Reflexão mensal sobre as obras de misericórdia [4]


«Partilhar a roupa é um gesto de intimidade que implica delicadeza, discrição e ternura, pois tem diretamente a ver com o corpo do outro, [...] o rosto descoberto, que permanece nu. [...] Só na medida em que o ‘vestir os nus’ é encontro de nudez, a nudez do rosto de quem dá e do rosto de quem recebe, e sobretudo a nudez dos olhos, que são a parte mais exposta do rosto esse gesto deixa de correr o risco de ser humilhante, e dá-se no único espaço que confere verdade a cada gesto de caridade: o encontro com o outro» (Luciano Manicardi).

A nudez

«Saí nu do ventre de minha mãe e nu voltarei para lá» (Job 1, 21). A vida humana desenrola-se entre duas nudezas: a nudez do início da vida, e a nudez do fim da vida. Duas nudezas diferentes porque, no meio ocorre o processo de subjetivação: se nascemos nus, no fim da vida despojamo-nos [das vestes]. Como é óbvio, trata-se de um processo físico que tem a ver com a nudez do recém-nascido e com a nudez do morto, mas também tem um valor psicológico e simbólico: no fim da vida abandonamos aquilo a que nos tínhamos ligado, deixamos aquilo a que nos tínhamos habituado, vivemos um luto. Neste processo, a carne que o recém-nascido é torna-se corpo, e o corpo, com a morte, torna-se cadáver. Além disso, a nudez do recém-nascido e do cadáver é sempre revestida por outros, enquanto, na fase da subjetividade, o ser humano se veste a si próprio, exceto nos casos de impossibilidade por doença ou deficiência. O ato de vestir a nudez do início e do fim da vida coloca toda a existência humana sob o signo dos cuidados necessários ao nosso ser-corpo. O vestir-se é uma arte que a criança aprende, graças à mãe que o veste; mais tarde, o ancião tem muitas vezes de pedir ajuda para se vestir e para se despir. Além disso, ao longo da sua vida, há situações de pobreza e de miséria que podem despojar dos bens e reduzir à nudez, uma nudez que significa não só exposição às inclemências do tempo, mas também humilhação, indignidade, inermidade, ausência de defesas, perigo. A nudez é abandono ao estado natural, ao passo que o vestir é obra de cultura e distingue o humano dos animais. A roupa traduz o sentido de pudor que talvez seja o mais antigo gesto que nos distingue dos animais e que não se limita ao âmbito sexual, mas que abarca a totalidade do ser humano.

Vestir os nus

Não ter roupa ou estar quase nus ou cobertos de farrapos é uma condição que tem importantes conotações psicológicas e espirituais. Na Bíblia, uma boa parte do valor simbólico da nudez é negativa: trata-se da nudez que retira identidade, da nudez do anónimo, do sem dignidade: o escravo que é vendido, o preso privado da liberdade, a prostituta exposta aos olhares de todos, o doente mental que vive numa condição de alienação. A Bíblia mostra particular interesse pela nudez inocente e humilhada do pobre, da vítima, do marginal. A simples referência à mesma significa já dar voz a quem não tem voz e pretende suscitar a compaixão ativa de quem depara com tais situações. Na tradição cristã ocidental, o gesto de vestir os nus é expresso, de um modo conhecido de todos, pelo episódio em que Martinho de Tours corta o próprio manto para reparti-lo com um pobre indefeso dos rigores de um inverno gélido. O revestimento da nudez não se encontra apenas no início da vida humana e da passagem da natureza à cultura, mas também tem uma importância significativa na iniciação cristã, como o denota a antiga práxis batismal (do século III ao século VI). No fim do século IV, na região siríaca, o desenrolar do rito batismal compreendia o ato com o qual o/a neófito/a se despojava das próprias vestes e as espezinhava; a unção do seu corpo nu; a imersão (ainda completamente nu) nas águas batismais; e, por fim, o ato pelo qual, tendo saído da piscina, o neobatizado era revestido com uma túnica branca. A nudez gloriosa de Cristo morto (na cruz, o condenado estava completamente nu, para significar a sua indignidade) e ressuscitado reveste e protege o recém-batizado, que agora sabe que já se encontra mergulhado numa vida nova, tendo-se «revestido de Cristo»: «Batizados em Cristo, revestistes-vos de Cristo» (Gálatas 3, 27).

A consolação

A consolação é uma prática que o ser humano enquanto tal conhece, deseja, pede, concretiza, frente às situações de morte, de sofrimento físico e moral, de velhice, de solidão e abandono; ou melhor, frente a pessoas enlutadas, em sofrimento, entregues à sua velhice, isolamento e abandono. A Antiguidade desenvolveu uma verdadeira arte da consolação que se foi diversificando em relação às diversas situações de aflição (um luto também é diferente se se refere a uma morte inesperada, a uma morte trágica, à morte de uma criança recém-nascida, à morte de um filho já crescido, a uma morte prematura ou à morte de um idoso). A arte de consolar consistia numa presença compassiva, na capacidade de proferir palavras sentidas como expressão de encorajamento e de proximidade, através de visitas de condolências e de bilhetes ou cartas em tom consolador. O verbo grego que indica o ato de consolar («parakalein»), significa, a um primeiro nível, «chamar para junto de si», «mandar chamar», significa em seguida «exortar», «suplicar» e também «consolar». Mediante a consolação tenta-se criar uma proximidade, fazer «presença junto de» quem está na desolação e no isolamento. É certo que, por vezes, a consolação pode ser transmitida por palavras. Na primeira carta aos cristãos de Tessalónica, Paulo anuncia a esperança cristã frente à morte para consolar uma comunidade aflita com a morte de alguns dos seus membros, e conclui: «Consolai-vos mutuamente com estas palavras» (4, 18). Todavia, muitas vezes, sobretudo quando quem está na aflição é uma única pessoa, as palavras revelam-se inadequadas, ou antes, inimigas de uma verdadeira consolação. Os amigos que foram ter com Job «para consolá-lo», depois de se terem colocado ao lado do desventurado com lamentos, prantos, gestos de luto e, por fim e acima de tudo, com um longo silêncio, «pois viram que a sua dor era demasiado grande» (Job 2, 11-13), quando começaram a falar arruinaram a sua presença ali, revelando-se «consoladores importunos» (Job 16, 2). E Job sabe desmascarar a consolação falsa e vazia. Uma verdadeira consolação consiste numa presença capaz de escuta. Uma presença que não avilta a desgraça do aflito com palavras falsamente tranquilizantes e ilusoriamente espirituais, com discursos teológicos, que, inevitavelmente, não alcançam a tragédia que a pessoa está a viver, antes, dela se distanciam. Muitas vezes, apressar discursos é sinal de angústia e de medo frente à aflição do aflito. Mais difícil, mas mais capaz de alcançar o outro na sua dor, é escutar o seu sofrimento, deixar que seja o seu silêncio, o seu estado de espírito, a sugerir gestos, tempos, movimentos, silêncios, palavras, olhares, abraços, carícias, distâncias, para lhes poderem servir realmente de consolação.

Consolar os tristes

A consolação tem os seus tempos, tal como a tristeza. Temos de nos despojar das formas de «poder» que nos podem habitar, de renunciar às respostas salvíficas, à ilusão de possuir «técnicas» de consolação. Além disso, aquele que se faz próximo de quem está «triste» nunca poderá substituí-lo, caso contrário, a sua ação será de violência, e não de encontro nem de consolação. Vital, na ação de consolação, é evitar a presunção de que se sabe e pode consolar, do delírio de omnipotência de pensar que o bem-estar do outro dependa de nós. A consolação não é uma intervenção anestésica. Trata-se de entrar, de certo modo, na situação do outro, ou melhor, de estar ao lado do outro e de mostrar empatia comunicando-lhe o nosso sentimento, que ocorre mediante uma sábia e equilibrada relação de tensão do corpo, atenção da mente e sensibilidade das emoções. Realidade desanimadora, pelo contrário, é que, muitas vezes, não há quem console. Na Bíblia repete-se com frequência esta lamentação: «Esperava alguém que me consolasse, mas não encontrei» (Salmo 69, 21), ou esta amarga constatação: «Vede as lágrimas dos oprimidos: eles não têm consolador. Os seus opressores fazem-lhes violência: eles não têm consolador» (Eclesiastes 4, 1). Entre as expressões usadas há o «falar ao coração» (Génesis 50, 21; Isaías 40, 1-2), que designa o gesto amoroso e afetuoso de quem apoia a cabeça sobre o peito da pessoa amada e lhe dirige palavras que pretendem atingi-la profundamente, no coração. Trata-se de uma comunicação íntima e pessoalíssima. Se o próprio Deus é o verdadeiro sujeito da consolação, a sua ação de consolador é descrita recorrendo às imagens de uma mãe (cf. Isaías 66, 13) e de um pastor (cf. Isaías 40, 11). Assim, a consolação revela-se como elemento essencial do cuidado que Deus tem pelo seu povo e pelas suas criaturas, cuidado esse que tende para a plenitude de vida do seu povo. É significativo que a imagem talvez mais comovente, que exprime a salvação escatológica, seja a de Deus que enxuga as lágrimas dos olhos das criaturas (cf. Apocalipse 7, 17; 21, 4). É verdade que a consolação definitiva, no Cristianismo, é escatológica, é obra de Deus, porque pretende ser consolação radical frente ao mal e ao pecado. Esta consolação só pode vir de Deus.

Entre as mais praticáveis... 
obras de misericórdia espirituais, 
há uma sempre necessária [...]: 
consolar os aflitos. 
A civilização contemporânea 
teme os aflitos e foge deles, 
e não sabe transmitir 
o contágio da consolação.
Paolo de Benedetti

© Laboratório da fé, 2015
Este texto foi elaborado a partir da obra de Luciano Manicardi intitulada «A caridade dá que fazer: Redescobrindo a atualidade das ‘obras de misericórdia’» (páginas 103 a 110 e 179 a 186) publicada em português pelas edições Paulinas





Laboratório da fé, 2014
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 3.1.15 | Sem comentários
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