Reflexão mensal sobre as obras de misericórdia [1]


«Estamos na terceira etapa do nosso plano pastoral. A fé professada e celebrada continua em fé vivida, isto é, a fé transforma-se em vida e transforma a nossa vida. Orienta-nos o desejo de alcançarmos o fruto da unidade profunda entre a fé e a caridade. […] Está em causa a capacidade de ‘reaprender a gramática elementar da caridade’, cujo fio condutor se encontra na prática das obras de misericórdia: dar de comer a quem tem fome; dar de beber a quem tem sede; vestir os nus; dar pousada aos peregrinos; assistir os doentes; visitar os presos; sepultar os mortos; dar bons conselhos; ensinar os ignorantes; corrigir os que erram; consolar os tristes; perdoar as injúrias; suportar com paciência as fraquezas do nosso próximo; rezar a Deus por vivos e defuntos» (Programa Pastoral da Arquidiocese de Braga para 2014+15).

Ser misericordiosos

Jesus Cristo, no evangelho segundo Lucas, no contexto das bem-aventuranças, apresenta a «regra de ouro» que consiste em amar a todos, inclusive os inimigos; e acrescenta: «Sede misericordiosos, como o vosso Pai é misericordioso» (Lucas 6, 36). Mais do que uma ordem, estas palavras de Jesus são a revelação de uma possibilidade: elas atestam a possibilidade do ser humano participar da misericórdia de Deus, ou seja, de dar vida, de mostrar ternura e amor, de perdoar, de co-sofrer com quem sofre, de sentir a unicidade do outro e de lhe estar próximo, de suportar o outro e de ter paciência com a sua lentidão e as suas incapacidades.
Em várias passagens do Antigo Testamento, Deus é designado como «misericordioso e compassivo» — esse é o seu nome: «Deus misericordioso e clemente, vagaroso na ira, cheio de bondade e de fidelidade» (Êxodo 34, 6); «És um Deus misericordioso e compassivo, paciente e grande em bondade e fidelidade» (Salmo 86, 15); «O SENHOR é misericordioso e compassivo, é paciente e cheio de amor» (Salmo 103, 8); «O SENHOR é bondoso e compassivo» (Salmo 111, 4). Ora, no Novo Testamento, Jesus Cristo, através da sua maneira de ser e de viver, apresenta-se como o rosto humano de Deus, isto é, da sua misericórdia e compaixão: «Compadecido, Jesus estendeu a mão, tocou-o e disse: «Quero, fica purificado» (Marcos 1, 41); «Jesus viu uma grande multidão e teve compaixão deles, porque eram como ovelhas sem pastor» (Marcos 6, 34); «O Senhor compadeceu-se dela e disse-lhe: «Não chores» (Lucas 7, 13). O discípulo, cada um de nós, seguindo o Mestre, pela fé e pelo amor, também pode viver a misericórdia e a compaixão. Eis o caminho para alcançar o fruto de uma unidade profunda entre a fé e a caridade!

Viver a misericórdia

Na Bíblia, a misericórdia não é apenas uma emoção, um sentimento perante o sofrimento do outro: ela nasce como ressonância aguda do sofrimento do outro dentro de mim mas, depois, torna-se ética, práxis e virtude. É o que acontece com o samaritano da parábola, que faz tudo o que está ao seu alcance para aliviar concretamente os sofrimentos daquele homem deixado moribundo à beira do caminho: «‘E quem é o meu próximo?’. Tomando a palavra, Jesus respondeu: ‘Certo homem descia de Jerusalém para Jericó e caiu nas mãos dos salteadores que, depois de o despojarem e encherem de pancadas, o abandonaram, deixando-o meio morto. Por coincidência, descia por aquele caminho um sacerdote que, ao vê-lo, passou ao largo. Do mesmo modo, também um levita passou por aquele lugar e, ao vê-lo, passou adiante. Mas um samaritano, que ia de viagem, chegou ao pé dele e, vendo-o, encheu-se de compaixão. Aproximou-se, ligou-lhe as feridas, deitando nelas azeite e vinho, colocou-o sobre a sua própria montada, levou-o para uma estalagem e cuidou dele. No dia seguinte, tirando dois denários, deu-os ao estalajadeiro, dizendo: “Trata bem dele e, o que gastares a mais, pagar-to-ei quando voltar”. Qual destes três te parece ter sido o próximo daquele homem que caiu nas mãos dos salteadores?’. Respondeu: ‘O que usou de misericórdia para com ele’. Jesus retorquiu: ‘Vai e faz tu também o mesmo’» (Lucas 10, 29-37). A misericórdia deve ser feita: «Vai e faz tu também o mesmo» — diz Jesus Cristo ao doutor da Lei, a quem contou a parábola do samaritano. Assim, os discípulos ficam a conhecer a vontade de Deus; e também sabem como eles próprios devem querê-la e praticá-la: seguindo as pegadas de Jesus Cristo e aprendendo com Ele, que é «manso e humilde de coração» (Mateus 11, 29).

As obras da fé

Ser misericordiosos e viver a misericórdia concretiza-se no mandamento do amor apresentado por Jesus Cristo. Este amor só pode ser concreto e visível, efetivo e não simplesmente afetivo, operante e prático, e não só íntimo e inexpressivo. A Carta de Tiago é muito clara ao recordar que a fé sem obras está «completamente morta»: «De que aproveita, irmãos, que alguém diga que tem fé, se não tiver obras de fé? Acaso essa fé poderá salvá-lo? Se um irmão ou uma irmã estiverem nus e precisarem de alimento quotidiano, e um de vós lhes disser: ‘Ide em paz, tratai de vos aquecer e de matar a fome’, mas não lhes dais o que é necessário ao corpo, de que lhes aproveitará? Assim também a fé: se ela não tiver obras, está completamente morta. Mais ainda: poderá alguém alegar sensatamente: ‘Tu tens a fé, e eu tenho as obras; mostra-me então a tua fé sem obras, que eu, pelas minhas obras, te mostrarei a minha fé» (Tiago 2, 14-18).
O Antigo Testamento já tinha enumerado algumas das obras visíveis da caridade, que constituem atos de libertação do pobre e do necessitado: «repartir o teu pão com os esfomeados, dar abrigo aos infelizes sem casa, atender e vestir os nus» (Isaías 58, 7).
O Novo Testamento encontra, na página do Juízo Universal de Mateus (25, 31-46), uma exemplificação e uma lista de seis gestos de caridade que, se forem feitos a um pobre, a um pequeno, são feitos, de facto, ao próprio Jesus Cristo: «Tive fome e destes-me de comer, tive sede e destes-me de beber, era peregrino e recolhestes-me, estava nu e destes-me que vestir, adoeci e visitastes-me, estive na prisão e fostes ter comigo».

As obras de misericórdia

A elaboração doutrinal de uma «lista» das obras de misericórdia, que hoje conhecemos como expressões da unidade profunda entre a fé e a caridade, longe de querer esgotar as possibilidades da misericórdia, deve ser acolhida como um desafio à criatividade crente no concreto da história, para que a caridade não seja apenas um gesto «bom», mas também «profético». Só desta forma se poderá dizer que na raiz das obras de misericórdia está presente o rosto do Deus misericordioso e a necessidade do ser humano: elas nascem da experiência do amor de Deus e cumprem o mandamento do amor ao próximo.
Como vimos, são vários os fundamentos bíblicos para a elaboração de uma «lista» com as «obras de misericórdia materiais», tal como as designamos hoje.
As «obras de misericórdia espirituais» devem ter surgido a partir da interpretação alegórica do capítulo 25 de Mateus por parte de Orígenes: as obras aí indicadas têm um valor «material», mas também «espiritual».
Entre outros escritos, esta dupla dimensão material e espiritual das obras de misericórdia é expressa por Santo Agostinho através do binómio «dar e perdoar: dar dos bens que possuis e perdoar os males que sofres» .
Uma lista definitiva das obras de misericórdia não é confirmada até ao fim do primeiro milénio: provavelmente, só no século doze assistimos à fixação de uma lista estereotipada de sete obras de misericórdia, as chamadas corporais (seis do capítulo 25 de Mateus, mais a sepultura dos mortos referida no livro de Tobias: «Durante o reinado de Sal­manasar, eu dava muitas es­molas aos meus irmãos, forne­cen­do pão aos esfomeados e vestindo os nus, e se encontrava morto al­guém da mi­nha linhagem, atirado para junto dos muros de Nínive, dava-lhe sepul­tura. Enterrei também aque­­­les que Senaquerib mandara matar, quando regressou, fugindo da Ju­deia, du­rante o tempo do castigo que o rei do céu mandou sobre os que blas­fe­ma­vam. De facto, na sua ira, o rei man­dou matar a muitos. Eu, então, rou­bava os corpos para os sepultar. Depois, quando o rei procurava os corpos, não os conseguia encontrar» [Tobite 1, 16-18]), à qual se somará — com certeza pelo menos a partir de Tomás de Aquino — a lista das sete obras de misericórdia espirituais. Aliás, é bem conhecido o fascínio exercido pelo número sete e pelos septenários sobre o espírito do homem medieval, a ponto de a Idade Média ter celebrado «o triunfo do sete» : «O sete é símbolo de ordem e de totalidade, síntese quase mágica de unidade e de multiplicidade» . Com o septenário, a multiplicidade das obras de misericórdia fica de certo modo sintetizada e dotada de unidade. Ainda na Idade Média, a par do septenário, desenvolve-se um sistema binário pelo qual, por exemplo, aos sete pecados se associam sete virtudes, muitas vezes descritas de modo correspondente e paralelo aos pecados.

© Laboratório da fé, 2014 
Este texto foi elaborado a partir da obra de Luciano Manicardi intitulada «A caridade dá que fazer: Redescobrindo a atualidade das ‘obras de misericórdia’» (páginas 61 a 75) publicada em português pelas edições Paulinas





Laboratório da fé, 2014
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 23.10.14 | Sem comentários
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