ANO CRISTÃO


A Editora Paulus traduziu e publicou (em 2010) uma obra italiana com comentários aos textos bíblicos proclamados nas celebrações eucarísticas. No volume dedicado às primeiras semanas do Tempo Comum («Leccionário Comentado. Regenerados pela Palavra de Deus. Volume 1: Tempo Comum. Semanas I-XVII» — organização de Giuseppe Casarin) faz uma breve apresentação das primeiras semanas do «Tempo Comum» e dos textos bíblicos propostos na LiturgiaA coleção está estruturada à maneira da «lectio divina», acompanhando progressivamente todo o ano litúrgico nos seus tempos fortes, nas suas festas mas também nos dias feriais, todas as vezes que a comunidade cristã é convocada para celebrar a Cristo presente na Palavra e no Pão eucarístico.

O período do ano litúrgico fora dos tempos característicos chamados «fortes» (Advento, Natal, Quaresma e Páscoa), que são destinados a celebrar um aspeto particular do mistério de Cristo, é chamado «Tempo per annum», isto é, «durante o ano», ou «Tempo Comum». Não deve ser considerado um tempo «fraco», por oposição aos tempos «fortes» do Ano Litúrgico. Denomina-se «Tempo Comum» ou «ordinário» porque deriva de «ordo», que indica uma estrutura fundamental. É sobre ela que se apoiam os «tempos fortes», que têm origem na necessidade de distribuir aquilo que estava concentrado, isto é, passar do mistério pascal considerado como um «todo» para a explicitação de cada um dos seus componentes, mesmo arriscando perder a visão global do mistério. Não se trata, por isso, de um Tempo «fraco»; pelo contrário, é um Tempo «fortíssimo». O Tempo Comum é guiado pela celebração do domingo. Os domingos do Tempo Comum, precisamente porque «destinados não a celebrar um aspeto particular do mistério de Cristo, mas nos quais esse mistério é celebrado na sua globalidade» (Ordenamento do ano litúrgico e do calendário, 43), apresentam-se como o dia do Senhor em toda a sua plenitude pascal, verdadeira Páscoa semanal. São domingos em estado puro pela sua caracterização pascal.
O II Concílio do Vaticano reconhece no domingo «o fundamento e o núcleo de todo o ano litúrgico» (Constituição Conciliar sobre a Sagrada Liturgia [SC], 106). Este de facto não é mais do que a celebração do mistério pascal, objeto central da fé do cristão. Este mistério, para além da festa anual da Páscoa, é celebrado todas as semanas, domingo após domingo, de modo que toda a existência do cristão seja invadida pela presença salvífica do Senhor ressuscitado. Por isso, o Concílio (SC 106) pôde afirmar que «por tradição apostólica, que teve a sua origem no próprio dia da ressurreição de Cristo, a Igreja celebra o mistério pascal todos os oito dias, no dia que bem se denomina 'dia do Senhor' ou 'domingo'». É por isso que os «dies dominicus» se revelam como a estrutura fundamental, o núcleo originário e originante do Ano Litúrgico.
[...]
O domingo, tal como a Eucaristia que nele é celebrada, remete para a vida: o que foi celebrado deve ser levado para a vida como testemunho e como caridade. Cristo foi recordado e celebrado no seu mistério pascal, ou seja, no dom que fez da Sua vida: «Isto é o meu corpo, ou seja, a minha vida, que será entregue por vós. Fazei isto em memória de Mim». A memória que se deve fazer não é apenas a do rito, é também a da vida. «Fazei isto» quer dizer: fazei o que Eu fiz, fazei também vós da vossa vida uma dádiva. Este é o ensinamento do mistério pascal de Cristo, de que o domingo e a Eucaristia são memorial. «Quando a assembleia se dispersa e somos enviados para a vida, é toda a vida que deve tornar-se dom de si». Por isso o domingo é o dia da caridade: o viver do cristão, de facto, é um «viver segundo o domingo» (Santo Inácio de Antioquia), ou seja, segundo o mistério pascal de Cristo, que no sinal do pão partido doa a Sua vida para benefício dos homens. Então o domingo e a Eucaristia são o «culmen» da vida do crente, mas ao mesmo tempo são também a «fons», a origem dela. Ambos enviam o fiel ao mundo: de segunda-feira até sábado é o tempo do testemunho, é o tempo de um dia-a-dia melhor, porque na ce­lebração dominical o crente é inspirado e penetrado pela graça da memória do Senhor Ressuscitado. É o tempo de dar um sentido novo a tudo o que se vive.

© Mario Chesi | Editora Paulus
© Adaptação de Laboratório da fé, 2014
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Laboratório da fé celebrada, 2014
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 13.1.14 | Sem comentários
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