Nihil Obstat — blogue de Martín Gelabert Ballester

Segundo o relato evangélico proposto para o Domingo de Ramos, Judas Iscariotes avaliou a vida de Jesus em 30 moedas de prata (Mateus 26, 15). Este preço é ainda mais ridículo se recordarmos que, poucos dias antes de trair Jesus, Judas tinha avaliado em 300 moedas de prata o perfume que Maria, a irmão de Marta e de Lázaro, derramava sobre Jesus (João 12, 5). Era, sem dúvida, um perfume de qualidade. Mas é preocupante que o frasco de perfume seja equivalente ao preço de 10 homens.
Dez homens valem tanto como um frasco de perfume. Não está mal. Isso ocorreu no tempo de Jesus. Nos nossos dias, a vida de uma pessoa vale em função do rendimento que dela se obtém. Quando já não rende, retira-se. No tempo de Jesus e no nosso, há quem atribua um preço à vida. Quanto vale a vida dos pobres, dos doentes desenganados, dos que não produzem? Nada. A medida da vida é o dinheiro. Aconteceu no caso de Jesus e continua a acontecer o mesmo hoje.
O salmo 49 deixa claro que não há fortuna suficiente para pagar a vida de um ser humano. Porque a vida não tem preço. A vida tem dignidade. Vale por si mesma. Tirar as consequências que daí derivam pode tornar-se comprometedor e até perigoso. Quem o faz arrisca-se, no mínimo, a ser criticado e mal visto. Ou não são mal vistos aqueles e aquelas que denunciam profeticamente o muito que vale a vida dos pobres, dos famintos, dos doentes abandonados e, precisamente porque vale muito, recordam-nos a obrigação de os escutar, ajudar e acolher, mesmo que seja à custa de viver um pouco de forma mais austera?
Para o cristão, a vida, uma vez começada, permanece, ao contrário do que acontece com o perfume, que uma vez aberto, volatiliza-se em seguida. Nós, cristãos, sabemos o muito que vale a vida aos olhos de Deus, porque, em Jesus, Deus revelou-nos qual é o preço que está disposto a pagar pela vida de cada um de nós. Daí que os cristãos celebram agradecidos o facto de Cristo, na cruz, ter derramado o seu sangue «por todos os homens para o perdão dos pecados». Em relação a preços, a vida de Jesus é o preço da nossa salvação. Isto é o que celebramos na Semana Santa. Sem esquecer que hoje podemos encontrar Jesus em todos os crucificados da terra, em todos esses cuja vida parece que nada vale, mas continua a não tem preço.

© Martín Gelabert Ballester, OP

© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2014
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Semana Santa



Nihil obstat - www.laboratoriodafe.net
Martín Gelabert Ballester, frade dominicano, nasceu em Manacor (Ilhas Baleares) e reside em Valencia (Espanha). É autor do blogue «Nihil Obstat» (em espanhol), que trata de questões religiosas, teológicas e eclesiais. Pretende ser um espaço de reflexão e diálogo. O autor dedica o seu tempo à pregação e ao ensino da teologia, especialmente antropologia teológica e teologia fundamental. 
Outros artigos publicados no Laboratório da fé


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 14.4.14 | Sem comentários
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