza do Reino não deve acomodar os cristãos, mas «ativar a solicitude em ordem a desenvolver esta terra, onde cresce o corpo da nova família humana, que já consegue apresentar uma certa prefiguração do mundo futuro» (GS 39).

Este texto foi elaborado a partir das «fichas» apresentadas pelo «Ambiente Virtual de Formação» da Arquidiocese de Campinas, Brasil — www.ambientevirtual.org.br —

© Laboratório da fé, 2015

II Concílio do Vaticano, no Laboratório da fé, 2015


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 24.9.15 | Sem comentários
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