TOMÉ TOCOU EM JESUS?


O tempo de Páscoa é um tempo em que somos recriados pelo Espírito Santo que, pelo Batismo, nos identifica com Jesus Cristo. E nos fortalece com o poder da Ressurreição para podermos prolongar a incarnação do seu amor no hoje que nos é dado viver. Voltamos a olhar o mundo pela primeira vez, escutamos a melodia do presente, abrimos o ouvido do coração à realidade pascal que nos convida a viver como autênticos filhos de Deus. Trata-se de não nos deixarmos vencer pelo medo, mas de viver na confiança dos que se sabem amados e salvos (mesmo sem termos visto). A Páscoa surge como um tempo de novidade e de graça, para nós e para toda a humanidade. Já não há lugar para o velho, para as cópias sem autenticidade, para o passageiro e superficial; agora, tudo é novo, autêntico, permanente e profundo... tudo é Vida! Audácia, valentia, novidade, criatividade, compromisso, compaixão, misericórdia — são os caminhos a calcorrear, a «tocar», para dar testemunho do Ressuscitado, do Vivente.

Páscoa: Tomé tocou em Jesus?

A «mística do instante» convida-nos, nesta Páscoa, a redescobrir o tato. O sentido do tato «permite que existam encontros. [...] A nossa autobiografia é também uma história da pele e do tato, da forma como tocamos ou não, da forma como fomos e não fomos tocados [...]. Existe um tipo de conhecimento que só nos chega através do tato» (José Tolentino Mendonça). Talvez tenha sido esse tipo de conhecimento que Tomé evocou, quando os amigos lhe contaram que tinham visto o Senhor: «se não meter o dedo no lugar dos cravos e a mão no seu lado, não acreditarei» (João 20, 24-29). Oito dias depois, isto é, no domingo, eis o Ressuscitado disposto a dissipar as dúvidas: «’Põe aqui o teu dedo e vê as minhas mãos; aproxima a tua mão e mete-a no meu lado e não sejas incrédulo, mas crente’. Tomé respondeu-Lhe: ‘Meu Senhor e meu Deus!’». Por um lado, parece que vemos, como no quadro de Caravaggio, Jesus Cristo a pegar no braço de Tomé para o fazer tocar nas suas chagas. Mas, por outro lado, a continuação do texto ignora o tato e apenas refere a visão: «porque Me viste acreditaste». Pode ser que as palavras do Ressuscitado recuperem a expressão popular «ver com as mãos» ou podem referir-se aos «olhos da pele», belo título dum ensaio do arquiteto finlandês Juhani Pallasmaa: «Na verdade a nossa pele é capaz de distinguir diversas cores; nós realmente vemos com a nossa pele. [...] Todos os sentidos, incluindo a visão, são extensões do tato; os sentidos são especializações do tecido cutâneo, e todas as experiências sensoriais são variantes do tato». Voltando ao evangelho: Tomé tocou em Jesus? O mais certo é ter acontecido o inverso: foi o Ressuscitado quem tocou em Tomé, tocou-o com o dom da fé. Por isso, tem razão S. Gregório Magno: «A incredulidade de Tomé é mais útil à fé do que a fé dos discípulos que acreditam»!
Há ainda um outro aspeto que podemos aprofundar: «A alegria de Tomé, a sua ‘segunda conversão’, foi causada por algo que, certamente, o terá afetado mais do que aos outros apóstolos: a identificação do Crucificado com o Ressuscitado. Para ela apontam as chagas de Jesus. [...] A luz das feridas transformadas de Jesus permitiu-lhe, por um instante, avistar Deus através do homem, o futuro através do presente, o invisível através do visível» (Tomáš Halík). O nosso Deus, como o de Tomé, é um «Deus ferido»!


Laboratório da Fé vivida

A fé é uma relação tátil. Mais ainda quando nos referimos à «fé vivida»: uma fé que toca e se deixa tocar. Aliás, a primeira atitude consiste em deixar-se tocar pelo Espírito do Ressuscitado. «O Espírito Santo é aquele que faz estremecer as estruturas, que toca nos lugares mais profundos e nossos. [...] Precisamos desse sopro que verdadeiramente nos agite, nos empurre, nos toque. [...] O Espírito Santo não é determinado por nós: nós é que somos tocados por Ele» (José Tolentino Mendonça). Abre-nos a uma nova gestualidade. Quando as nossas mãos são «tocadas» pelo Espírito Santo, elas abrem-se para acolher o que a vida nos traz sem querer controlar ou dominar, oferecem-se sem se imporem, unem-se a outras mãos para tecer o manto da misericórdia, em obras «corporais» e «espirituais», transformam o monótono e caduco em oportunidades para a criatividade e o amor. Precisamos de mãos como as de Jesus Cristo: dedicadas a servir, a curar, a abençoar, a acariciar; gastas e feridas de tanto tocar. «O Senhor da História, quando voltar, olhará para as nossas mãos» (Mamerto Menapace)!

© Laboratório da fé, 2015


Tomé tocou em Jesus?
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 5.4.15 | Sem comentários
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