Nihil Obstat — blogue de Martín Gelabert Ballester

Iniciamos um novo ano litúrgico, celebrando este artigo do Credo: o Senhor «de novo há de vir em sua glória, para julgar os vivos e os mortos». Digo-o todos os anos; e há sempre alguém que se surpreende: a primeira parte do Advento celebra a segunda vinda do Senhor, essa vinda gloriosa, em que porá cada coisa no devido lugar. Esse é o sentido do «juízo»: cada pessoa ocupará o justo lugar que lhe corresponde. Como este justo lugar é determinado por um Deus bom e misericordioso — esse mesmo Deus que por amar até não poder mais quis fazer-se humano, um Deus que compreende as nossas dores, pecados e misérias —, é de esperar que a todos coloque num bom lugar. A esperança cristã no regresso glorioso do Senhor não é um motivo de temor, mas de júbilo.
Os que já tiveram oportunidade de conhecer a justiça do Senhor glorioso aperceberam-se de algo que ainda está obscuro para muitos. Aperceberam-se do que tem valor e do que não tem valor. Vale o amor. E o que o amor acarreta: verdade, justiça, fidelidade, paz, reconciliação, perdão. Vale porque nestas atitudes reflete-se uma marca de Deus. Portanto, tudo que façamos na perspetiva do amor, como tem um valor divino e eterno, voltaremos a encontrá-lo iluminado e transfigurado, limpo de toda a mancha, na nova terra que Deus prepara para os que ama.
Sem dúvida, seria mais apelativo (alguns dirão: mais necessário) que o Advento anunciasse o fim do desemprego, da pobreza, da crise. Mas, bem entendido, o anúncio do Advento deveria despertar nos cristãos uma série de atitudes que interferissem na raiz dos problemas, já que permitem ver Cristo em cada pessoa e em cada acontecimento, acelerando assim a chegada do Reino, com efeitos reais no aqui e agora. A esperança é incompatível com a passividade. Se o ser humano cruza os braços, Deus deita-se a dormir. Para que Deus desperte, temos que pôr mãos à obra, a obra do amor.
O Advento é uma boa ocasião para fazer memória do futuro. Do futuro que virá e do futuro que podemos antecipar. Porque o futuro não é o que ainda não existe. Pode-se tornar presente em forma de projeto. Antecipamo-lo quando vivemos fraternalmente, quando lutamos em prol da paz, da justiça e da solidariedade. Ao antecipá-lo, o Senhor que um dia virá glorioso, faz-se humilde e silenciosamente presente. Porque se faz presente, podemos esperá-lo. Se não o tornamos presente, a esperança converte-se numa ilusão sem futuro.

© Martín Gelabert Ballester, OP

© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013
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Nihil obstat - www.laboratoriodafe.net
Martín Gelabert Ballester, frade dominicano, nasceu em Manacor (Ilhas Baleares) e reside em Valencia (Espanha). É autor do blogue «Nihil Obstat» (em espanhol), que trata de questões religiosas, teológicas e eclesiais. Pretende ser um espaço de reflexão e diálogo. O autor dedica o seu tempo à pregação e ao ensino da teologia, especialmente antropologia teológica e teologia fundamental. 
Outros artigos publicados no Laboratório da fé


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 30.11.13 | Sem comentários
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