CELEBRAR O DOMINGO QUINTO DA QUARESMA


Depois de Noé, de Abraão, de Moisés no Sinai — onde se revela o amor mais forte do que as infidelidades do povo —, tudo culmina, no quinto domingo da Quaresma (Ano B), com a promessa da «aliança nova» anunciada pelo profeta Jeremias (primeira leitura). Uma Aliança que se realiza de forma plena em Jesus Cristo, ele que se fez, para nós, «causa de salvação eterna» (segunda leitura), dando a própria vida. E com as palavras do próprio Jesus Cristo (evangelho) somos conduzidos para o culminar da Quaresma. Palavras que suscitam o desejo de purificação (salmo): abraçamos a atitude humilde de quem se deixa amar e cumular pela alegria de Deus.

«Esta é a aliança […]: grava-la-ei no seu coração»
A primeira leitura é o texto mais maravilhoso sobre a Aliança que se encontra em todo o Antigo Testamento. Faz parte do capítulo 31 do livro de Jeremias, que está inserido no chamado «Livro da Consolação»: uma coleção de promessas dirigidas por Deus aos exilados em desespero.
A nova aliança está na linha da antiga, mas apresenta-se profundamente renovada. Qualquer novidade tem de ter elementos antigos (continuidade) e elementos diferentes ou inéditos (rutura). O texto mostra-nos que a Aliança tinha sido quebrada pelos israelitas, mas Deus decide decretar uma renovação. Ele deseja uma relação que perdure, apesar da irresponsabilidade do povo. A fórmula da Aliança — «Eu serei o seu Deus e eles serão o meu povo» — é também um ato de profunda fidelidade da parte de Deus para com o povo de exilados.
Nesta nova situação, a Lei — os Mandamentos (Aliança no Sinai) — continua a ser o centro, mas será inscrita no coração («grava-la-ei no seu coração»), isto é, será intimamente familiar: os israelitas converter-se-ão em portadores dos Mandamentos, prontos a pô-los em prática.
A comunidade renovada será um povo com pleno conhecimento de Deus. Isto significa uma profunda intimidade com Deus e o reconhecimento da sua autoridade sobre toda a vida. O objetivo já não é um mero cumprimento do estipulado, mas «conhecer» a Deus. Para amar é preciso «conhecer»: Deus conhece-nos e ama-nos; Deus quer que o conheçamos e o amemos. Isto significa abrir a própria vida aos apelos de Deus e aceitá-los como critérios orientadores da nossa vida.
A concluir, fica claro e reforçado que o facto culminante da Aliança (nova ou renovada) é a iniciativa divina, pois não acontece por um arrependimento ou conversão por parte do povo, mas pela ação unilateral de Deus: «Vou perdoar os seus pecados e não mais recordarei as suas faltas». Deus é misericordioso! Dispõe-se a renovar uma e outra vez a Aliança, gravando-a no coração do ser humano.

Estamos perante um texto fundamental para compreender o cristianismo como plenitude da Aliança. A Igreja leu, neste anúncio de Jeremias, o anúncio da «Nova e Eterna Aliança» cumprida em Jesus Cristo. Sim, Jesus Cristo leva ao seu termo a condição de novidade, de interioridade, de conhecimento de Deus. Jesus Cristo faz duma religião de normas uma religião de vida interior.

© Laboratório da fé, 2015

Celebrar o domingo quinto da Quaresma (Ano B), no Laboratório da fé, 2015

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 21.3.15 | Sem comentários
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