Sacrosanctum Concilium — Constituição sobre a Liturgia


A 11 de outubro de 1962, há exatamente cinquenta anos, o Papa João XXIII dava início ao Concílio Ecuménico Vaticano II, o 21.° da História da Igreja — o anterior, Vaticano I, tinha ocorrido em 1870, mas sem grande repercussão. Na convocatória do Concílio Vatica­no II, publicada a 25 de dezembro de 1961, o Papa especificou as razões do encontro: «A Igreja assiste a uma crise que aflige a sociedade humana.» João XXIII fazia assim um convite à Igreja para distinguir «os sinais dos tempos» (Mateus 16, 3) e manter-se vigilante e responsável, confiante em Cristo. O Concílio seria a resposta da Igreja ao desejo de colaborar mais eficazmente na solução dos problemas da época. Assim foi verdadeiramente.
O primeiro documento aprovado pelos bispos conciliares, cerca de dois mil e duzentos, foi a Constituição «Sacrosanctum Concilium» (O Sagrado Concílio) (SC), sobre a Liturgia. A renovação da Liturgia era uma exigência unânime, fruto das transformações trazidas pelo movimento litúrgico iniciado no final do século XX. O movimento resgatou elementos da Escritura, da origem do Cristianismo e da Tradição da Igreja, dando à Liturgia um estatuto teológico e revelando toda a sua riqueza. Os documentos de Pio X, «Tra le sollecitudini» (1903), e de Pio XII, «Mediator Dei» (1947), já apontavam a necessidade de renovação da Liturgia, justificada teológica, histórica e pastoralmente. Durante a apresentação do texto da «Sacrosanctum Concilium» houve 328 intervenções orais e 625 escritas, mas o documento foi aprovado sem controvérsias a 4 de dezembro de 1963: 2147 votos a favor e apenas 4 contra.
A promulgação deste documento foi um marco na vida da Igreja, fundamental para a promoção e o desenvolvimento da Liturgia. Devolveu-se-lhe a verdadeira importância e cen­tralidade na vida cristã, pois é a mais perfeita expressão do mistério de Cristo e da nossa união com Deus: «A liturgia contribui em sumo grau para que os fiéis exprimam na vida e manifestem aos outros o mistério de Cristo e a autêntica natureza da verdadeira Igreja, que é simultaneamente humana e divina, visível e dotada de elementos invisíveis, empenhada na ação e dada à contemplação» (SC 2).
A «Sacrosanctum Concilium» é dividida em sete capítulos. Logo no primeiro encontramos a sua fundamentação teológi­ca, a parte mais importante e profunda do documento. A Liturgia é apresentada no horizonte da História da Salvação, cujo fim é a redenção humana e a perfeita glorificação de Deus. Ela é sacrifício, memorial do mistério pascal, renovação da alian­ça. Ela é «simultaneamente a meta para a qual se encaminha a ação da Igreja e a fonte de onde promana toda a sua força» (SC 10). Sobre a presença de Cristo, o número 7 esclarece-nos: «Para realizar tão grande obra, Cristo está sempre presente na Sua Igreja, especialmente nas ações litúrgicas. Está presente no sacrifício da Missa, quer na pessoa do ministro, quer e sobretudo sob as espécies eucarísticas. Está presente com o seu dinamismo nos sacramentos, de modo que, quando alguém batiza, é o próprio Cristo que batiza. Está presente na sua palavra, pois é Ele que fala ao ser lida na Igreja a Sagrada Escritura. Está presente, enfim, quando a Igreja reza e canta (Mateus 18, 20)» (SC 7).
O capítulo II retoma este tema, mas trata especificamente do mistério eucarístico como memorial da morte e ressurreição de Cristo. Uma das maiores preocupações do Concílio, em sintoma com o movimento litúrgico, foi rever os ritos, tornando-os mais simples e significativos. O ritual da Missa foi simplificado e a liturgia da palavra ampliada. A homilia passou a ser muito valorizada, pois é «a exposição dos mistérios da fé e das normas da vida cristã» (SC 52). As renovações apontadas para os outros sacramentos são enfatizadas no capítulo III e referem-se principalmente à revisão dos rituais, realizada com primor nos anos seguintes.
O capítulo IV ocupa-se do Ofício Divino, cuja recitação é incentivada e a maior mudança é o uso da língua vernácula. O uso da língua própria de cada país foi uma das principais transformações trazidas pelo Concílio e aplicada a toda a Liturgia. Este tema é tratado nos números 36 e 54 do documento, ainda no primeiro capítulo. Ali também se diz que a celebração comunitária é preferida à individual (SC 27), incentivando-se a presença e participação ativa dos fiéis.
A participação sempre maior e mais ativa dos fiéis na liturgia foi o pano de fundo que incentivou as principais renovações do Concílio. Hoje, analisando o número sempre decrescente de fiéis que vão à igreja regularmente, a preocupação volta à tona. Segundo o último recenseamento realizado pela Igreja de Portugal, apenas 18,7% da população é praticante, apesar de 84,5% se declarar católica. Isso representa uma queda na participação dos fiéis em torno de 1,5% ao ano desde a pesquisa anterior, ou seja, cerca de 31 mil fiéis por ano deixam de ir à Missa.
Esta situação deve fazer a Igreja, que no fundo somos todos nós cristãos, repensar a sua constituição e renovar-se, resgatando e atualizando as indicações do Concílio. Ao longo destes cinquenta anos muitas coisas foram feitas, mas a necessidade de renovação é sempre atual. Uma vez aprovada, a «Sacrosanctum Concilium» influenciou decisivamente toda a Igreja, no modo de pensar, de ensinar, de olhar para as suas instituições e para o mundo. Imprimiu-lhe uma nova dinâmica que continua viva e a convocar a Igreja a estar atenta à linguagem do seu tempo e lugar. Mantém-se sempre atual a necessidade de formar o clero e o povo, conforme indicam os números 14 a 20. Para isto foram criados os diversos centros de liturgia, as comissões regionais, nacionais e internacionais, os cursos de liturgia, as semanas de formação e diversas outras iniciativas.
Temos ainda os capítulos V, VI e VII, que tratam respetivamente do Ano Litúrgico (caminho através do qual a Igreja recorda e revive o mistério pascal de Cristo), a Música e a Arte Sacra, que devem contribuir para a beleza e dignidade do culto.
O Concílio mostrou-nos que a liturgia é o momento privilegiado de encontro com Deus, ensinou a valorizar e redescobrir o valor da Palavra e da Eucaristia e a importância da oração e do silêncio, da reflexão bíblica, da força que vem da Eucaristia.



Para refletir
  • Qual é o espaço que a Liturgia ocupa hoje na Igreja e na minha vida pessoal? Ela é vivida como fonte e cume da vida eclesial?
  • Como é a formação litúrgica na minha comunidade? Há necessidade de uma formação mais direcionada?
  • A decoração, a arte, as alfaias e o coro na minha paróquia favorecem o encontro com Deus? Revelam a beleza e dignidade de Deus?
  • Os leitores, cantores e acólitos da minha paróquia têm consciência do ministério que exercem?
Partilha connosco a tua reflexão!



Para aprofundar
  • Documentos do Concílio Vaticano II.
  • Bento XVI, Exortação Apostólica «Sacramentum Caritatis», 2007. 
  • Guido Marini, «Liturgia: Mysterium salutis», Paulus Editora, 2011. 
  • João Paulo II, Carta Apostólica «Spirítus et sponsa», 2003. 
  • João Paulo II, Carta Encíclia «Ecclesia de Eucharistia», 2003. 
  • David Cranmer, «Cantate Domino», Paulus Editora, 2007.



Para agir
  • Converse com as pessoas da sua comunidade e com o seu pároco e organizem uma jornada de Liturgia. Escolham o tema e conferencista, organizem o trabalho de grupo e finalizem com uma celebração preparada com esmero.



© Darlei Zanon, ssp 
— «Para ler o Concílio Vaticano II», páginas 9 a 13 —
© Paulus Editora, 2012
© Laboratório da fé, 2013
A publicação ou utilização deste texto precisa da autorização expressa do editor


Há atualidade na Sacrosanctum Concilium?


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 4.12.13 | Sem comentários
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