Viver a fé! [3]


Este tema — «A pessoa humana no desígnio de amor de Deus» — resume o terceiro ponto (números 34 a 48) do primeiro capítulo do Compêndio da Doutrina Social da Igreja («O desígnio de amor de Deus para toda a Humanidade»). Dá continuidade ao tema anterior (cf. tema 2), desenvolvendo-se em quatro alíneas: «O Amor Trinitário, origem e meta da pessoa humana»; «A salvação cristã: para todos os homens e do homem todo»; «O discípulo de Cristo qual nova criatura»; «Transcendência da salvação e autonomia das realidades terrestres». A reflexão é norteada por alguns números da Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo atual — «Gaudium et Spes» — e pela narração do livro do Génesis: «Deus disse: ‘Façamos o ser humano à nossa imagem, à nossa semelhança’ [...] Deus criou o ser humano à sua imagem, criou-o à imagem de Deus; Ele os criou homem e mulher» (1, 26-27).

O Amor Trinitário, origem e meta da pessoa humana

«Na comunhão de amor que é Deus, em que as três Pessoas divinas se amam reciprocamente e são o Único Deus, a pessoa humana é chamada a descobrir a origem e a meta da sua existência e da história» (34). Para nós, crentes, há uma relação profunda entre Deus e o ser humano: este, criado à «imagem», à «semelhança» de Deus, amado e salvo em Jesus Cristo, «realiza-se tecendo multíplices relações de amor, de justiça e de solidariedade com as outras pessoas, na medida em que desenvolve a sua multiforme atividade no mundo» (35). O livro do Génesis contém «um ensinamento fundamental sobre a identidade e a vocação da pessoa humana» (36) e «propõe-nos algumas linhas mestras da antropologia cristã: a inalienável dignidade da pessoa humana [...]; a sociabilidade constitutiva do ser humano [...]; o significado do agir humano no mundo» (37).

A salvação cristã: para todos os homens e do homem todo

O desígnio salvador de Deus, oferecido em Jesus Cristo e atualizado pelo Espírito Santo, é «para todos» e para a totalidade do ser humano: «é salvação universal e integral. Diz respeito à pessoa humana em todas as suas dimensões: pessoal e social, espiritual e corpórea, histórica e transcendente» (38). Mas esta oferta não acontece por uma receção passiva: pela fé, exige «livre resposta e adesão» (39) de cada ser humano, que se concretiza no compromisso de viver o mandamento do amor (cf. tema 2), «no concreto das situações históricas» (40).

O discípulo de Cristo qual nova criatura

«O discípulo de Cristo adere, na fé e mediante os sacramentos, ao mistério pascal de Jesus, de sorte que o seu homem velho, com as suas más inclinações, é crucificado com Cristo. Qual nova criatura, ele fica então habilitado na graça a caminhar em ‘uma vida nova’» (41). Este caminho não é apenas para o cristão, «mas para todos os homens de boa vontade, em cujos corações a graça opera ocultamente» (41). Ora, a «transformação interior da pessoa humana, na sua progressiva conformação a Cristo, é pressuposto essencial de uma real renovação das suas relações com as outras pessoas» (42). Depois, a prática do mandamento do amor conduz a uma «firme e constante determinação de se empenhar em prol do bem de todos e de cada um, porque todos nós somos verdadeiramente responsáveis por todos» (43), mesmo daqueles que «pensam ou atuam de modo diferente de nós em matéria social, política ou até religiosa» (43). Por fim, «também a relação com o universo criado e as diversas atividades que o homem dedica ao seu cuidado e transformação [...] devem ser purificadas e levadas à perfeição pela cruz e pela ressurreição de Cristo» (44).

Transcendência da salvação e autonomia das realidades terrestres

«Quanto mais o humano é visto à luz do desígnio de Deus e vivido em comunhão com Ele, tanto mais ele é potenciado e libertado na sua identidade e na mesma liberdade que lhe é própria» (45). Entre Deus e o ser humano não há conflito, mas «mas uma relação de amor na qual o mundo e os frutos do agir do homem no mundo são objeto de recíproco dom entre o Pai e os filhos, e dos filhos entre si, em Cristo Jesus: n’Ele e graças a Ele, o mundo e o homem alcançam o seu significado autêntico e originário» (46).Então, «a pessoa humana não pode e não deve ser instrumentalizada por estruturas sociais, económicas e políticas, pois todo o homem tem a liberdade de se orientar para o seu fim último» (48).

«A pessoa humana, em si mesma e na sua vocação, transcende o horizonte do universo criado, da sociedade e da história: o seu fim último é o próprio Deus, que Se revelou aos homens para os convidar e receber na comunhão com Ele» (47).

© Laboratório da fé, 2014 
Os números entre parêntesis dizem respeito ao «Compêndio da Doutrina Social da Igreja» 
na versão portuguesa editada em 2005 pela editora «Princípia» 





Laboratório da fé, 2014


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 23.10.14 | Sem comentários
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