Mistério da fé! [42]


A segunda parte do Catecismo da Igreja Católica [CIC] — intitulada «A celebração do mistério cristão» — termina com um artigo dedicado às «exéquias cristãs»: «O dia da morte inaugura para o cristão, no termo da sua vida sacramental, a consumação do seu novo nascimento começado no Batismo, o definitivo ‘assemelhar-se à imagem do Filho’, conferido pela unção do Espírito Santo e pela participação no banquete do Reino, antecipada na Eucaristia, ainda que algumas derradeiras purificações lhe sejam ainda necessárias, para poder vestir o traje nupcial» (CIC 1682). [Para ajudar a compreender melhor, ler: 2Macabeus 12, 43-46; Catecismo da Igreja Católica, números 1680 a 1690]

«Se não esperasse que os mortos ressuscitariam,

teria sido vão e supérfluo rezar por eles»

— refere o Segundo Livro dos Macabeus ao narrar a decisão de Judas Macabeu em promover um momento de oração pelos defuntos. «Este texto é a única passagem do Antigo Testamento a valorizar a oração pelos fiéis defuntos» (Bíblia Sagrada, Nota aos versículos 42 a 44 do capítulo 12 do Segundo Livro dos Macabeus, Difusora Bíblica, 781). De acordo com o relato, a oração pelos mortos «é sustentada e tornada possível pela fé na ressurreição e torna-se um dever da comunidade crente, que também vive deste modo a sua solidariedade para com os irmãos defuntos» (Luciano Manicardi, «A caridade dá que fazer», ed. Paulinas, Prior Velho 2011, 213). Além disso, a Igreja desde sempre assinalou que a «união» entre os cristãos não é quebrada pela morte: «de modo nenhum se interrompe a união dos que ainda caminham sobre a terra com os irmãos que adormeceram na paz de Cristo, mas antes, segundo a constante fé da Igreja, é reforçada pela comunicação dos bens espirituais» (Constituição Dogmática sobre a Igreja — «Lumen Gentium», 49).

Exéquias

«Do latim, ‘ex-sequi’, ‘ex-sequiæ’ (seguir, acompanhar), as exéquias são a série de ritos e orações com que a comunidade cristã acompanha os seus defuntos e os encomenda à bondade de Deus» (José Aldazábal, «Dicionário Elementar de Liturgia» [DEL], ed. Paulinas, Prior Velho, 2007, 116). Não sendo em si mesmas um sacramento, «as exéquias cristãs são uma celebração litúrgica da Igreja» (CIC 1684). Apresentada pelos cristãos como uma obra de misericórdia — sepultar os mortos —, a verdade é que não se trata de uma prática exclusiva dos cristãos. «Em todos os povos e culturas se cuidou sempre, com ritos variados e expressivos, do acompanhamento dos que falecem, e, depois, da sua recordação e veneração. Os cristãos, ao princípio, imitaram os usos dos judeus e dos vários povos. A primeira notícia temo-la à volta do protomártir Estêvão: ‘homens piedosos sepultaram Estêvão e fizeram por ele grandes lamentações’ (Atos 8, 2). Mas a novidade era a esperança pascal, desde que Jesus Cristo iluminou o mistério da morte com a sua própria experiência: ‘não vos [contristeis] como os outros, que não têm esperança. Se acreditamos que Jesus morreu e ressuscitou, do mesmo modo, Deus levará com Jesus os que em Jesus tiverem morrido’ (1Tessalonicenses 4,13-14). Na Idade Média, sublinhou-se, no conjunto das exéquias, o aspeto mais lúgubre e trágico [...], pondo ênfase ao mesmo tempo na intercessão pelos defuntos. O II Concílio do Vaticano determinou, explicitamente: ‘O rito das exéquias exprima mais claramente o sentido pascal da morte cristã e corresponda melhor, também na cor litúrgica, às condições e às tradições de cada região’ (Constituição Conciliar sobre a Sagrada Liturgia — «Sacrosanctum Concilium», 81). No ano de 1969, promulgou-se o novo ‘Ordo Exsequiarum’ [Ritual da Celebração das Exéquias]. A forma primeira, a típica, contém três ‘estações’: em casa do defunto, na igreja e no cemitério, com as procissões ou trasladações intermédias (da casa para a igreja e da igreja para o cemitério). A segunda forma considera só duas ‘estações’: na casa mortuária e na igreja, realizando-se a despedida na própria igreja. E a terceira forma é quando se celebra tudo na igreja, pela dificuldade das trasladações processionais, da casa para a igreja ou desta para o cemitério. Então, faz-se um acolhimento breve no átrio da igreja e, aí mesmo, a despedida, no final da celebração» (DEL 116-117). A última versão do Ritual, datada do ano de 2005, introduziu a possibilidade de realizar a celebração das exéquias antes ou depois da cremação do cadáver.

«As exéquias cristãs são um serviço da comunidade aos seus mortos. Elas assimilam de um modo pascal a tristeza dos que ficaram para trás. No fundo, morremos em Cristo, para com Ele celebrarmos a festa da ressurreição» (Catecismo Jovem da Igreja Católica [YOUCAT], 278).






Reflexões semanais sobre a «fé celebrada» (liturgia e Sacramentos) — Laboratório da fé, 2014
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 31.7.14 | Sem comentários
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