Reflexão mensal sobre as obras de misericórdia [7]


«É importante ajudar o preso a situar-se na dimensão temporal, pois só assim poderá reconstruir a imagem de si, derrubada pela culpa e deprimida pela pena. [...] O trabalho de assistência e de aproximação dos presos, o ‘visitar os presos’, não pode, certamente, ser separado de um trabalho político e de uma reflexão que, em nome da dignidade do ser humano e dos direitos humanos, tente encontrar formas de pena que não privem da liberdade, mas que prevejam atos de reparação» (Luciano Manicardi).

O preso

«Estive na prisão e fostes ter comigo» (Mateus 25, 36). Estas palavras de Jesus Cristo apresentam o preso como uma pessoa necessitada de cuidados e de relação. Se o doente, o faminto, o sedento ou o nu (cf. Mateus 25, 35-45) podem ser vistos como simples vítimas, como pessoas marcadas por desgraças, o preso traz em si o estigma de uma culpa, de um delito cometido. Jesus Cristo, porém, que se fez companheiro de pecadores e de pessoas desonestas, anunciando a todos a comunhão de Deus e a possibilidade de conversão, não hesita em identificar-se com quem está privado da liberdade, na prisão: «estive na prisão e fostes ter comigo». Ora, quem se dispõe a reconhecer Jesus Cristo naquele que está preso, antes de mais, precisa de trabalhar sobre si próprio, o que implica: a perceção da tragédia da perda da liberdade, por parte da pessoa; a consciência da vergonha que muitas vezes habita aquele que está na prisão; o discernimento das prisões a que nós próprios nos condenamos; o reconhecimento da nossa sede de liberdade e do nosso desejo de resgate das escravidões interiores e dos ídolos; o discernimento da nossa debilidade, que faz de nós homicidas, ladrões, malvados, caluniadores, violentos (cf. Marcos 7, 21-23), no nosso coração, mesmo que não cheguemos a exteriorizar em atos os nossos impulsos interiores; o desenvolvimento da capacidade de compaixão pela nossa fragilidade, que também é a via de acesso para entrar em contacto profundo com quem está na prisão e que sofre pelo remorso ou pelo endurecimento do coração, pela revolta ou pela ausência de um futuro... Trabalho sobre si próprio que tende a dilatar os espaços da caridade do coração, para nunca julgar o pecador, reconhecendo nele, pelo contrário, um irmão com o qual devemos ser solidários.

Visitar os presos

Visitar os presos tem um primeiro e elementar significado: fazer-se presente junto de quem vive na prisão. A população prisional é formada em grande parte por pobres, marginalizados, estrangeiros imigrantes, toxicodependentes: vários destes não têm ninguém, não têm pessoas que os visitem e, portanto, não têm ninguém com quem falar e que os escute, ou seja, para quem sabem que valem alguma coisa. A perda da liberdade, a solidão afetiva e sexual, a ausência de vida social, a perspetiva de ficar muito tempo na prisão, induzem com frequência a atitudes de perda de interesse pela vida, provocando embrutecimento ou tentações suicidas. Oprimido entre o desespero e a revolta, o preso precisa de um rosto que o escute e que lhe fale, que lhe dê a entender, com a sua presença e o seu acolhimento, que ele é maior do que os atos que cometeu e que não é redutível aos mesmos. O contacto epistolar é particularmente útil e importante. Quem visita um preso e estabelece com ele uma relação perdurável no tempo, é confrontado, muitas vezes, com uma pessoa em grave crise «espiritual» — em que o espiritual se refere ao sentido da existência. O diálogo será, portanto, um caminho comum para um sentido possível, caminho que, para o preso, implica com frequência restabelecer a ordem na relação com o tempo, que a culpa cometida pode ter perturbado ou destruído. O importante, certamente, é infundir confiança no preso, ajudando-o a não desesperar e a não se deixar afundar, a não abdicar da própria humanidade. Como é óbvio, uma pastoral solícita para com os presos deverá dirigir-se também aos familiares do mesmo, ajudar e apoiar as suas famílias, informando-as sobre as formas de assistência a que têm direito e garantindo que delas usufruam... As formas de presença cristã nas prisões são múltiplas e criativas.

O conselho

Para apreender o sentido desta obra de misericórdia, há que tomar consciência do caráter ambivalente do termo «conselho». Este termo não é ambivalente apenas porque um conselho pode ser bom ou mau, adequado ou inadequado, certo ou errado, mas também porque pode ser um ato de presunção pensar que se pode e sabe dar um conselho. A Bíblia põe-nos de sobreaviso contra quem distribui conselhos, sugerindo várias interrogações antes de nos deixarmos aconselhar. De quem recebo eu conselhos? E sobre que tema? Com efeito, não é qualquer um que pode aconselhar os outros sobre qualquer tema. Além disso: o que é que move aquele que me aconselha? O seu conselho é desinteressado? Tem em vista o meu bem? O livro do Ben Sirá alerta: «Diante de um conselheiro, põe-te alerta; vê primeiro quais são os seus interesses porque ele pode aconselhar em seu próprio interesse» (37, 8). Põe-nos de sobreaviso contra o risco de deixarmos que nos aconselhem a praticar um ato de desresponsabilização. O conselho não exime da responsabilidade da escolha, que é sempre pessoal e livre. Mendigar conselhos à direita e à esquerda, sem nunca chegar a uma decisão, é sinal de incerteza patológica ou de medo, ou antes, de terror frente à responsabilidade. E do ponto de vista de quem aconselha, é indispensável que os conselhos não se transformem em manipulação, num forçar da vontade do outro a fim de conduzi-lo para onde se pretende, mesmo que se considerasse que esse «para onde se pretende» era o melhor para o outro. Pode dar bons conselhos quem se abstém, de forma consciente, de ter poder sobre aquele a quem se dirige. Aconselhar não será, portanto, adular nem seduzir, e ainda menos manipular ou abusar, mas ocupa o espaço do serviço à liberdade alheia. Analisados os riscos do ato de aconselhar, devemos reconhecer que a humildade é a qualidade sapiêncial necessária tanto a quem dá conselhos como àquele que os pede. Em relação a este — o que pede um conselho —, importa também recordar que há um princípio de incerteza e de insegurança que é salvífico para o ser humano, porquanto está na origem daquela inquietação que lhe permite continuar a interrogar-se, a questionar, ou seja, a ser humano. .

Dar bons conselhos

No atual momento histórico e cultural, caracterizado pela desorientação — perdemos a bússola capaz de guiar o nosso caminho, capaz de orientar —, precisamos de quem saiba abrir caminho, indicar a direção, o leste, o oriente, o lugar onde nasce a luz e o sentido. É aí que, de modo especial, se situa a necessidade de alguém que saiba dar um bom conselho. Hoje, mais do que nunca, precisamos dum bom conselheiro! Não um funcionário do conselho, não um consultor que, numa relação não paritária, ajuda a abordar problemas ou temáticas com competências particulares, mas uma pessoa que saiba sentir empatia, escutar o outro em profundidade, apreender as suas potencialidades e debilidades, podendo assim ajudá-lo a entrever a melhor opção ou, pelo menos, a que lhe é possível. A arte de aconselhar, portanto, está ligada à capacidade de compreender a situação do outro, requerendo, ao mesmo tempo, imaginação e adesão à realidade. O realismo é essencial para indicar caminhos realmente exequíveis para a pessoa que pede conselho; não estabelece ideais altos e sublimes, mas alcançáveis. A imaginação também é importante porque a própria ponderação de uma alternativa, de uma via nova e inédita, mesmo que possa não representar a solução para o problema, dá esperança, muda alguma coisa, abre um futuro em que se poderá chegar a aperfeiçoar aquilo que foi ponderado. Para ser libertadora, a arte de aconselhar também requer liberdade, capacidade de sair dos lugares comuns, de reconhecer que o humano é muito mais extenso e vasto do que pretendem os pensamentos prefabricados, as morais rígidas e as ideologias. A arte de aconselhar requer a capacidade de sentir o sofrimento daquele que duvida e de não o julgar. Por isso, o conselho encontra a sua sensatez no âmbito de uma relação de confiança entre duas pessoas. A «paternidade espiritual» pode ser um lugar importante para aconselhar, tendo presente que não se trata de dizer ao outro aquilo que deve fazer, mas de ajudá-lo a encontrar a resposta que já habita nele e que ele não sabe ou não se atreve a fazer emergir ou, então, sugerir-lhe hipóteses em que ele ainda não tinha pensado. Na relação de «paternidade espiritual», a experiência do ancião funde-se com o entusiasmo do mais jovem que, oportunamente aconselhado, pode ser ajudado a correr expeditamente pela via do crescimento humano e espiritual. E, neste contexto, trata-se de pedir conselhos a propósito de tudo, ou seja, nenhum tema é tabu, nenhum problema é excluído, de tudo se pode e é bom falar na relação de «paternidade espiritual». Encontrar, então, quem saiba indicar uma via, dirigir uma palavra de ajuda, dar um conselho elucidativo, pode revelar-se uma riqueza inestimável para a nossa vida. Assim poder-se-á experimentar a verdade da afirmação proferida pelo autor do livro do Ben Sira: «O saber do sábio derrama-se como água que transborda, e o seu conselho permanece como fonte de vida» (21, 13).

A consciência 
do caráter inseguro do ato cognitivo 
constitui uma oportunidade para chegar 
a um conhecimento pertinente, 
o qual requer exames, verificações 
e convergências dos indícios. 

Edgar Morin

© Laboratório da fé, 2015
Este texto foi elaborado a partir da obra de Luciano Manicardi intitulada «A caridade dá que fazer: Redescobrindo a atualidade das ‘obras de misericórdia’» (páginas 121 a 128 e 195 a 205) publicada em português pelas edições Paulinas





Laboratório da fé, 2014
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 1.4.15 | Sem comentários
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