Reflexão mensal sobre as obras de misericórdia [5]


«Não bastam as boas intenções para realizar, de modo adequado, a visita a um doente; pelo contrário, essas intenções podem ser perigosas precisamente na sua obtusa bondade. Corre-se o risco de não haver encontro com a pessoa visitada, de se sair reforçado pela debilidade desta e gratificados pelo próprio gesto de ‘bondade’ que se está a realizar» (Luciano Manicardi).

A experiência de Job

O livro de Job pode ser apresentado como a história de amigos que se tornam inimigos ao realizarem o piedoso ato de ir ao encontro do doente. E a história de pessoas que querem consolar e que acabam por ser chamados «consoladores importunos», «fazedores de mentira», «charlatães». Eles realizam os gestos rituais do luto e da dor e parecem amigos sinceros, mas, na verdade, fazem gorar o encontro com o doente. Os amigos de Job enganam-se não só por não compreenderem que a cabeceira de um doente não é o lugar adequado para uma lição de teologia, mas sobretudo porque vão ter com ele cheios de certezas, de sapiência e de poder. Eles «sabem» que a doença de um ser humano esconde alguma culpa, pela qual ele é castigado e está a sofrer: segundo eles, Job deverá arrepender-se, confessar a sua culpa e, assim, ser curado. Deste modo, transformam a vítima em culpado. Presumem que «sabem» melhor do que o próprio doente aquilo de que ele precisa, e estão convencidos de possuir os requisitos para consolá-lo com eficácia. Apresentando-se como salvadores, eles estabelecem um triângulo perverso em que fazem do doente uma vítima, tornando-se seus perseguidores e, ao mesmo tempo, alvo das suas acusações. Os dois protagonistas do drama, visitantes e doente, entram numa relação complexa em que ambos vestem, alternadamente, o traje de perseguidor e de vítima, fazendo-o a partir da pretensão inicial dos visitantes de serem salvadores. Colocando-se a si próprios como aqueles que «podem» ajudar e consolar o «pobre Job», erigem-se em seus salvadores, transformando-se, ao fazê-lo, em seus perseguidores. Em suma, quando se pratica essa delicada arte que é a visita ao doente, há que tomar consciência de que não se tem poder sobre o doente.

Visitar/ver o doente

Para indicar a visita ao doente, o hebraico usa por vezes o verbo «ra’ah», que significa «ver», mas este «ir ver o doente» significa, em sentido mais profundo, «escutar» o próprio doente, deixar que seja ele a guiar a relação, não fazer nada para além do consentido por ele, ater-se ao quadro relacional que ele apresenta. O mestre é o doente! É ele que detém um magistério diante do qual o visitante deve colocar-se à escuta. Surgem, então, duas perguntas essenciais para aquele que vai visitar um doente: porquê visitar um doente? Como visitar um doente? O ato de «visitar/ver» implica apreciação, consideração, providência e conhecimento. Ser vistos/visitados deve significar, portanto, um ser apreciados, estimados e considerados, ter valor para alguém. E o doente poderá apreender, no interesse e no cuidado que lhe demonstrou o visitante, um sinal da solicitude e do cuidado que o próprio Senhor tem por ele. Na situação de solidão e de impotência em que muitas vezes se encontra, o doente pede, a quem está a seu lado, para ser escutado; pede para ser aceite na sua situação, mesmo que aquilo que ele é, faz ou diz não seja aprovado pelos visitantes. Diz Job: «O doente precisa da lealdade dos amigos, mesmo que renegue o Omnipotente» (Job 6, 14; cf. 19, 21). «Escutai atentamente as minhas palavras! Seja ao menos este o conforto que me dais» (Job 21, 2; cf. 13, 6). Escutar é permitir a presença do outro e visitar o doente significa reconhecer e respeitar o seu espaço, evitando ao máximo ocupá-lo. E a passagem de Ben Sira afirma: «Não sejas preguiçoso em visitar um doente, porque é assim que lhe cativarás o afeto» (7, 35). Ou seja, visitando um doente, o homem cumpre o mandamento de amar o próximo (cf. Levítico 19, 18) recebendo, em troca, o seu amor..

Suportar as fraquezas do nosso próximo

Quando sentimos que uma pessoa é insuportável? Por que motivo determinado comportamento de uma pessoa nos aborrece? Quanto nos afeta a debilidade de alguém, que nos parece insuportável, também se manifesta uma revelação de nós a nós mesmos. Quando sentimos a debilidade de uma pessoa aborrecida e incómoda, isso pode ser simplesmente a expressão de sentimentos egoístas e racistas, ou de medo e de rejeição do confronto. Ora, a capacidade de suportar tem por fundamento o Evangelho e o exemplo de Jesus Cristo, e torna-se possível pela fé. A este propósito, importa perceber que isto não tem nada a ver com o suportar passivamente o sofrimento. A atitude — livre e amorosa — de suportar quem é incómodo, antipático, aborrecido, lento, carenciado, equipara-se ao amor ao inimigo. E requer que trabalhemos sobre nós mesmos para aprendermos a conhecer e a amar o inimigo que existe em nós, aquilo que em nós é incómodo, aquilo que nos é insuportável e que Deus, em Jesus Cristo, suportou pacientemente, amando-nos de modo incondicional. Deste modo, torna-se abertura de futuro; para o outro, confirmação de confiança nele, luta a seu lado e em seu favor contra a tentação do desespero. O suportar paciente do outro, que é sentido como aborrecido ou hostil, caminha a par e passo com a paciência para consigo mesmo e para com as suas incongruências, frente aos acontecimentos que se opõem aos nossos desejos e à nossa vontade, frente a Deus, cujo desígnio de salvação continua incompleto. Longe de ser sinónimo de debilidade, a paciência é força em relação a nós mesmos, capacidade de agir de forma compulsiva, espera dos tempos do outro, capacidade de suportar o outro, de apoiar e carregar o outro. Trata-se, portanto, de um momento particularmente importante na edificação das relações interpessoais e eclesiais. Não é por acaso que o Novo Testamento exorta com frequência a ter paciência e a suportar os outros no contexto de difíceis relações comunitárias: «Suportai-vos uns aos outros e perdoai-vos mutuamente se alguém tiver razão de queixa contra outro» (Colossenses 3, 13). O suportar-se mutuamente é manifestação de caridade.

Exorto-vos a que procedais 
de um modo digno
do chamamento que recebestes;
com toda a humildade e mansidão, 
com paciência: 
suportando-vos uns aos outros 
no amor.
Carta aos Efésios 4, 1-2

Paciência

O hebreu bíblico fala de Deus como «lento para a ira», para indicar a sua paciência. Paciência que é, portanto, intenção de amor para com o ser humano, mas também sofrimento frente ao pecado do ser humano: «Até quando terei de ouvir esta assembleia má a murmurar contra mim?» — diz Deus a Moisés e a Aarão (Números 14, 27). A paciência, com efeito, não quer tornar-se cúmplice do mal cometido. A paciência divina não é ausência de cólera, mas capacidade de elaborá-la, de domá-la, de interpor uma espera entre a sua insipiência e a sua manifestação: «Muitas vezes conteve a sua ira, e não deixou que o seu furor se avivasse. Lembrou-se de que eles eram humanos, um sopro que passa e não volta mais (Salmo 78, 38-39). A paciência é o olhar generoso de Deus fixo no ser humano, olhar que não se detém nos detalhes, no acidente de percurso, que não considera o pecado definitivo, mas que o coloca no contexto de todo o caminho existencial que o ser humano é chamado a percorrer. Portanto, ela expõe Deus ao risco de não ser tomado a sério, de ser «usado» pelo ser humano. A paciência de Deus não é impassibilidade nem passividade, mas a longa respiração da sua paixão, paixão de amor que aceita sofrer esperando os tempos do ser humano e a sua conversão: «Não é que o Senhor tarde em cumprir a sua promessa, como alguns pensam, mas simplesmente usa de paciência para convosco, pois não quer que ninguém pereça, mas que todos se convertam» (2Pedro 3, 9). Por isso, o tempo concedido ao ser humano deve ser considerado como revelação da «longanimidade» de Deus, e, portanto, apreendido como «salvação» (2Pedro 3, 15). Em Jesus Cristo e, de modo particular, na sua paixão e morte, a paciência de Deus alcança o seu ápice enquanto assunção radical da incapacidade e debilidade do ser humano, do seu pecado. Em Cristo, Deus aceita «carregar o fardo», «suportar» a insuficiência e incapacidade humanas, assumindo a responsabilidade pelo homem na sua falibilidade. A «paciência de Cristo» (2Tessalonicenses 3, 5) exprime assim o amor de Deus, do qual é sacramento: «O amor é paciente»; «o amor tudo suporta» (1Coríntios 13, 4.7). Além disso, para o cristão, a paciência é fruto do Espírito (cf. Gálatas 5, 22) e declina-se como perseverança e constância nas tribulações e nas provas, como capacidade de suportar e de tolerar quem causa aborrecimentos e suscita conflitos, como olhar longânime frente às incapacidades alheias. A paciência é a arte de viver a insuficiência. E a insuficiência, encontramo-la nos outros, mas também em nós, na realidade e em Deus. Na tradição cristã, a paciência é considerada uma virtude, ou até «a maior virtude». Hoje, porém, a paciência perdeu grande parte do seu fascínio: os tempos acelerados suscitam a impaciência, o não adiamento, o «agora e já», a posse que não dá lugar à espera. Eis, então, que a paciência, que outrora constituía uma modalidade sábia e humana de habitar o mundo, é votada ao esquecimento.

© Laboratório da fé, 2015
Este texto foi elaborado a partir da obra de Luciano Manicardi intitulada «A caridade dá que fazer: Redescobrindo a atualidade das ‘obras de misericórdia’» (páginas 121 a 128 e 195 a 205) publicada em português pelas edições Paulinas





Laboratório da fé, 2014
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 5.2.15 | Sem comentários
0 comentários:
Enviar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...
  • Recentes
  • Arquivo
  • Comentários