CELEBRAR O DOMINGO DE RAMOS


Jerusalém: eis o quadro, decisivo e dramático, da liturgia de Domingo de Ramos. A aclamação dirigida a Jesus Cristo ecoa em todo o mistério pascal: para nos «dar a salvação» (sentido de «Hossana»), Jesus Cristo vai sofrer a Paixão e dar a vida, até à Cruz… Este domingo celebra já o dom total do seu amor: Jesus Cristo é o servo perfeito (segunda leitura), que se abandona confiante nas mãos do Pai (primeira leitura). Ele sabe que, do mais profundo da sua dor, o Pai lhe dará uma resposta (salmo). O caminho da cruz torna-se-á, para todos os que o seguem com fé, o caminho da vida, a fonte da alegria.

«Escutar, como escutam os discípulos»
Os poemas do «Servo de Yahveh» fazem parte do «Segundo Isaías» (capítulos 40 a 55). Surgem como uma janela aberta à novidade e à surpresa, num contexto de «consolação» prometida por Deus ao povo exilado na Babilónia. Ainda que tenha a vida em perigo, o Servo apresenta-se com grande comoção e profunda confiança.
Tudo o que se diz sobre o Servo está centrado em Deus: o seu ministério é-lhe confiado por Deus e há de ter o ouvido atento a qualquer mensagem divina: «escutar, como escutam os discípulos».
A missão do Servo é «dizer uma palavra de alento aos que andam abatidos». Trata-se do judeu exilado, cuja vida ficou destroçada pelo império opressor. É preciso, com a força poderosa da palavra, criar uma realidade alternativa que faça surgir um novo espaço de liberdade: novas possibilidades para além das realidades frustrantes de cada dia. Por isso, o Servo sofrerá a hostilidade, mas a sua resposta será sempre pacífica, pois confia em Deus e em Deus encontra consolação.
De quem fala o poema? Não se diz quem é, nem a razão da sua angústia. A figura do «Servo de Yahveh» é, ao mesmo tempo, particular e universal. Na Bíblia, encontramos várias vezes personagens abertas, o que indica que não existe um sentido único que possa explicar o seu significado mais profundo. Todavia, a Igreja leu sempre este texto aplicando-o a Jesus Cristo.

No início da Semana Santa, a liturgia apresenta o primeiro quadro do «Servo», sendo que os restantes vão surgir nos dias seguintes. Humilde e atento, partilha a sua sorte com as pessoas. A salvação oferecida por Deus traz consigo o caminho do «Servo de Yahveh», uma antecipação da experiência vital de Jesus Cristo. Hoje, se abrimos o ouvido do coração à Palavra de Deus, percebemos a profundidade das palavras do papa Francisco: «o Evangelho convida-nos sempre a abraçar o risco do encontro com o rosto do outro, com a sua presença física que interpela, com o seu sofrimentos e suas reivindicações, com a sua alegria contagiosa permanecendo lado a lado» (EG 88); «embora aparentemente não nos traga benefícios tangíveis e imediatos, é indispensável prestar atenção e debruçar-nos sobre as novas formas de pobreza e fragilidade, nas quais somos chamados a reconhecer Cristo sofredor: os sem abrigo, os toxicodependentes, os refugiados, os povos indígenas, os idosos cada vez mais sós e abandonados, etc.» (EG 210).

© Laboratório da fé, 2015

Celebrar o Domingo de Ramos (Ano B), no Laboratório da fé, 2015

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 28.3.15 | Sem comentários
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