Reflexão mensal sobre as obras de misericórdia [2]


«A caridade é atenção ao corpo do outro. E como o corpo é a realidade humana mais espiritual, é através do contacto com o corpo ferido, carente, sofredor, necessitado, que recriamos as condições de dignidade do ser humano ferido e ofendido, injuriado pela vida. [...] A tradição das obras de misericórdia é atividade eminentemente espiritual, precisamente no seu acontecer no corpo e graças ao corpo» (Luciano Manicardi).

Sepultar os mortos

A sepultura dos mortos não está incluída entre as obras de misericórdia enumeradas no capítulo vinte e cinco de Mateus (versículos 31 a 46), mas é prática de piedade bem estabelecida no Judaísmo. O livro de Ben Sira ou Eclesiástico (capítulo 38, versículo 16) exorta: «Filho, derrama lágrimas sobre o morto, e chora como um homem que sofreu um rude golpe. Sepulta o seu corpo segundo o costume, e não desprezes a sua sepultura» (Sir 38,16). A ausência de sepultura era considerada uma maldição e uma condição vergonhosa (cf. Salmo 79, 2-3; Jeremias 16, 4-6; 25, 33), e era a sorte miserável dos ímpios (cf. Deuteronómio 28, 26; Isaías 34, 3). Por isso, a exigência de dar sepultura adequada aos mortos é assim expressa no livro de Ben Sira (capítulo 7, versículo 33): «Dá de boa vontade a todos os vivos, e não recuses o teu benefício a um morto». As práticas fúnebres da Bíblia mostram que os parentes próximos podiam dar ao morto um último abraço e um último beijo (Génesis 50, 1: «José precipitou-se sobre o rosto de seu pai e cobriu-o de lágrimas e de beijos»). O uso de fechar os olhos do morto, também referido no livro do Génesis (cf. capítulo 46, versículo 4), explica-se pela equiparação da morte ao sono, sendo prática comum em muitas culturas. Lembremos que o termo «cemitério» deriva de um termo grego que significa «dormitório». Numa homilia inteiramente dedicada a explicar o termo «cemitério», João Crisóstomo escreve: «O lugar da sepultura chama-se ‘cemitério’ para que se saiba que aqueles que aí repousam não estão mortos, mas a dormir»; e, depois de ter observado que, muitas vezes, na Escritura, a morte é evocada com a imagem do sono e se diz dos mortos que estão adormecidos, acrescenta que daí deriva a palavra «cemitério», ou seja, «dormitório», «lugar onde se dorme».

Respeitar o cadáver

Na tradição bíblica, a sepultura sempre foi tida na máxima consideração, a par dos cuidados a prestar ao cadáver (lavar o defunto, pentear, vestir). Por outro lado, a cremação dos corpos em Israel nunca foi praticada e era considerada um ultraje ao corpo ou, então, era uma prática abominável, reservada a transgressores e inimigos, para significar o seu aniquilamento total (cf. Amós 2, 1). O respeito pelo cadáver, já notável no Antigo Testamento, que é perpassado por uma conceção antropológica unitária, pela qual o corpo se reveste de um valor espiritual, aumenta com o desenvolvimento da crença na ressurreição: não se pode deixar de tratar com toda a honra o corpo destinado à ressurreição. No Novo Testamento, os evangelhos dão particular destaque à sepultura de Jesus. Sem dúvida que a sepultura de Jesus Cristo faz parte do anúncio que a fé da Igreja proclamou e transmitiu de geração em geração, a partir de Paulo, pelo que já era uma mensagem tradicional: «Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras; foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras» (1Coríntios 15,3-4). Este facto explica a importância da sepultura em todo o cristianismo. Aliás, o ser humano é o único animal que tem consciência da morte e é o único ser que desenvolveu a prática da sepultura dos mortos. A sepultura dos mortos revela o nível de humanização e o grau de civilização de uma sociedade humana. Todos nós sentimos horror diante de imagens que mostram ultrajes e violências contra os corpos mortos de inimigos durante a guerra. Percebemos uma sacralidade violada, consideramos ímpia e desumana essa forma de atuação violenta. E sentimos que se não há respeito e atenção para com os mortos, também não pode haver respeito nem atenção para com os vivos, para com os seres humanos.

Rezar a Deus pelos vivos e com os vivos

A lista das obras de misericórdia espirituais culmina com a oração: rezar a Deus por vivos e defuntos. Tal como o amor, a oração também é uma obra, um trabalho. Rezar é uma ação laboriosa. Aqui, a oração é intercessão: rezar pelos outros. Na oração de intercessão, o ser humano manifesta a ligação indissolúvel entre a relação com Deus e a responsabilidade pelos outros, a confissão da fé e o empenho histórico, o amor a Deus e a solidariedade para com os irmãos. Assim como nós vivemos com e pelos outros, também rezamos com e pelos outros. Etimologicamente, interceder significa «dar um passo entre (‘inter-cedere’)», «interpor-se», colocar-se entre duas partes para tentar construir uma ponte, uma comunicação entre elas. É uma posição «crucial». É a posição de Jesus Cristo na cruz, quando o seu estar entre o céu e a terra terra, de braços estendidos para levar a Deus todos os seres humanos, se torna revelação do resultado último da intercessão: o dar a vida pelos pecadores, por parte daquele que é santo; o «morrer pelos» injustos, por parte daquele que é justo. E o Ressuscitado continua a interceder pelos seres humanos (cf. Hebreus 7, 25; Romanos 8, 34). Na intercessão não pedimos a Deus que se lembre de alguém, mas, «diante dele» recordamos, nós próprios, outras pessoas para que a nossa relação com elas seja iluminada pela palavra de Deus. Enquanto invocamos o perdão ou a ajuda de Deus para quem deles necessita, empenhamo-nos concretamente e fazemos tudo o que está no nosso poder em favor dessas pessoas. Neste sentido, a intercessão é luta contra a amnésia que nos ameaça, purificação da nossa relação com os outros e entrega concreta em favor daqueles pelos quais se reza. A intercessão coloca-nos na alternância entre solidão e solidariedade. Ora, se Jesus Cristo, no seu ministério histórico, rezou pelos seus discípulos, agora, também os discípulos são chamados a «rezar uns pelos outros» (Tiago 5, 16). Sujeito da oração no coração do discípulo e da comunidade cristã é o Espírito Santo, o Paráclito, que fala a língua de Deus e ensina o crente a rezar. Então, o cristão é convidado a interceder, a elevar súplicas e orações por todos. Graças à intercessão, a vontade de Deus e o amor universal que a anima tornam-se práxis quotidiana do crente, convertendo o seu coração. Com efeito, a oração pelos outros nasce do amor e conduz ao amor, purificando o amor. Aliás, como seria possível chegar a amar os inimigos sem rezar por eles? Não foi por acaso que Jesus Cristo, depois de ter dito «Amai os vossos inimigos» (Lucas 6, 27), acrescenta de imediato: «Rezai por aqueles que vos maltratam» (Lucas 6, 28). A oração infunde intencionalidade na nossa atuação e forma de relacionamento, tornando-se o seu fundamento espiritual.

Rezar a Deus pelos defuntos e com os defuntos

A Escritura também refere a oração dos vivos pelos mortos (cf. 2Macabeus 12, 41-45) e dos mortos pelos vivos (cf. 2Macabeus 15, 11-16). A oração pelos defuntos é sustentada e tornada possível pela fé na ressurreição e torna-se um dever da comunidade crente, que também vive deste modo a sua solidariedade para com os irmãos defuntos. A fé na ressurreição é o resultado radical da aliança que Deus faz com os humanos e que fala de um amor divino que «vale mais do que a vida» (Salmo 63, 4) e impele-nos para além da vida. A comunhão experimentada em vida não é desfeita pela morte, porque o crente encontra a sua vida «em Cristo»: aqueles que vivem os seus dias em Cristo ficam, portanto, em comunhão com aqueles que «morreram em Cristo» e entre eles estabelece-se uma misteriosa comunhão que também torna possível uma comunicação (cf. Apocalipse 7, 13-17). Aliás, o Batismo, que incorpora o indivíduo crente no acontecimento pascal e cria a comunhão daqueles que, na história, formam o Corpo de Cristo, representa uma morte simbólica para viver em Cristo, e infunde a convicção de que a morte física não quebra a ligação do crente que, em Cristo, está unido à comunidade de fé. A Igreja atesta, desde a Antiguidade, a possibilidade de uma oração pelos mortos, que se situa na «comunicação das linguagens», que une, em Cristo, os vivos e os mortos. Assim, a liturgia da Igreja reza pelos defuntos, sobretudo nas anáforas eucarísticas. A Igreja reza por todos os seus membros, vivos ou mortos, e reza pelos que morreram em santidade e pelos que morreram em pecado: todos eles, com efeito, precisam da misericórdia de Deus, único poder de salvação. Na oração pelos defuntos, a Igreja manifesta a sua qualidade de Corpo de Cristo e vive a solidariedade com todos os membros deste corpo, inclusive com aqueles que já faleceram. Ao rezar pelos mortos, a Igreja também reza com eles. Única, com efeito, é a liturgia da Igreja celeste e terrestre. Rezando pelos mortos, a Igreja confessa o perdão dos pecados para todos: tanto para os vivos como para os mortos. Aliás, a salvação que Jesus Cristo veio trazer é para todos os ser humanos. Ao rezar pelos mortos, a Igreja insere-se no plano de salvação de Deus, que tem por fim o Reino, a ressurreição final e a vida eterna. Eis então que as orações tradicionais pelos mortos invocam «paz», «repouso eterno», «refrigério», «luz eterna», e evocam imagens como «paraíso» e «Jerusalém celeste».

Rezar pelos vivos e pelos mortos 
é lutar contra o inferno da não relação 
que ameaça as nossas vidas 
e fazer reinar o amor 
que é ligação vital e salvífica, 
invocando o Deus misericordioso 
e compassivo.

© Laboratório da fé, 2014 
Este texto foi elaborado a partir da obra de Luciano Manicardi intitulada «A caridade dá que fazer: Redescobrindo a atualidade das ‘obras de misericórdia’» (páginas 137 a 147 e 207 a 215) publicada em português pelas edições Paulinas





Laboratório da fé, 2014
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 2.11.14 | Sem comentários
0 comentários:
Enviar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...
  • Recentes
  • Arquivo
  • Comentários