Reflexão mensal sobre as obras de misericórdia [6]


«Dar de beber, nem que seja um copo de água fresca, aos ‘pequeninos’ é gesto que não será esquecido pelo Senhor Jesus Cristo (cf. Mateus 10, 42; Marcos 9, 41). Pelo contrário, cada ser humano que se encontra na penosa situação de ter sede torna-se sacramento da presença de Jesus Cristo e interpela a responsabilidade de quem tem a possibilidade de dessedentá-lo (cf. Mateus 25)» (Luciano Manicardi).

A sede na Bíblia

Na região do Médio Oriente, que constitui o cenário bíblico em que se desenrolam as experiências do povo de Israel, a água é um recurso particularmente precioso, porque a paisagem é árida ou semiárida, com precipitações de chuva marginais e sazonais, e muitas páginas bíblicas, bem como vários episódios da história de Israel, são atravessados pelo terror da seca e das suas consequências devastadoras. Aliás, a seca e a sede contam-se entre as maldições que atingirão Israel se este não obedecer à voz de Deus. Experiência dolo­rosa para o povo durante o caminho do êxodo do Egito foi a sede, o não encontrar oásis para se dessedentar ou encontrar «águas amargas» impróprias para beber. A falta de água ou a água impotável são problemas dramáticos, que ocorrem repetidas vezes na experiência bíblica. Frente ao dever sagrado de dar de beber devia parecer terrível a acusação de Elifaz, que procurava explicar a Job o estado lastimável a que este estava reduzido pelas culpas que cometera: «Não deste de beber ao sedento» (Job 22, 7). Por outro lado, são constantes as exortações a dar de beber a quem tenha sede e os testemunhos de tal prática: «Levai a água àqueles que têm sede» (Isaías 21,14). E nem sequer aos inimigos se pode recusar água: «Se o teu inimigo tem fome, dá-lhe de comer; se tem sede, dá-lhe de beber» (Provérbios 25, 21). Num episódio relatado apenas no segundo livro das Crónicas (28, 15), sobre a guerra siro-efraimita, é revelado que os prisioneiros foram libertados, trata­dos, fortalecidos e repatriados. O cuidado com que foram tratados parece esboçar desde já a tradição das obras de misericórdia: «revestiram com as vestes tiradas dos despojos aqueles que estavam nus, calçaram-nos, deram-lhes de comer e beber, trataram-lhes as feridas».

Água, fonte da vida

Dar de beber a quem tem sede é um dever absoluto, incluído na lei da hospitalidade; recusar-se a fazê-lo significaria condenar o sedento à morte. A tortura da sede, não dar de beber, conduz a uma morte horrível. Aos primeiros sinais de desidratação (tonturas, pele seca, febre, sentido de desorientação) vêm somar-se-lhes o inchaço da língua, a incapacidade de caminhar e até de se arrastar por falta de forças, as gretas e a descarnação da pele, a subida cada vez maior da temperatura corporal, até que os rins e o fígado deixam de funcionar, perde-se a capacidade de controlar o ritmo da respiração e o batimento do coração, sobrevém o coma e depois a morte. A água, fonte da vida, é um recurso renovável, mas limitado, e a crise hídrica mundial corre o risco de assumir proporções de catástrofe global, embora, de momento, «seja a emergência mais ignorada e mais subestimada dos nossos dias». Entre os fatores que estão na base de tal crise contam-se mutações climáticas, sobre as quais incide profundamente a responsabilidade humana (aumento do aquecimento global, desertificação), crescimento da população e dos estabelecimentos urbanos, intervenções impensadas do homem sobre o território: inquinamento (descargas civis, industriais, de adubos e pesticidas), desflorestação, construção de grandes barragens que alteram a morfologia da paisagem, o curso dos rios e os equilíbrios da vida aquática e terrestre, tendo ainda dolorosas consequências sociais e políticas (êxodos humanos, submersão de bens naturais e culturais, discórdias, conflitos). É necessário reconhecer que a água é um direito e não uma mercadoria, e que a disponibilidade de água e o acesso à água potável constitui um direito essencial. Ou é reconhecida como um direito, ou transformar-se-á cada vez mais num privilégio.

A correção na Bíblia

Jesus de Nazaré, na sua vida marcada pela pregação do Reino de Deus que requer conversão e arrependimento urgentes, e na sua vida de comunhão com um grupo de discípulos, denuncia, com coragem e liberdade, as hipocrisias religiosas, as violências e os abusos dos poderosos, ou a preguiça do coração dos discípulos... Herdeiro da tradição veterotestamentária, que vê o profeta como sentinela que desperta no povo a consciência dos seus pecados em vista da conversão, Jesus assume o encargo de corrigir e admoestar os seus contemporâneos, como parte da missão recebida do Pai. Para Jesus, a correção faz parte da sua obediência à vontade do Pai. Aplicada com palavras por vezes gritadas, para vencer a surdez do coração endurecido, por vezes magoadas, frente à evidência da não-escuta e, outras vezes ainda, sussurradas com melancólica doçura, ou expressa com um simples olhar silencioso, a correção de Jesus, fundada sobre o amor aos humanos e capaz de transmitir o amor do Pai, tem sempre em vista a vida do pecador. As cartas do Novo Testamento mostram que a correção fraterna é inerente ao ministério do apóstolo, mas também que ela diz respeito, na verdade, a cada cristão. Paulo reconhece na capacidade de correção fraterna dos cristãos de Roma um elemento da sua maturidade na fé: «Vós sois capazes de vos corrigirdes uns aos outros» (Romanos 15,14). Os cristãos de Colossos são exortados a corrigir-se mutuamente: «A palavra de Cristo habite em vós com toda a sua riqueza: ensinai-vos e admoestai-vos uns aos outros com toda a sabedoria; cantai a Deus, nos vossos corações, o vosso reconhecimento, com salmos, hinos e cânticos inspirados» (Colossenses 3,16). A correção fraterna recíproca é um dos modos pelos quais a palavra de Jesus Cristo faz, concretamente, morada na comunidade cristã. Aliás, o verdadeiro sujeito de uma correção fraterna, exercida com humanidade e em conformidade com o Evangelho, é o próprio Senhor: «corrige aquele a quem ama» (Hebreus 12, 6; Apocalipse 3, 19). Sim, o amor verdadeiramente espiritual é capaz de corrigir e de admoestar o amado. Com efeito, as pessoas correm o risco de calar o mal por amor ao pecador, tornando-se assim suas cúmplices. Se, por um lado, o ato de instruir os ignorantes se dirige à inteligência das pessoas para iluminá-la, a admoestação dos pecadores dirige-se à vontade débil de quem, embora conhecendo a vontade divina, não soube estar à sua altura. Eis, então, por que o Novo Testamento fala de corrigir os desobedientes e de admoestar os indisciplinados. A correção é fruto do Espírito. Dirige-se ao pecador, não como a um inimigo, mas como a um irmão, e pode assim resultar na recondução ao caminho da vida de um irmão que se estava a extraviar.

Correção fraterna

A correção fraterna deve ser sempre um ato que une misericórdia e verdade, compaixão e parrésia, amor ao irmão e obediência ao Evangelho, autoridade e doçura. Na comunidade cristã a correção do irmão que cai no erro é uma responsabilidade associada ao facto de todos nós sermos membros do mesmo corpo. Na correção fraterna, eu rompo com o individualismo que me dissocia do outro e que me leva a pensar apenas em mim e na minha «perfeição» individual; assumindo o encargo da correção, saio da indiferença em que muitas vezes me refúgio para me proteger do duro encontro com o outro; com ela, mostro que sou responsável pela santidade do irmão e assumo o seu pecado como se fosse meu. Afinal, em que consiste a correção fraterna? O verbo grego muitas vezes utilizando no Novo Testamento indica «colocar a mente» sobre outro para ajudá-lo a descobrir os seus enganos, e a evitá-los: trata-se, portanto, de uma atenção amorosa, de uma vigilância sobre o outro a fim de corrigir os seus eventuais erros. Além disso, a correção é necessária para não alimentar rancor no coração: com efeito, se não se corrige o irmão pecador, chegar-se-á a odiá-lo. A correção não é, portanto, apenas para bem do irmão que recebe a correção, mas também para bem daquele que a aplica. Quem, podendo fazê-lo, não corrige o irmão, peca contra o mesmo. A correção pretende fazer o irmão regressar à relação de aliança: por isso, deve ser reativado o movimento de escuta, estabelecendo um contexto de confiança. A correção, com efeito, deve dar-se não como juízo, mas como serviço de verdade e de amor ao irmão. Embora essencial na vida espiritual e eclesial, a correção fraterna é pouco e mal praticada. Porquê? Porque a verdadeira correção exige um trabalho sobre si, da parte de quem a exerce; um trabalho que o leve a aprender a conviver com o mal do outro e também com o seu próprio mal. Só quem aprendeu a discernir o mal que habita em si poderá assumir o mal do irmão e tratá-lo como médico experiente. Experiente com base na própria vivência de doente que foi curado, de pecador que foi perdoado. Se é difícil aplicar a correção, também não é fácil recebê-la: as pessoas recusam-se a abrir o coração, a admitir os erros, temem a humilhação, iludem-se, pensando que conseguirão corrigir-se a si próprias, sem necessidade de ajuda, esperam que as coisas se resolvam sozinhas, com o tempo. A correção fraterna, retamente entendida e vivida, pode tornar-se uma relação sacramental em que, através de um ser humano, o próprio Deus se faz presente a outro ser humano.

Se tudo isto ocorrer, 
a correção fraterna poderá produzir 
um fruto de paz e de bênção. 

Luciano Manicardi

© Laboratório da fé, 2015
Este texto foi elaborado a partir da obra de Luciano Manicardi intitulada «A caridade dá que fazer: Redescobrindo a atualidade das ‘obras de misericórdia’» (páginas 121 a 128 e 195 a 205) publicada em português pelas edições Paulinas





Laboratório da fé, 2014
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 1.3.15 | Sem comentários
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