ENVOLVIDO NUMA LUZ INTENSA


Quando o lume novo ilumina a escuridão da noite, o cristão é convidado a deixar-se penetrar pela intensidade dessa luz que anuncia a vitória da vida. A luz vence as trevas! Nunca mais haverá noite! A luz que brilha na noite de Páscoa é demasiado grande para se encerrar nas vinte e quatro horas de um dia. Por isso, a festa da Páscoa perdura ao longo de cinquenta dias vividos como «o grande domingo», preenchido por uma luminosidade sem fim. «Cinquenta dias são sete semanas mais um dia: sete vezes sete na Bíblia é um número simbólico que indica a plenitude absoluta, a perfeição, e um dia a mais indica um excesso, encaminha para um amanhã, para alguma coisa que não se cumpre neste mundo, mas que evoca a eternidade» (Alberto Vela).

Páscoa: envolvido numa luz intensa!

Celebrar e viver a Páscoa é atualizar a alegria da Ressurreição, a festa da Luz e da Vida. O mistério pascal de Jesus Cristo é o coração do ano litúrgico, o coração da fé cristã. Jesus Cristo está no centro da vida para sempre. Ele é a estrela da manhã que não tem ocaso. «A escuridão dos dias anteriores dissipou-se no momento em que Jesus ressuscita do sepulcro e Se torna, Ele mesmo, pura luz de Deus. Isto, porém, não se refere somente a Ele, nem se refere apenas à escuridão daqueles dias. Com a ressurreição de Jesus, a própria luz é novamente criada. Ele atrai-nos a todos, levando-nos atrás de Si para a nova vida da ressurreição e vence toda a forma de escuridão. Ele é o novo dia de Deus, que vale para todos nós» (Bento XVI). A partir da Ressurreição, o ser humano é «envolvido numa luz intensa», a começar pelas mulheres, as primeiras discípulas, passando por Pedro, João e todos os outros; por Paulo e pelas primeiras comunidades cristãs, de geração em geração, até ao nosso tempo, até ao fim dos tempos. Assim se constitui a Igreja, reunida em nome e à volta de Jesus Cristo («Onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, Eu estou no meio deles»: Mateus 18, 20).
O livro dos Atos dos Apóstolos — os seus textos constituem a primeira leitura dos domingos de Páscoa — oferece uma leitura teológica dos primeiros passos cristãos: as dificuldades, o dom do Espírito Santo, o anúncio do Evangelho, as primeiras comunidades cristãs, o «nascimento» da Igreja. Hoje, como naquele primeiro dia da semana, Jesus Cristo, pelo dom do Espírito Santo, torna-se «presente», para transformar a tristeza em alegria, para transformar a intranquilidade em paz, para transformar as portas fechadas em espaços abertos a todos, para transformar o medo em ousadia de testemunho.
Os discípulos têm de ser testemunhas. «Quem se abriu ao amor de Deus, acolheu a sua voz e recebeu a sua luz, não pode guardar este dom para si mesmo. […] A luz de Jesus brilha no rosto dos cristãos como num espelho, e assim se difunde chegando até nós, para que também nós possamos participar desta visão e refletir para outros a sua luz, da mesma forma que a luz do círio, na liturgia de Páscoa, acende muitas outras velas. A fé transmite-se por assim dizer sob a forma de contacto, de pessoa a pessoa, como uma chama se acende noutra chama» (Francisco, Carta Encíclica sobre a fé — «A luz da fé» — LF], 37). Ao longo deste tempo de Páscoa, o terceiro capítulo da Carta Encíclica sobre a fé (números 37 a 49) dar-nos-á as coordenadas necessárias para que cada um se sinta sempre «envolvido numa luz intensa».

Laboratório da Fé celebrada

A Páscoa é, por excelência, o tempo mistagógico, isto é, o tempo que aprofunda a união com Jesus Cristo presente, pelo Espírito Santo, na sua Igreja. «É o Espírito que torna possível a presença atual de Cristo na sua Igreja e a continuidade da sua ação salvadora entre nós. A Igreja é fruto do Espírito. Sem Espírito, a Igreja é impossível. O Espírito é a alma da Igreja, a fonte de toda a sua vida. É o Espírito que envia os crentes pelo mundo e os impulsiona para dar testemunho da vida cristã e para evangelizar. […] Sem Espírito, não é possível a liturgia. Sem Espírito ninguém pode dizer ‘Jesus é o Senhor’, nem celebrar o Seu mistério. Todo o nosso culto é espiritual e celebra-se na força vivificadora do Espírito. Os gestos litúrgicos não são ritos que se cumprem para conservar uns costumes religiosos ou para ser fiéis a uma disciplina eclesial, mas são realidades cheias do Espírito» (Programa Pastoral). O fruto «será uma liturgia simples e bela, sinal da comunhão entre Deus e os seres humanos».

© Laboratório da fé, 2014

Envolvido numa luz intensa
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 20.4.14 | Sem comentários
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