Nihil Obstat — blogue de Martín Gelabert Ballester

Durante a oitava da Páscoa (primeira semana), a primeira leitura repete como um refrão: «vós mataste-o (Jesus), mas Deus ressuscitou-o». Não foi Deus quem entregou Jesus à morte, mas uns homens malvados que não puderam suportar a sua vida e a sua palavra. Porque, quando alguém se encontra com um profeta tão incisivo e coerente como Jesus de Nazaré, não há neutralidade possível. Só existem duas posturas: converter-se ou recusá-lo. Precisamente, a crítica que Jesus lança contra alguns judeus é «não acreditaram em mim». Ora, ao não acreditar em Jesus, não acreditaram naquele que o tinha enviado. É significativo este texto do evangelho segundo João: «Se, diante deles, Eu não tivesse realizado obras que ninguém mais realizou, não teriam culpa; mas agora, apesar de as verem, continuam a odiar-me a mim e ao meu Pai» (João 15, 24). É possível odiar o Pai, o Filho e o Espírito, tendo visto obras espantosas.
Deus foi quem tirou Jesus da morte. Aí está, para os que acreditam, a grande prova de que Jesus tinha razão e de que o seu caminho era bom. Com a ressurreição, Deus dá razão a Jesus e retira-a aos assassinos. Por este motivo, proclamar a vitória de Cristo sobre a morte é um discurso perigoso. É sugestivo o argumento que usam os sumo sacerdotes e os fariseus, quando vão a Pilatos pedir guardas para custodiar o cadáver de Jesus, com medo de que os apóstolos roubem o corpo e comecem a dizer que ressuscitou: «seria a última impostura pior do que a primeira» (Mateus 27, 64). Tinham mais medo da sua ressurreição do que da sua vida. Porque, com a ressurreição, a sua vida é reafirmada até limites insuspeitos.
O que, para os fariseus, é a última impostura, para os crentes, é a última verdade. Mas proclamar esta verdade implica que as autoridades não tenham razão; e que o que elas defendiam — uma religião baseada mais no culto do que no amor a Deus e ao próximo — não tem qualquer futuro. O futuro, apesar de tantas aparências contrárias, encontra-se na verdade, na vida, na beleza, na justiça e no amor. Por isso, digo que a fé na ressurreição é um discurso e uma recordação perigosas.
Com a ressurreição tudo começa de novo. Daí nasce a Igreja, o testemunho, a pregação. A partir daí, reinterpreta-se a vida de Jesus e compreende-se a verdade mais profunda da história da salvação. A última palavra não é dos homens e, muito menos, dos poderosos deste mundo. A última palavra é de Deus. Esta Palavra é Jesus de Nazaré, morto e ressuscitado. Por isso, a ressurreição remete-nos para o seguimento de Cristo. Seguindo-o, vivendo como ele, pensando como ele, também nós participaremos do futuro que Deus tem preparado para todos os que o amam.

© Martín Gelabert Ballester, OP

© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2014
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Nihil obstat - www.laboratoriodafe.net
Martín Gelabert Ballester, frade dominicano, nasceu em Manacor (Ilhas Baleares) e reside em Valencia (Espanha). É autor do blogue «Nihil Obstat» (em espanhol), que trata de questões religiosas, teológicas e eclesiais. Pretende ser um espaço de reflexão e diálogo. O autor dedica o seu tempo à pregação e ao ensino da teologia, especialmente antropologia teológica e teologia fundamental. 
Outros artigos publicados no Laboratório da fé


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 21.4.14 | Sem comentários
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