CELEBRAR A QUARTA-FEIRA DE CINZAS


Eis o tempo da Quaresma! Tempo em que a Igreja é convidada à «conversão»: não é esta a primeira afirmação da primeira leitura deste primeiro dia? «Convertei-vos a Mim de todo o coração» (primeira leitura) — diz o nosso Deus. Um caminho a percorrer, pessoal e comunitariamente, interior e exteriormente, física e espiritualmente, em todas as dimensões do nosso ser. Um caminho para redescobrir a alegria da salvação (salmo). Assim, aprenderemos a praticar as boas obras «em segredo» (evangelho), como agrada a Deus, ao serviço dos irmãos. Não há tempo a perder: «este é o tempo favorável, este é o dia da salvação» (segunda leitura).

«Convertei-vos a Mim de todo o coração»
Quase nada se sabe sobre o profeta Joel, nem sobre o momento histórico ou as crises em que viveu. É provável que se situe num período posterior ao exílio na Babilónia, entre os séculos quinto e quarto, antes de Cristo. Portanto, no texto proposto para primeira leitura de Quarta-feira de Cinzas, não sabemos quem são os primeiros destinatários a quem se dirige o profeta.
Ouve-se a trombeta em sinal de alarme, na cidade de Jerusalém. A crise é muito grave. O oráculo quer despertar os habitantes adormecidos. Diz o que é preciso fazer: «Convertei-vos a Mim de todo o coração». Deus pede, não uma simples mudança de roupa, mas uma mudança sincera, «de todo o coração» (de toda a vida).
A resposta, que se inicia com o toque da trombeta, é um ato de religiosidade profunda, que há de romper a indiferença em que se tinha vivido. Na reunião do povo, é necessário expressar a conversão. Isto significa rever a situação. Há que se colocar diante de Deus e «rasgar o coração». Parece que o povo de Jerusalém se tinha esquecido de Deus. Quando isto acontece, a vida perde o sentido e a orientação. Quando nos convertemos a Deus, recordarmos de quem se trata: o Deus «clemente e compassivo, paciente e misericordioso». Quando quebramos a fidelidade para com Deus, as relações humanas tornam-se infiéis e a sociedade fica desintegrada. Então, ganham sentido os atos religiosos que são propostos: servem para recordar quem é Deus realmente, quais são as suas promessas e o que pede ao seu povo. 

A Quarta-feira de Cinzas é um convite a rever a nossa situação perante Deus e perante o mundo. Somos convidados a reinterpretar e a reorganizar a nossa vida, a assumir uma nova atitude de escuta, a «retornar à audição» (José Tolentino Mendonça) dos desafios atuais. «Há tanta coisa que nos está a ser dita e que nós simplesmente não escutamos!».
O rito típico deste dia — a imposição das cinzas — tem uma origem judaica e significa arrependimento e dor pelos pecados; mas, para nós, cristãos, vem acompanhado com as palavras de Jesus Cristo: «Converte-te e acredita no Evangelho». É um convite decisivo à mudança (conversão) para acolher a «alegria do Evangelho» que «enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus» (Francisco, Exortação Apostólica sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual — «A Alegria do Evangelho», 1).

© Laboratório da fé, 2015

Celebrar a quarta-feira de cinzas, no Laboratório da fé, 2015

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 18.2.15 | Sem comentários
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