Viver a fé! [7]


A terceira parte (números 87 a 104) do segundo capítulo do Compêndio da Doutrina Social da Igreja apresenta os «acenos históricos» da formação da Doutrina Social da Igreja, tendo como ponto de partida a encíclica «Rerum Novarum» de Leão XIII (cf. tema 1).

O início de um novo caminho

A Encíclica sobre os operários («Rerum Novarum», 1891) «assinala um novo início e um substancial desenvolvimento do ensinamento em campo social» (87). Por isso, é apresentada como referência inicial da «Doutrina Social da Igreja». A sua mais valia consiste em alertar para os problemas nascidos com a Revolução Industrial: «Era necessário um renovado discernimento da situação, apto a delinear soluções apropriadas para problemas insólitos e inexplorados» (88). Contudo, será o papa Pio XI a falar pela primeira vez em «doutrina social», «doutrina social católica», «doutrina social da Igreja».

Da «Rerum Novarum» aos nossos dias

Na encíclica «Rerum Novarum», a questão operária «é explorada em todas as suas articulações sociais e políticas, para ser adequadamente avaliada à luz dos princípios doutrinais baseados na Revelação, na lei e na moral natural» (89). Leão XIII usou «um método que se tornaria ‘um paradigma permanente’ para o desenvolvimento da doutrina social» (90). No quadragésimo aniversário da «Rerum Novarum», Pio XI publicou a encíclica «Quadragesimo Anno» (1931): «relê o passado à luz de uma situação económico-social em que à industrialização se juntara a expansão do poder dos grupos financeiros, em âmbito nacional e internacional». O Papa sugere o «‘princípio da subsidiariedade’, princípio que se tornará um elemento permanente da doutrina social» (91). No mesmo contexto, «Pio XI não deixou de elevar a voz contra os regimes totalitários que durante o seu pontificado se afirmaram na Europa» (92). A seguir, na sequência da Segunda Guerra Mundial, o papa Pio XII, através de radiomensagens, contribuiu para a reflexão «sobre uma nova ordem social, governada pela moral e pelo direito e fundada na justiça e na paz» (93). Mais tarde, com João XXIII, surge a encíclica «Mater et Magistra» (1961): «as palavras-chave da encíclica são comunidade e socialização: a Igreja é chamada, na verdade, na justiça e no amor, a colaborar com todos os homens para construir uma autêntica comunhão» (94). O mesmo Papa, na encíclica «Pacem in Terris» (1963), destaca o tema da paz e esboça «uma primeira reflexão aprofundada da Igreja sobre os direitos; é a encíclica da paz e da dignidade humana» (95). Entretanto, surgem os documentos emanados do II Concílio do Vaticano: a Constituição Pastoral «Gaudium et Spes» (1965), que, abordando os tópicos da família, da cultura, da economia, da política, da paz e da comunidade internacional, «constitui uma significativa resposta da Igreja às expetativas do mundo contemporâneo» (96); a declaração «Dignitatis Humanae» (1965), que «proclama o direito à liberdade religiosa» (97). No sequência da reflexão conciliar, Paulo VI, com a encíclica «Populorum Progressio» (1967), proclama que «o desenvolvimento é o novo nome da paz» (98), institui a Comissão Pontifícia Justiça e Paz, e o Dia Mundial da Paz (99). O mesmo Papa, ao comemorar os oitenta anos da «Rerum Novarum», publica uma carta apostólica («Octogesima Adveniens», 1971), na qual «reflete sobre a sociedade pós-industrial com todos os seus complexos problemas [...]: a urbanização, a condição juvenil, a condição da mulher, o desemprego, as discriminações, a emigração, o crescimento demográfico, o influxo dos meios de comunicação social, o ambiente natural» (100). Dez anos depois, João Paulo II, na encíclica «Laborem Exercens» (1981), «delineia uma espiritualidade e uma ética do trabalho, no contexto de uma profunda reflexão teológica e filosófica» (101). No vigésimo aniversário da «Populorum Progressio», apresenta a encíclica «Sollicitudo Rei Socialis» (1987), onde «aborda novamente o tema do desenvolvimento» (102). E, ao comemorar o centésimo aniversário da «Rerum Novarum», João Paulo II promulga a encíclia «Centesimus Annus» (1991), na qual «emerge a continuidade doutrinal de cem anos de magistério social da Igreja» (103). Por fim, depois da elaboração do Compêndio da Doutrina Social da Igreja (2004), podemos salientar o contributo de Bento XVI com a encíclica «Caritas in Veritate» (2009).

À luz e sob o impulso do Evangelho

A Doutrina Social da Igreja é «um corpo doutrinal atualizado, que se articula à medida que a Igreja, dispondo da plenitude da Palavra revelada por Cristo Jesus e com a assistência do Espírito Santo, vai lendo os acontecimentos enquanto se desenrolam no decurso da história» (104).

© Laboratório da fé, 2014 
Os números entre parêntesis dizem respeito ao «Compêndio da Doutrina Social da Igreja» 
na versão portuguesa editada em 2005 pela editora «Princípia» 





Laboratório da fé, 2014


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 20.11.14 | Sem comentários
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