Nihil Obstat — blogue de Martín Gelabert Ballester

O tema da mensagem quaresmal do Papa é retirado das palavras de São Paulo: Cristo  fez-se pobre, para nos enriquecer com a sua pobreza. Estas palavras não são uma descrição do modo como funciona o perverso sistema capitalista, onde uns poucos enriquecem à custa da pobreza de muitos. Aqui, não se diz que Cristo foi despojado duns bens que tinha ganho, para que outros se aproveitassem do seu trabalho e do seu suor. Tampouco se diz que Cristo era uma pessoa generosa que entregou parte do que tinha e se tornou um pouco mais pobre, para que outros pudessem tornar-se um pouco mais ricos. Aqui, não se trata de tirar a um para que outros tenham. Assim funciona o mundo. Mas a lógica de Deus, refletida em Cristo, é totalmente diferente e, por isso, surpreende.
O que São Paulo diz é que Cristo, sendo rico, voluntariamente fez-se pobre por nós, para que nós enriquecêssemos com a sua pobreza. De que riqueza e de que pobreza se trata? A riqueza de Cristo é o seu «ser de condição divina». Mas, em Cristo, revela-se que o divino é o amor: Deus é Amor. Por isso, também diz São Paulo que Cristo era rico em misericórdia. Assim se explica que, sendo Amor cheio de misericórdia, se despoja da sua condição para se tornar igual ao ser humano. Porque Deus ama a criatura humana, a sua melhor obra, como não se pode amar mais. O autêntico amante quer ser como o amado. Daí que, o Deus amante, em Cristo, despoja-se de tudo o que o separa do seu amado humano para estar ao lado do amado. Este é o sentido do seu tornar-se pobre. E, ao fazer-se pobre por amor, enriqueceu-nos com o seu amor, encheu-nos do seu amor. O amor é a maior riqueza, o que sempre permanece, o que enche a quem o tem.
Se não se tivesse feito pobre, não tinha podido chegar até nós. A sua pobreza é a nossa riqueza. O seu despojar-se da categoria de Deus é a possibilidade que se abre para nós nos podermos tornar divinos. Ser como Deus deixou de ser uma missão impossível, uma vez que, em Cristo, Deus quis ser como o ser humano. Na Cruz, aparece o maior despojamento, mas também o amor maior. Na maior pobreza aparece a maior riqueza, no total despojamento dá-se o máximo ganho. Nesta Quaresma, somos convidados a contemplar este mistério de amor. A contemplá-lo e a deixarmo-nos interpelar por ele, a mudar, como consequência da contemplação. Um modo de comprovar se a mudança é efetiva é solidarizar-nos com os pobres deste mundo, com aqueles com os quais Cristo se identifica. O único modo de ser solidário com todos é fazer-se pobre. A pergunta é: quero identificar-me com Cristo?

© Martín Gelabert Ballester, OP

© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2014
A utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização do autor

Mensagem para a Quaresma, 2014



Nihil obstat - www.laboratoriodafe.net
Martín Gelabert Ballester, frade dominicano, nasceu em Manacor (Ilhas Baleares) e reside em Valencia (Espanha). É autor do blogue «Nihil Obstat» (em espanhol), que trata de questões religiosas, teológicas e eclesiais. Pretende ser um espaço de reflexão e diálogo. O autor dedica o seu tempo à pregação e ao ensino da teologia, especialmente antropologia teológica e teologia fundamental. 
Outros artigos publicados no Laboratório da fé


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 11.3.14 | Sem comentários
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