ANO CRISTÃO


Este pequeno Livro foi interpretado de várias maneiras ao longo da História. A sua linguagem tem algo de moderno. Nele se encontram descritas, com honestidade, muitas experiências humanas: a fragilidade da fortuna; o regresso cíclico do tempo; a certeza da morte; o mistério do tempo; os riscos do trabalho e a sucessão das gerações; as provações do envelhecimento e da mor­te. Coélet obriga a rever as teorias com os dados da experiência. Repete várias vezes: «Também isto é vaidade [...] também isto é correr atrás do vento».
Vive a sua fé colocando continuamente interrogações. Esconde-se por detrás dum pseudónimo. «Eclesiastes» é a for­ma greco-latina do hebraico «Qohelet». Ambos os nomes têm a ver com assembleia («qahal» e «ecclesia»), mas o sentido exato da palavra escapa-nos. Informações mais concretas são-nos fornecidas provavelmente por um dos seus discípulos, no epílogo: «Além de sábio, Coélet também ensinou a ciência ao povo. Ele ponderou, examinou e corrigiu muitos provérbios. Coélet procurou encontrar palavras agradáveis e escrever com propriedade palavras verdadeiras». Pode-se por isso deduzir que terá fundado uma espécie de escola («bet midrash»), à maneira de Ben Sirá (Eclesiástico 51, 23), e que este Livro tenha sido redigido por um ou vários discípulos seus.
Perguntando-se qual a vantagem que o homem obtém das suas fadigas, Coélet fala com segurança aos homens do seu tem­po, os quais andavam obcecados com a eficiência e com a ân­sia do lucro. Com a conquista de Alexandre Magno, os gregos tinham levado para o Oriente toda a sua eficiência e inteligên­cia. Bem depressa, também entre os judeus, se começou a sentir a influência da cultura helenista, que tinha trazido também um novo desenvolvimento económico. Coélet observou que entre o seu povo estava a desenvolver-se uma atividade cada vez mais febril, acompanhada de uma agitação sem limites. Ele contesta a mentalidade burguesa do seu tempo, baseada na acumulação insensata das riquezas. «Examinei todas as obras que havia feito e o trabalho que me tinham custado. E concluí que tudo é fugaz e uma corrida atrás do vento e que não há nada de permanente debaixo do sol» (2, 11). Para ele nenhuma das realidades à disposição do homem (cultura, sexo, beleza, poder, estima, dinheiro) pode tornar-se um absoluto. Mas é possível também gozar serenamente daqueles bens que Deus coloca à nossa disposição. Não obstante a vida seja marcada pelos limites da morte, o sábio pode apreciar as pequenas alegrias da vida quotidiana. A felicidade, porém, não é uma conquista do homem, como para os epicureus, porque tudo nos vem das mãos de Deus.
Coélet não é entusiasta das novidades trazidas pela cultura iluminista grega. Para conservarem a identidade própria de judeus na nova sociedade «globalizada» do tempo, é fundamental a liberdade do coração perante as novas idolatrias, temendo o Senhor e continuando, a cada momento, a procurar a Sua vontade.

© Tiziano Lorenzin | Editora Paulus
© Adaptação de Laboratório da fé, 2014
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Laboratório da fé celebrada, 2014



A Editora Paulus traduziu e publicou (em 2010) uma obra italiana com comentários aos textos bíblicos proclamados nas celebrações eucarísticas. No volume dedicado às primeiras semanas do Tempo Comum («Leccionário Comentado. Regenerados pela Palavra de Deus. Volume 1: Tempo Comum. Semanas I-XVII» — organização de Giuseppe Casarin) faz uma breve apresentação das primeiras semanas do «Tempo Comum» e dos textos bíblicos propostos na Liturgia. A coleção está estruturada à maneira da «lectio divina», acompanhando progressivamente todo o ano litúrgico nos seus tempos fortes, nas suas festas mas também nos dias feriais, todas as vezes que a comunidade cristã é convocada para celebrar a Cristo presente na Palavra e no Pão eucarístico.


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 25.9.14 | Sem comentários
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