VIVER O DOMINGO: ao ritmo da liturgia


Trigésima primeira semana


Não há lugar para remorsos

A história de Zaqueu é uma história de conversão, de perdão, de penitência e de acolhimento renovado. É uma história de reconciliação e de salvação. A este propósito, o jesuíta indiano Anthony de Mello chamou a atenção para o facto de em parte nenhuma dos Evangelhos Jesus Cristo ter pedido aos pecadores que manifestassem remorsos: não há lugar para remorsos no processo de conversão. Esse processo é um acontecimento de profunda alegria. As pessoas só se podem aperceber do seu pecado à luz da misericórdia. Ver os próprios pecados com verdadeira clareza é um privilégio dos santos. Então, se eu vejo o meu pecado, não devo deixar que a visão do mesmo me seduza ou deixe consternado. Em vez disso, devo voltar-me para a fonte de luz que me permitiu vê-lo e reconhecê-lo.
Antony de Mello acredita que, em vez de sublinhar o remorso como o principal componente do processo de arrependimento e conversão, os nossos catecismos deveriam pôr em destaque a confiança no poder do perdão de Deus e na disponibilidade para perdoar aos nossos inimigos. A incapacidade de confiar no poder de Deus para fazer algo substancial com o mundo e comigo mesmo é o nosso maior pecado. E com esta atitude impedimos que Jesus Cristo entre na nossa «casa», isto é, na nossa vida.
A «boa notícia» de Jesus Cristo é para todos (DOMINGO: «Hoje devo ficar em tua casa») sem exceção: homens e mulheres, ricos e pobres (SEGUNDA: os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos»), judeus e não judeus, piedosos e pecadores, sãos e doentes...
É precisamente pelo acolhimento que as pessoas mudam ao contactarem com Jesus Cristo. O encontro é sempre propício para a «festa». Esta é expressão do ser próprio de Deus (TERÇA: «Banquete do reino de Deus»). O exemplo de Zaqueu, entre tantos outros, mostra como um vigarista se pode converter em generoso (QUARTA: «Renunciar a todos os seus bens»). Mas os «piedosos» só estão interessados em murmurar por causa de Jesus Cristo se juntar com os pecadores.
Jesus Cristo também se quer aproximar de nós, para nos oferecer o seu perdão sem condições. Em nós está a possibilidade de o acolher com alegria (QUINTA: «Haverá alegria»). Hoje como ontem, só a alegria de nos sentirmos acolhidos pelo amor pode iluminar (SEXTA: «Filhos da luz») a nossa vida e dar-nos a coragem para ser verdadeiros discípulos (SÁBADO: «Acreditaram na Escritura e na palavra de Jesus») de Jesus Cristo.

O que estou disposto a fazer para que Jesus Cristo entre em minha «casa»? A fé não é algo que fazemos; a fé é confiança. O mais importante na fé não está em nós, nos nossos conhecimentos. O mais importante está em Deus e na nossa abertura à sua presença. Esta semana, deixemo-nos invadir pela presença de Jesus Cristo e pela alegria que transborda do nosso coração.

A elaboração deste texto foi inspirada na obra de Tomáš Halík — «Paciência com Deus. Oportunidade para um encontro» — e nos textos publicados neste «Laboratório da fé» a propósito do trigésimo primeiro domingo.

© Laboratório da fé, 2013

Trigésima primeira semana, no Laboratório da fé, 2013
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 3.11.13 | Sem comentários
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