Nihil Obstat — blogue de Martín Gelabert Ballester

Uma coisa é o ato de fé e outra as fórmulas com as quais expressamos o conteúdo da fé. A este propósito, São Tomás dizia expressamente que o ato de fé não se dirige aos enunciados (dogmas, catequeses, credos), mas à realidade divina à qual esses enunciados remetem e que expressam de forma muito imperfeita, precisamente porque são fórmulas humanas. Dito de outra forma: nós não acreditamos em dogmas, em fórmulas ou em palavras, mas no Deus revelado em Jesus Cristo que se expressa nessas fórmulas, dogmas ou palavras. Deus é o objeto e meta da nossa fé, Aquele em quem acreditamos e confiamos, Aquele de quem tudo esperamos. Não há nenhuma fórmula, nenhuma pregação, nenhum dogma que possa englobá-lo. Ele é sempre mais do que dizemos e pensamos.
Contudo, não é menos certo que necessitamos dessas palavras, fórmulas e pregações, para dar um conteúdo à nossa fé. Pois a detioração da fé de muitos cristãos começa com a imprecisão dos enunciados sobre Deus e sobre Cristo. Quanto isto acontece, quando não se dispõe de um boa explicação teológica dos conteúdos da fé, esta substitui-se por práticas devocionais e por imagens ou ritos centrados em aspetos secundários que, em determinadas ocasiões, em vez de nos orientar para Deus, afastam-nos dele.
As duas dimensões da fé são importantes: o ato de fé que deve ser eminentemente teologal, isto é, centrado e orientado para o Deus de Jesus Cristo; e uma boa explicação dos conteúdos da fé, que toma como ponto de referência dessas explicações o Jesus que os evangelhos nos dão a conhecer. Se esquecemos o primeiro, a saber, que Deus é o objeto, a meta e o fim da fé e, portanto, que nós acreditamos em Deus e só em Deus, corremos o risco de dar às fórmulas ou aos ritos uma importância desmesurada. E o que é pior, corremos o risco de nos perdermos em discussões sobre as fórmulas e ritos que acabam por desqualificar quem se expressa com matizes ou elementos culturais distintos dos nossos. Corremos o risco de perder a Deus e ficarmos com a fórmula ou o rito.
Se esquecemos o segundo, a saber, que a fé tem um conteúdo e que, de alguma forma, temos que esclarecer, corremos o risco de converter a fé num ato voluntarioso, mas ficarmos com a inteligência vazia. A fé é vida, mas também é luz, verdade e caminho. Por isso, a adesão de fé necessita de se converter em luz e caminho para a vida, bem como na verdade que satisfaça a nossa inteligência. Só assim, quando um dia chegarem as dificuldades, poderemos manter-nos firmes porque temos umas «verdades» às quais nos agarramos, mesmo que na realidade essas verdades sejam um pálido reflexo da Verdade, essa Verdade com maiúscula, a qual todas as verdades com minúscula pretendem expressar, sem nunca o conseguir totalmente.

© Martín Gelabert Ballester, OP

© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2014
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Nihil obstat - www.laboratoriodafe.net
Martín Gelabert Ballester, frade dominicano, nasceu em Manacor (Ilhas Baleares) e reside em Valencia (Espanha). É autor do blogue «Nihil Obstat» (em espanhol), que trata de questões religiosas, teológicas e eclesiais. Pretende ser um espaço de reflexão e diálogo. O autor dedica o seu tempo à pregação e ao ensino da teologia, especialmente antropologia teológica e teologia fundamental. 
Outros artigos publicados no Laboratório da fé


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 13.10.14 | Sem comentários
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