Reflexão mensal sobre as obras de misericórdia [8]


«A expressão ‘dar pousada aos peregrinos’ refere-se à prática de acolher quem está a fazer uma peregrinação. Não é por acaso que as obras de misericórdia, tais como dar de comer a quem tem fome, dar de beber a quem tem sede [...], foram muitas vezes representadas nas igrejas situadas ao longo dos itinerários das grandes peregrinações, para estimular a caridade ativa para com os peregrinos» (Luciano Manicardi).

A prática da hospitalidade

Na obra de misericórdia «dar pousada aos peregrinos» está subjacente a palavra evangélica sobre o acolhimento do forasteiro e, portanto, sobre a prática da hospitalidade. Hoje é necessário que se difunda uma cultura da hospitalidade. Ora, «a civilização deu um passo decisivo, talvez o [único] passo decisivo, no dia em que o estrangeiro, de inimigo se transformou em hóspede». Porquê dar hospitalidade? Porque somos humanos, para nos tornarmos mais humanos, para respeitar e honrar a humanidade do outro. Cada ser humano, mal vem ao mundo, torna-se ele próprio hóspede do humano que há nele: nós damos hospitalidade porque, por nossa vez, sabemos que também somos hóspedes. O pobre, o sem-abrigo, o vagabundo, o estrangeiro, o mendigo, aquele cuja humanidade é humilhada pelo peso das faltas e das privações, das rejeições e do abandono, do desinteresse e da estranheza, começa a ser acolhido quando eu começo a sentir como minha a sua humilhação, a sua vergonha, quando começo a sentir que a mortificação da sua humanidade é a minha própria mortificação. E nós, cristãos, temos o maior exemplo dado pelo próprio Jesus Cristo. A sua vida, segundo os evangelhos, caracteriza-se por um estilo de encontro com o outro que pode ser definido como «santidade hospitaleira». A santidade, a alteridade de Jesus Cristo, o homem que revelou Deus, é vivida por ele não como separação, mas como hospitalidade, capacidade de encontro e de acolhimento que se torna revelação do acolhimento e da comunhão radical de Deus com os seres humanos. E cada encontro mostra um homem capaz de se adaptar às capacidades de relação e de escuta do outro, de acolhê-lo tal como ele é, sem preconceitos; antes, desenvolvendo sempre uma prática de abandono dos preconceitos e dos estereótipos.

Hospitalidade como escuta

Acolher o viandante significa, no mínimo, abrir a própria casa ao outro, mas, mais profundamente, fazer de si próprio a casa, a morada em que o outro é acolhido: acolher é dar tempo e escutar o outro, e, escutando-o, escavamos em nós um espaço interior para ele. A hospitalidade, declinada como escuta do outro, da sua história, incide sobre o nosso ser profundo, faz de nós pessoas capazes de acolhimento, e faz com que a própria hospitalidade seja um acontecimento que molda a nossa interioridade. Escutar o estrangeiro significa acolher o seu apelo e assumir a responsabilidade de uma resposta; significa também aceitar retirar as lentes deformadoras dos preconceitos, das verdades pré-fabricadas, dos slogans, dos lugares comuns, para nos aproximarmos dele, escutando-o, falando-lhe e vendo modificar-se o próprio preconceito. Pôr de parte os preconceitos significa empenhar-se no conhecimento do outro. Com efeito, há que evitar dois riscos contrapostos: a apropriação do outro, faltando-lhe ao respeito, e a desapropriação de si e da própria cultura para se vergar frente a outro mistificado e enfatizado. Então, poder-se-á aceder ao encontro com o outro como aparição. Além disso, para acolher o outro é preciso ter humildade e curiosidade. A humildade de quem considera que o outro pode trazer sempre alguma coisa à minha humanidade e à minha prática de vida, e a curiosidade de quem se abre com simpatia aos costumes culturais do outro. Assim, talvez, também se possa chegar à empatia, a sentir o outro, integrando o plano emocional, somático e mental numa única atitude de acolhimento. Por fim, hospedar o outro implica o diálogo com ele. A conversa dá lugar à conversão: o outro deixa de ser ofuscado pelas nuvens dos preconceitos, e eu posso vê-lo em verdade e acolhê-lo com sinceridade.

Perdoar

Jesus Cristo ressuscitado, que se manifesta aos discípulos mostrando as feridas da crucifixão e dando aos discípulos o Espírito Santo que lhes permitirá perdoar os pecados (cf. João 20, 19-23), revela que perdoar significa fazer do mal recebido uma ocasião de dom. No perdão não se trata de atenuar a responsabilidade de quem cometeu o mal: o perdão perdoa, precisamente, aquilo que não é desculpável, aquilo que é injustificável — o mal cometido e que permanece como tal, assim como permanecem as cicatrizes do mal infligido. O perdão não elimina a irreversibilidade do mal sofrido, mas assume-o como passado e, fazendo prevalecer uma relação de graça sobre uma relação de represália, cria as premissas de uma renovação da relação entre ofensor e ofendido. O perdão, portanto, opõe-se ao esquecimento (só se pode perdoar aquilo que não foi esquecido) e supõe um trabalho da memória. A recordação do mal sofrido abre caminho ao perdão, na medida em que elabora o sentido do mal sofrido: com efeito, nós, humanos, não somos responsáveis pela existência do mal ou pelo facto de o termos sofrido injustamente (e até na infância ou em situações de total incapacidade de nos defendermos, talvez de pessoas das quais deveríamos esperar apenas bem e amor), mas somos responsáveis por aquilo que fazemos do mal por nós sofrido. O trabalho de recordação que desemboca no perdão pode, assim, libertar o ofendido da coação a repetir, que o levaria a efetuar o mesmo em seu redor e a infligir a outros o mal que ele próprio, a seu tempo, sofreu. Por detrás do ato através do qual a pessoa perdoa já está uma cura da memória: não permanecemos vítimas da recordação endurecida e obstinada, transformada em fixação; não ficamos dominados pelo ressentimento. Ao mesmo tempo, o perdão implica um «deixar andar», um romper não com a recordação, mas com o contrato de dívida de quem cometeu o mal. O ato do perdão mostra-se assim capaz de curar não só o ofensor, mas também o ofendido.


O perdão é a única reação 
que não se limita a reagir, 
mas que atua de novo 
e de forma inesperada, 
não condicionado 
por um ato que o provocou 
e que, portanto, 
liberta das suas consequências 
tanto aquele que perdoa 
como aquele que é perdoado. 

Hannah Arendt

Perdoar é um ato omnipotente e débil

A história da revelação bíblica também é a história da revelação do Deus «capaz de perdão» que, na prática de humanidade de Jesus Cristo, no seu viver e no seu morrer, revelou a extensão e a profundidade do seu amor pelos seres humanos, um amor que até da ofensa recebida faz uma ocasião não de juízo ou de condenação, mas de amor. Em Cristo, morto por nós quando éramos pecadores, o perdão já foi dado a cada ser humano e, portanto, também a possibilidade de vivê-lo. Ser perdoados significa descobrir que se é amado no próprio ódio. O filho pródigo dará o nome de perdão ao amor fiel e inquebrantável do pai, que sempre o esperou e que sempre esteve próximo dele, mesmo quando se afastara de casa e o condenara simbolicamente à morte, pedindo-lhe antecipadamente a herança (cf. Lucas 15, 11-32). Isso significa que o perdão precede e fundamenta o arrependimento e que este último só poderá surgir da tomada de consciência de tal amor unilateral, gratuito e incondicional, anterior a todo o nosso «mérito». A partir do perdão, a comunidade cristã é chamada a ser o lugar do perdão: «Perdoai-vos mutuamente, como também Deus vos perdoou em Cristo» (Efésios 4, 32). E a oração quotidiana do cristão, fazendo eco das palavras de Ben Sira (28, 2: «Perdoa ao teu próximo o mal que te fez, e os teus pecados, se o pedires na tua oração, serão perdoados»), estabelece uma relação entre o pedido do perdão divino e a prática do perdão ao irmão (cf. Mateus 6, 12; Lucas 11, 4). No perdão, o mal não tem a última palavra: a morte não vence a vida, e a reconciliação pode substituir o fim da relação. O perdão faz-nos entrar na dinâmica pascal. É fundamental para o cristão descobrir que foi perdoado por Deus em Jesus Cristo, e isso fará com que o ato do perdão dado não seja tanto (ou apenas) um ato de vontade, mas a abertura ao dom da graça do Senhor. O perdão, portanto, depois de concedido, pode reabrir a relação, dando lugar à reconciliação. Pode... não quer dizer que isso aconteça: o perdão pode ser sempre recusado. Mas, depois de concedido (com aquela força ativa que tem a expressão «perdoo-te»), não sabemos como atuará no coração e na mente do ofensor, que agora já está perdoado. Aqui apreendemos um aspeto do perdão que o assemelha à paradoxal potência da cruz. O perdão é omnipotente, no sentido de que tudo pode ser perdoado (digo «pode» e não «deve»: a grandeza do perdão consiste na liberdade com que é concedido), ao mesmo tempo é infinitamente débil, porquanto nada garante que o ofensor deixará de fazer o mal. Neste sentido, o perdão cristão só pode ser verdadeiramente entendido à luz do escândalo e do paradoxo da cruz, onde o poder de Deus se manifesta na debilidade do Filho. Jesus Cristo crucificado é Aquele que da cruz oferece o perdão a quem não o pede, vivendo a unilateralidade de um amor assimétrico, que é o único modo de abrir a todos o caminho da salvação.

© Laboratório da fé, 2015
Este texto foi elaborado a partir da obra de Luciano Manicardi intitulada «A caridade dá que fazer: Redescobrindo a atualidade das ‘obras de misericórdia’» (páginas 111 a 120 e 187 a 194) publicada em português pelas edições Paulinas





Laboratório da fé, 2014
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 9.5.15 | Sem comentários
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