ANO CRISTÃO


A Editora Paulus traduziu e publicou (em 2009) uma obra italiana com comentários aos textos bíblicos proclamados nas celebrações eucarísticas. No volume dedicado à Quaresma e Páscoa («Leccionário Comentado. Regenerados pela Palavra de Deus. Quaresma - Páscoa — organização de Giuseppe Casarin) faz uma breve apresentação da Páscoa e dos textos bíblicos propostos na LiturgiaA coleção está estruturada à maneira da «lectio divina», acompanhando progressivamente todo o ano litúrgico nos seus tempos fortes, nas suas festas mas também nos dias feriais, todas as vezes que a comunidade cristã é convocada para celebrar a Cristo presente na Palavra e no Pão eucarístico.

O tempo

No dia da Epifania, depois da proclamação do Evangelho, foi lido aos fiéis, com estas palavras, o anúncio do dia de Páscoa: «O centro de todo o ano litúrgico é o Tríduo do Senhor crucificado, sepultado e ressuscitado, que culminará no Domingo de Páscoa...». Com efeito, é na celebração do mistério pascal de Cristo que o fiel encontra o coração e o sentido da sua fé, segundo as palavras do Apóstolo: «se Cristo não ressuscitou, a nossa pregação é vazia e também é vazia a fé que tendes» (1Cor 15,14).
Por isso, a alegria que explode na noite de Páscoa é demasiado grande para poder ser contida num só dia, e por conseguinte, desde a altura da sua instituição, a festa de Páscoa foi sempre se­guida de cinquenta dias, vividos e celebrados como um único e grande domingo, entendidos como uma longuíssima festa, todos unidos na mesma alegria.
Cinquenta dias são sete semanas mais um dia: sete vezes sete na Bíblia é um número simbólico que indica a plenitude absoluta, a perfeição, e um dia a mais indica um excesso, encaminha para um amanhã, para alguma coisa que não se cumpre neste mundo, mas que evoca a eternidade. Assim, os domingos do Tempo Pascal (significativamente chamados pelo actual Missal Romano: primeiro, segundo, terceiro domingos «de Páscoa» e não «depois da Páscoa», como acontecia antes) são oito: sete mais um. Também aqui há uma comparação com o oitavo dia, um dia que não existe no ritmo natural do tempo, o dia que é primeiro e último ao mesmo tempo, o dia de Cristo Senhor que celebramos todos os domingos.
Os primeiros oito dos cinquenta dias constituem «a oitava da Páscoa». Cada um destes oito dias deveria ser celebrado com a mesma solenidade do Domingo da Ressurreição. Claramente, as condições normais de vida e de trabalho impedem, à maior parte das pessoas de hoje, fazê-lo, mas nesta semana a liturgia exprime e provoca a alegria pascal meditando na Ressurreição de Jesus e no renascimento dos cristãos pelo Batismo.

A Palavra

A liturgia da Palavra do Tempo Pascal é riquíssima. A primei­ra leitura é sempre extraída dos Atos do Apóstolos que são lidos numa forma semicontínua. Neles, Lucas oferece-nos uma leitura teológica da história dos começos do cristianismo: as vicissitudes da Igreja nascente, o dom do Espírito, o primeiro anúncio do Evangelho, o florescimento das primeiras comunidades, a abundância das conversões, a tomada de consciência da autonomia do judaísmo, a narração dos acontecimentos felizes e tristes dos primeiros fiéis e anunciadores do Ressuscitado. Narra tudo da novidade imensa contida na história da Ressurreição de Cristo e como esta interpela a liberdade de quem recebe esse anúncio.
Nas semanas sucessivas será unicamente o evangelho de João a acompanhar o fiel através da leitura dos discursos de Jesus pronunciados por ocasião das três Páscoas que marcam a cronologia do Quarto Evangelho: na segunda semana leem-se, do capítulo terceiro, o diálogo entre Jesus e Nicodemos e o último testemunho de João Batista; os dias que vão de sexta-feira da segunda semana até sábado da terceira são marcados pela leitura do sexto capítulo com o discurso sobre o «pão da vida». Depois da leitu­ra de uma parte do décimo capítulo sobre o «bom pastor», na quarta-feira da quarta semana lê-se um texto do capítulo doze e depois começa a leitura dos discursos de adeus e da oração sacerdotal do Senhor (capítulos 13 a 17). Finalmente, na sexta-feira e sábado da sexta semana, é proclamado o último capítulo do evangelho de João.
Deste modo completa-se a leitura do Quarto Evangelho iniciada durante o Tempo da Quaresma.
Estes textos, proclamados e recebidos no contexto da celebração eucarística, quando a assembleia é convocada por Cristo que nela continua a falar, ajudam os cristãos a penetrar no mistério pascal, a vivê-lo na Eucaristia que celebram, a descobrir nela profundidades novas (pensemos, neste sentido, na mina de pérolas preciosas constituída pelos capítulos 6 e 13 a 17 de João).

A Oração

Para esta experiência espiritual que se cumpre de modo privilegiado no rito, concorre a eucologia enriquecida com orações alternativas «sobre as oblatas» e «depois da comunhão». Esta sublinha continuamente os temas da vida, da luz, da alegria pascal, da festa, da redenção, do renascimento batismal e pede a unidade entre aquilo que se celebra no mistério e a vida; invoca a graça pára os neófitos e, desde a solenidade da Ascensão, implora uma nova efusão do dom do Espírito Santo.
Particularmente dignos de nota são os prefácios do Tempo Pascal. Neles percorremos, com o estilo poético que lhes é próprio, a teologia pascal: desde Cristo verdadeiro cordeiro que tira o pecado, que dá a vida, que restaura o universo e intercede pelos fiéis, até ao mistério da Ascensão que abre as portas para um Pentecostes renovado.
A Liturgia das Horas propõe, durante a oitava, a Primeira Carta de Pedro, antiga catequese batismal. Em seguida, da segunda à quinta semana, apresenta a profecia do Apocalipse de João: discurso dirigido à Igreja reunida em assembleia litúrgica para que saiba viver o seu tempo de fadigas e perseguições, interpretando-o à luz da vitória do bem sobre o mal já realizada pelo mistério pascal de Cristo. Durante a sexta e a sétima semana leem-se as três Cartas de João.
Verdadeiro refrão do Tempo Pascal e elemento que lhe exalta a característica de tempo da alegria exuberante é a presença contínua e repetida do Aleluia. Acrescentado às antífonas de entrada, da comunhão, até às fórmulas de despedida da celebração eucarística e da Liturgia das Horas, proposto como refrão alternativo ao salmo responsorial, cantado de novo — depois da interrupção quaresmal — antes da proclamação do evangelho, acrescentado às antífonas dos salmos e dos cânticos, inserido nos responsórios da Liturgia das Horas, este cântico exprime bem o louvor que brota do coração dos cristãos que celebram a festa da sua libertação.

© Alberto Vela | Editora Paulus
© Adaptação de Laboratório da fé, 2014
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Laboratório da fé celebrada, 2014
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 22.4.14 | Sem comentários
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