Viver a fé! [21]


O sexto capítulo do Compêndio da Doutrina Social da Igreja é dedicado à temática do «trabalho humano» (255 a 322). No primeiro ponto destacam-se os «aspetos bíblicos» (números 255 a 266) do trabalho, expostos em três alíneas: a tarefa de submeter a terra; Jesus, homem de trabalho; O dever de trabalhar.

A tarefa de submeter a terra

«O Antigo Testamento apresenta Deus como criador, que plasma o ser humano à sua imagem e o convida a cultivar a terra e a guardar o jardim do Éden [...]. O domínio do ser humano sobre os demais seres viventes não deve todavia ser despótico e destituído de bom senso [...]. Cultivar a terra significa não abandoná-la a si mesma; exercer domínio sobre ela e guardá-la, assim como um rei sábio cuida do seu povo e um pastor da sua grei» (255). Portanto, «o trabalho pertence à condição originária do homem e precede a sua queda; não é, portanto, nem punição nem maldição» (266). «O trabalho deve ser honrado porque fonte de riqueza ou pelo menos de condições de vida decorosas e, em geral, é instrumento eficaz contra a pobreza, mas não se deve ceder à tentação de idolatrá-lo, pois que nele não se pode encontrar o sentido último e definitivo da vida. O trabalho é essencial, mas é Deus – não o trabalho – a fonte da vida e o fim do ser humano» (257). «Ápice do ensinamento bíblico sobre o trabalho é o mandamento do repouso sabático. [...] O repouso consente aos homens recordar e reviver as obras de Deus, da Criação à Redenção, e reconhecerem-se a si próprios como obra do mesmo Deus, dar-Lhe graças pela própria vida e subsistência, a Ele, que é seu autor. A memória e a experiência do sábado constituem um baluarte contra a escravização do ser humano pelo trabalho, voluntário ou imposto, contra toda a forma de exploração» (258).

Jesus, homem de trabalho

«Na sua pregação, Jesus ensina a apreciar o trabalho. [...] Jesus condena o comportamento do servo indolente, que esconde debaixo da terra o talento (cf. Mateus 25, 14-30) e louva o servo fiel e prudente que o patrão encontra aplicado a cumprir a tarefa que lhe fora confiada (cf. Mateus 24, 46). Ele descreve a sua própria missão como um trabalho: ‘Meu Pai trabalha continuamente e Eu também trabalho’ (João 5, 17); e os seus discípulos como operários na messe do Senhor, que é a humanidade a evangelizar (cf. Mateus 9, 37-38)» (259). «Na Sua pregação, Jesus ensina os homens a não se deixarem escravizar pelo trabalho» (260). «Durante o seu ministério terreno, Jesus trabalha incansavelmente, realizando obras potentes para libertar o homem da doença, do sofrimento e da morte» (261). Outros textos do Novo Testamento, nomeadamente as Cartas de Paulo e de João ajudam a entender que «a atividade humana de enriquecimento e transformação do universo pode e deve fazer sobressair as perfeições nele escondidas, que no Verbo encarnado têm o seu princípio e o seu modelo. [...] O trabalho humano transforma-se num serviço prestado à grandeza de Deus» (262). Assim, «o trabalho representa uma dimensão fundamental da existência humana como participação não só na obra da criação, mas também na redenção. [...] O trabalho pode ser considerado como um meio de santificação» (263).

O dever de trabalhar

«A consciência da transitoriedade da ‘figura deste mundo’ não isenta de nenhum empenho histórico, muito menos do trabalho, que é parte integrante da condição humana, mesmo não sendo a única razão de vida. Nenhum cristão [...] deve sentir-se no direito de não trabalhar e de viver à custa dos outros; todos, antes, são exortados [...] a não serem ‘pesados a ninguém’ e a praticar uma solidariedade também material, compartilhando os frutos do trabalho com ‘o necessitado’» (264). «Os Padres da Igreja nunca consideram o trabalho ‘opus servile’ – assim era concebido, pelo contrário, na cultura sua contemporânea –, mas sempre ‘opus humanum’, e tendem a honrar todas as suas expressões. [...] O cristão é chamado a trabalhar não só para conseguir o pão, mas também por solicitude para com o próximo mais pobre [...]. Cada trabalhador, afirma Santo Ambrósio, é a mão de Cristo que continua a criar e a fazer o bem» (265). «Com o seu trabalho e a sua laboriosidade, o ser humano, partícipe da arte e da sabedoria divina, torna mais bela a criação, o cosmos já ordenado pelo Pai; suscita aquelas energias sociais e comunitárias que alimentam o bem comum, a favor sobretudo dos mais necessitados. O trabalho humano, animado pela caridade, converte-se em ocasião de contemplação, transforma-se em devota oração, em ascese vigilante e em trépida esperança do dia sem ocaso» (266).

© Laboratório da fé, 2015 
Os números entre parêntesis dizem respeito ao «Compêndio da Doutrina Social da Igreja» 
na versão portuguesa editada em 2005 pela editora «Princípia» 





Laboratório da fé, 2014


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 26.2.15 | Sem comentários
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