O seu método: descongelar o Concílio e torná-lo carne e vida do «povo de Deus»


Há um ano começava a «primavera» na Igreja pela mão do Papa «vindo do fim do mundo». Uma primavera similar é que tinha sido posta em marcha cinquenta anos antes por João XXIII, o Papa Bom, com o II Concílio do Vaticano. A de Francisco consiste, precisamente, em descongelar o Concílio, aplicá-lo em todas as suas potencialidades, torná-lo carne e vida do «povo de Deus». O Concílio e, sobretudo, o Evangelho.
Uma primavera que segue a bom ritmo. Primeiro, foram os gestos e as primeiras páginas dos meios de comunicação de meio mundo. Sinal da curiosidade suscitada fora dos muros da Igreja, pela revolução do Papa Bergoglio, sintoma da ausência de outros líderes credíveis no panorama mundial e confirmação de que a fé é uma notícia «urbi et orbi» na aldeia global. Depois, vieram as decisões e, sobretudo, a mudança de tendência. Quais são as chaves da primavera de Francisco?

1. Mudança de paradigma do papado

Bergoglio não quer um super-homem, nem sequer um Santo Padre. Chama-se a si mesmo bispo de Roma e, num ano, conseguiu mudar o modo de exercer o papado. Primeiro, na espaço. Abandonando o Palácio Apostólico e vivendo na residência de Santa Marta dessacraliza o espaço papal. Depois, no tempo que dedica massivamente aos não VIP's, mas aos pobres, aos humildes, aos doentes, ao seu povo, à gente que o aclama cada quarta-feira e cada domingo e se converte, assim, no seu escudo protetor. E, por último, no exercício do seu papel: o Papa governa, mas assessorado por um Conselho de Cardeais. Em colegialidade, em sinodalidade, em corresponsabilidade. Um Papa normal que, como ele próprio diz, «ri, chora, tem amigos» e «até comete pecados».

2. Mudança de estilo e de linguagem

Para normalizar o papado, Francisco muda de estilo. Deixa de ser o Papa-rei, para passar a ser o bispo de Roma e o pároco do mundo. Com esse estilo, bastaram cinco minutos, depois de ser eleito e aparecer na varanda do Vaticano, para seduzir o coração do mundo. E, desde então, já nos acostumou à novidade dos seus gestos. É um Papa imprevisível, porque não realiza o seu papel como o executor de um plano preconcebido, mas reage aos apelos das pessoas e aos impulsos do coração. Por isso, para sintonizar utiliza uma linguagem direta, simples, que não precisa de intermediários e que provoca uma reviravolta nos sentimentos das pessoas. É a linguagem do coração. Não se trata só do que diz e como o diz, mas de onde o diz. Desde a humildade de um pai, que não esconde as suas fragilidades, que convida ao amor e ao perdão, virtudes que o próprio procura viver. Um Papa dá testemunho, que diz o que vive, que prega e dá fruto. 

3. Da doutrina ao Evangelho da alegria

Francisco imprime à Igreja uma mudança de perspetiva. Quer que deixa de estar obcecada com a doutrina, especialmente com a moral sexual, e se centre no Evangelho. Primeiro, Evangelho, depois, doutrina. Mas não um Evangelho qualquer, mas o Evangelho de Jesus de Nazaré, que é Boa Notícia. Ou seja, o Evangelho da alegria e a alegria do Evangelho, como título da sua primeira grande Exortação Apostólica, uma «summa» da evangelização. Porque, como costuma dizer Bergoglio, um cristão não pode ser «um pepino em vinagre».

4. Reforma e/ou revolução

A Igreja foge da palavra revolução. Sente-se mais cómoda com a reforma, sempre que seja em continuidade. «Ecclesia semper reformanda» — diz um slogan protestante. «Ecclesia semper purificanda» — afirma o II Concílio do Vaticano, na Constituição Dogmáticas sobre a Igreja – «Lumen Gentium», no número oito. Porque, na Igreja Católica, reforma e purificação têm que estar sempre de mão dada. Caso contrário, a primeira é só uma reorganização burocrática e a segunda uma espiritualização dos problemas. A reforma de Francisco começou por cima (pelo próprio papado) e tem que moldar-se a partir de baixo. Começou pela Cúria, que tem que deixar de ser um aparato de poder e converter-se num órgão de serviço, e pela economia, com a criação do super-ministério económico, que vai fazer uma limpeza no banco vaticano e instaurar a máxima transparência nas contas da Igreja. Depois, terá que se seguir a reforma doutrinal, ao mesmo no sentido de admitir, no seu magistério, uma certa ideia de evolução da pessoa humana. E, por certo, terminar com o clericalismo.
Mas a reforma só triunfará se penetrar nas bases. Se provocar uma mudança nas mentalidades e nos costumes dos católicos. Por isso, Francisco, como João XXIII, reinterpreta a tradição, ao colocar a vida cristã como bússola da reforma e, portanto, ao ignorar qualquer tentativa de ideologização. 

5. Misericórdia e ternura

«Deus não se cansa de perdoar. Nós é que nos cansamos de pedir a sua misericórdia». É uma das frases recorrentes de Francisco, que coloca, com frequência, no frontispício do seu pontificado. A Igreja deixa de ser fortaleza assediada, para se converter em «hospital de campanha» das numerosas feridas do mundo. Francisco quer converter a misericórdia e o perdão e instrumentos da política e da diplomacia. Passar da lógica da lapidação à do perdão. Um perdão que, no seu entender, não depende do que o outro faça. É um dom assimétrico, desinteressado, absoluto, que não exige contrapartidas e vai muito para além da lógica do «do ut des».
Misericórdia e perdão que se plasmam a nível pessoal na ternura. Ternura que, como bom psicólogo, prega aos outros e, ao mesmo tempo, pratica. Porque Bergolgio elimina as distâncias, toca os sentimentos. Não tem medo de beijar, abraçar e acariciar. Não tem medo do seu corpo. Ao contrário, utiliza-o como instrumento para demonstrar amor e ternura.

6. Justiça e dignidade para as periferias

«Num coração possuído pela riqueza não há espaço para a fé», costuma dizer o Papa. E, numa ocasião, recordando a sua avó, Rosa, acrescentou que o «sudário não tem bolsos». Por isso, é capaz de denunciar o atual sistema económico, como «uma economia da exclusão e da iniquidade». Ou o que, noutras ocasiões, chama de «cultura do descarte», que deixa, nas valetas da vida, as crianças, os idosos, os desempregados.
«Trabalho, trabalho, trabalho» — gritava, na Sardenha, em 22 de setembro de 2013, rodeado de trabalhadores desempregados ou precários. Porque a caridade nunca se pode separar da justiça. E, para o Papa, sem trabalho não há dignidade. Só a partir da «cultura do encontro» se pode edificar um mundo mais justo.
Para o construir, o Papa quer que a Igreja saia das suas estufas para ir para a rua. Ir às periferias geográficas e existenciais para ir ao encontro das pessoas que aí vivem. Sair das sacristias e dos templos, porque isso fará bem aos sacerdotes e aos fiéis, não só espiritualmente, mas também psicologicamente. Trata-se de sair do ambiente eclesiástico, para mudar de ares e deixar que um sopro de vento fresco entre de novo na Igreja. Como nos tempos do «aggiornamento» de João XXIII.

7. Um tsunami de sonho e de esperança

Em menos de um ano, Francisco conseguiu revitalizar uma Igreja triste e apagada, que se sentia atacada por inimigos de fora e intrigas de dentro. Os católicos já levantam a cabeça e sentem-se orgulhosos de se proclamarem como tais. Já não se escondem. Deixaram de ser católicos envergonhados. Uma onda de esperança percorre, de novo, o mundo católico. E desperta a atenção dos indiferentes, que se tinham ido embora sem bater com a porta, porque não encontravam na Igreja resposta para as suas perguntas de sentido, dos ateus e dos crentes de outras religiões. Francisco é o Papa da esperança. A Igreja é a única instituição global que conseguiu regenerar-se em menos de um ano. E toda a gente olha para Bergoglio e pergunta: Não poderia acontecer o mesmo no sistema financeiro ou no sistema político mundial?

© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2014
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O Evangelho da alegria e a alegria do Evangelho

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 14.3.14 | Sem comentários
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