ANO CRISTÃO


O Secretariado de Liturgia da diocese do Porto, num artigo do jornal «Voz Portucalense» (11 de janeiro de 2012) explica o sentido e a importância do chamado «Tempo Comum», que se inicia após a festividade do Batismo de Jesus. «Sem o precioso 'Tempo Comum' as solenidades e tempos 'extraordinários' acabariam por se tornar 'ordinários' e perder relevância». Este tempo — que se divide em duas parte (antes da Quaresma e após o Pentecostes) — é «o tempo por excelência da pastoral eucarística».

Terminado o ciclo festivo do Natal/Epifania, com o seu tempo preparatório (Advento), entramos em dia de semana, sem fazer ruído, no «Tempo Comum». É sempre assim: o ciclo festivo da Incarnação termina com a Festa do Batismo do Senhor – celebração que desde as origens pertence de pleno direito à «Epifania» ou manifestação do Senhor. Como regra, essa festividade deve ocupar o domingo após 6 de Janeiro. Entretanto, dado que entre nós a Epifania foi transferida para o domingo ocorrente entre 2 e 8 de Janeiro, quando esse domingo acontece depois de 6 de Janeiro a Festa do Batismo do Senhor desloca-se para a segunda-feira sucessiva, começando o Tempo Comum na terça-feira seguinte. [...]
O Tempo Comum tem dois períodos, de duração desigual: antes da Quaresma e após o Pentecostes. [...]
O «Tempo Comum» é muitíssimo importante! Perdê-lo, deixá-lo correr em vão, é desperdiçar a parte maior do «ano da graça» que nos é dado para viver ao ritmo do mistério de Cristo. Sim: chamamos «tempos fortes» (porventura indevidamente) aos ciclos da Incarnação (Advento-Natal-Epifania) e da Redenção (Quaresma-Tríduo Pascal-Tempo Pascal). Talvez porque a «força» das dimensões e momentos do mistério de Cristo em que se participa nessas estações se impõe de tal modo à nossa psicologia que se torna quase impossível passar-lhes ao lado, como que distraídos. E então multiplicam-se iniciativas de formação e celebração para colher de forma mais intensa a sua eficácia salvífica. Só que nós não podemos viver sempre ao ritmo da solenidade. Ficaríamos saturados ou extenuados. Não é só o «colesterol» que não aguenta! Precisamos – é também essa uma exigência da psicologia humana – de alternar a intensidade e, até, «excesso» da festa com a normalidade serena e pausada do quotidiano. Sem o precioso «Tempo Comum» as solenidades e tempos «extraordinários» acabariam por se tornar «ordinários» e perder relevância.
Lemos no número 43 das Normas Gerais sobre o Ano Litúrgico: «trinta e três ou trinta e quatro semanas no ciclo do ano são destinadas não a celebrar um aspeto particular do mistério de Cristo, mas o mesmo mistério de Cristo na sua globalidade, especialmente nos domingos. Este período é deno­minado Tempo Comum». Sendo o domingo a grande articulação deste Tempo e sendo a Eucaristia a celebração fulcral do Domingo, então o «Tempo Comum» é o tempo por excelência da pastoral eucarística.
[...]
Se, para muitos dos nossos contemporâneos, a missa dominical deixou de ter importância vital, se as nossas assembleia dão de si uma imagem de envelhecimento e decadência, se o «preceito dominical» já pouco ou nada diz a muitos católicos confortavelmente não praticantes, então torna-se imperioso – e é até capítulo não negligenciável de qualquer proposta de «nova evangelização» – dedicar o melhor das nossas energias a este apostolado da Eucaristia. «Numa época em que para muitos o próprio sentido de Deus é como o sol que de noite declina e desaparece no horizonte, repor a Eucaristia no lugar central da vida das pessoas quer dizer redescobrir o verdadeiro rosto do Deus encarnado, do Deus que é amor, do Deus que veio até nós». (Documento preparatório do 50.º Congresso Eucarístico Internacional, número 21).
Para que tal aconteça, temos de cultivar a «ars celebrandi», ou seja, a arte de celebrar a liturgia, tão recomendada por Bento XVI. Definitivamente temos de deixar para trás toda a incúria e negligência que se repercutem em celebrações descuidadas e pouco atraentes. Temos de trabalhar incansavelmente na preparação de todos os que de algum modo estão envolvidos nas nossas celebrações. E não nos podemos conformar com uma prática cultual que, por falta de sacerdotes – e, agora, até com fartura de diáconos – se resigna a não ter celebração eucarística (e até se habitua a passar bem sem ela).

© SDL | Voz Portucalense
© Adaptação de Laboratório da fé, 2014



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Laboratório da fé celebrada, 2014
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 13.1.14 | Sem comentários
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