ANO CRISTÃO


O Secretariado de Liturgia da diocese do Porto, num artigo do jornal «Voz Portucalense» (16 de maio de 2007), sugere o rito da aspersão como apropriado para o tempo de Páscoa: «a água aspergida, sinal de morte e vida, é símbolo do mistério pascal, memória do batismo. A aspersão põe em jogo diversas mediações: o símbolo da água (em primeiro lugar), o gesto expressivo (os sentidos: a vista e o tato…), a que se junta a palavra e o canto (a voz e o ouvido), a ocupação do espaço litúrgico (o movimento). E o rito é, essencialmente, uma provocação dos sentidos do ser humano, de forma a atingir o seu centro interior. Quanto mais sentidos toca, mais eloquente é o rito. O rito só fará bem se for bem feito (há, subjacente na palavra rito, um certo sentido de exatidão, de rigor que a afasta doutras expressões indefinidas ou prolixas [muito a gosto das seitas])».

O Tempo Pascal motiva este rito, no começo da missa, rico de significado, expressivo e evocativo da nossa condição batismal. A reforma litúrgica do II Concílio do Vaticano ordenou e conjugou melhor os diversos elementos de entrada e abertura da Missa. Canto de entrada (ou música instrumental) que acompanha a procissão em direção ao altar, concluída pela saudação do presidente, preparação penitencial (além de três formulários do ato penitencial, sugere aos domingos a aspersão), Kyrie e Glória (apenas o Kyrie no Advento e na Quaresma), culminando na Oração de reunião ou coleta.
Por influência monástica, a aspersão, no decurso dos oitos primeiros séculos, teve uma marca penitencial de purificação. Evoluiu justamente no sentido batismal. «Cada domingo, fazemos a aspersão, porque na santa vigília deste primeiro domingo [Páscoa], a santa Igreja celebra o batismo de um modo universal» (Rupert de Deutz, liturgista do séc. XII). Com efeito, no rito da aspersão está contida a memória do batismo e toda uma história que ele evoca. A água é o meio de onde emerge a primeira criação (Génesis). Nas águas do Jordão, os evangelhos assinalam a segunda criação. A narração do dilúvio põe em cena a água que destrói e regenera. O Êxodo sugere a liberdade do povo eleito, ao fazê-lo passar pelas águas libertadoras. Essa história é lembrada pela oração de bênção da água (sempre prevista) que precede a aspersão. Assim, para os cristãos, a água aspergida, sinal de morte e vida, é símbolo do mistério pascal, memória do batismo.
A aspersão põe em jogo diversas mediações: o símbolo da água (em primeiro lugar), o gesto expressivo (os sentidos: a vista e o tato…), a que se junta a palavra e o canto (a voz e o ouvido), a ocupação do espaço litúrgico (o movimento). E o rito é, essencialmente, uma provocação dos sentidos do ser humano, de forma a atingir o seu centro interior. Quanto mais sentidos toca, mais eloquente é o rito. O rito só fará bem se for bem feito (há, subjacente na palavra rito, um certo sentido de exatidão, de rigor que a afasta doutras expressões indefinidas ou prolixas [muito a gosto das seitas]).
Referindo-se ao ato penitencial, a Instrução geral do Missal Romano, no número 51, diz: «Ao domingo, principalmente no Tempo Pascal, em vez do costumado ato penitencial, pode fazer-se, por vezes, a bênção e aspersão da água em memória do batismo». O Cerimonial dos Bispos aplica esta instrução: «Feita a saudação, o Bispo, de pé, na cátedra, voltado para o povo e tendo diante de si um recipiente com água para benzer, trazido por um ministro, convida o povo a orar, e, após breve pausa de silêncio, profere a oração de bênção… O Bispo recebe do diácono o hissopo, asperge-se a si mesmo, aos concelebrantes, ministros, clero e povo, se for conveniente, indo pela igreja, acompanhado dos diáconos. Entretanto, executa-se o canto que acompanha a aspersão»…
O rito não deve confundir-se com uma atividade útil que se realiza mecanicamente, mas deve ser fruído em toda a sua riqueza plástica. Para isso, contribuirá o gesto e o hábito de tomar água benta à entrada da igreja. Não substitui o rito da aspersão, mas prepara-o. O rito da aspersão, em nome da verdade, deve conter, ao menos, os elementos essenciais: a oração sobre a água, a aspersão e o canto. Se não for possível algum destes elementos, não há condições suficientes para o realizar.
Todavia, é maximamente eloquente que implique a assembleia. Nesse sentido, é mais expressivo se o ministro se deslocar no espaço litúrgico e se a assembleia cantar, ao menos, um refrão apropriado.
O gesto da aspersão deverá ser expressamente cuidado. Efetivamente, se a água não chegar aos fiéis, o esforço poderá ser ingente, mas inexpressivo (não passará de uma ameaça!) Em muitos lugares, o antigo hissopo foi substituído por um ramo ou arranjo de ramos que se apresentam mais eficazes na distribuição da água. Evidentemente que não se tratará de dar um banho às pessoas que estão na assembleia (ultrapassaria muito o alcance do rito). Mas que essas pessoas possam ser implicadas apenas por um gesto sem consequências, convenhamos que não é muito expressivo e não deixará de tocar o ridículo. Estará sempre em questão a verdade do gesto, não a mímica.

© SDL | Voz Portucalense
© Adaptação de Laboratório da fé, 2014



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Laboratório da fé celebrada, 2014
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 23.4.14 | Sem comentários
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