Viver a fé! [8]


O terceiro capítulo do Compêndio da Doutrina Social da Igreja intitula-se «A pessoa e os seus direitos» (números 105 a 159). Neste tema, resumimos os dois primeiros pontos: Doutrina Social e princípio personalista (números 105 a 107); a pessoa humana «imago Dei» (números 108 a 123).

Doutrina Social e princípio personalista

«Toda a vida social é expressão do seu inconfundível protagonista: a pessoa humana» (106), «imagem viva do próprio Deus; imagem que encontra e é chamada a encontrar sempre mais profundamente plena explicação de si no mistério de Cristo, Imagem perfeita de Deus, revelador de Deus ao homem e do homem a si mesmo» (105). O ser humano «na sua concretude histórica, representa o coração e a alma do ensinamento social católico. Toda a doutrina social se desenvolve a partir do princípio que afirma a intangível dignidade da pessoa humana» (107).

Criatura à imagem de Deus

O relato das «origens» narrado pelo livro do Génesis revela que «Deus põe a criatura humana no centro e no vértice da criação. [...] Portanto, ‘porque é “à imagem de Deus”, o indivíduo humano possui a dignidade de pessoa: ele não é somente alguma coisa, mas alguém’» (108); «é um ser pessoal criado por Deus para a relação com Ele, que somente na relação pode viver» (109). Depois, «a relação entre Deus e o homem reflete-se na dimensão relacional e social da natureza humana. [...] Em relação a isso, é muito significativo o facto de ter criado Deus o ser humano como homem e mulher» (110). Ambos, homem e mulher, «têm a mesma dignidade e são de igual nível e valor, não só porque ambos, na sua diversidade, são imagem de Deus, mas ainda mais profundamente porque é imagem de Deus o dinamismo de reciprocidade que anima o nós do casal humano» (111). Além desta relação dinâmica entre eles, homem e mulher, também são chamados à relação com os outros seres humanos e com as restantes criaturas. «Estão em relação com os outros antes de tudo como guardiães da sua vida [...] sagrada e inviolável» (112). «Com esta particular vocação para a vida, o homem e a mulher encontram-se também diante de todas as outras criaturas», numa relação que «exige o exercício da responsabilidade, pois não é uma liberdade de desfrute arbitrário e egoísta» (113). É oportuno, ainda, destacar a relação que o próprio ser humano estabelece consigo, pois cada um «pode refletir sobre si próprio. As Sagradas Escrituras falam, nesse sentido, do coração do homem. O coração designa precisamente a interioridade espiritual do homem, ou seja, aquilo que o distingue de todas as outras criaturas» (114).

O drama do pecado

«A admirável visão da criação do homem por parte de Deus é incindível do quadro dramático do pecado das origens» (115). Este «pecado das origens» («pecado original») fez o ser humano perder «a santidade e a justiça em que estava constituído, recebidas não somente para si, mas para toda a humanidade. [...] A consequência do pecado, enquanto ato de separação de Deus, é precisamente a alienação, isto é, a rutura do homem não só com Deus, mas também consigo mesmo, com os demais homens e com o mundo circunstante» (116). «Por isso se pode falar de pecado pessoal e social: todo o pecado é pessoal sob um aspeto; sob um outro aspeto, todo o pecado é social, enquanto e porque tem também consequências sociais» (117). Além disso, há pecados que «pelo próprio objeto, uma agressão direta ao próximo [...] qualificam-se como pecados sociais» (118). São eles: o pecado contra a justiça, contra a dignidade da pessoa humana, contra o bem comum, e tudo o que diz respeito às relações entre as comunidades. «As consequências do pecado alimentam as estruturas de pecado, que se radicam no pecado pessoal e, portanto, estão sempre coligadas aos atos concretos das pessoas, que as introduzem, consolidam e tornam difíceis de remover» (119).

Universalidade do pecado e universalidade da salvação

«A doutrina da universalidade do pecado, todavia, não deve ser desligada da consciência da universalidade da salvação em Jesus Cristo» (120). De facto, não podemos esquecer que «o realismo cristão vê os abismos do pecado, mas na luz da esperança, maior do que todo e qualquer mal, dada pelo ato redentor de Cristo que destruiu o pecado e a morte» (121) e nos torna filhos de Deus. Essa é a «comunhão com o Deus trinitário para a qual os homens desde sempre são orientados no mais profundo do seu ser, graças à sua semelhança criacional com Deus» (122). «A universalidade desta esperança inclui [...] também o céu e a terra» (123).

© Laboratório da fé, 2014 
Os números entre parêntesis dizem respeito ao «Compêndio da Doutrina Social da Igreja» 
na versão portuguesa editada em 2005 pela editora «Princípia» 





Laboratório da fé, 2014

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 27.11.14 | Sem comentários
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