VIVER O DOMINGO: ao ritmo da liturgia


Trigésima semana


Opções fundamentais da vida

As prostitutas, os publicanos, os samaritanos, as crianças... os modelos propostos por Jesus Cristo não são propriamente os mais frequentes nos livros de papel couché. Até que ponto, hoje em dia, também nos baralham estes exemplos, como antes aconteceu com a gente «ordenada» que escutava Jesus Cristo? Quem é que hoje seria apresentado por Jesus Cristo como exemplo a seguir, para nos convencer de uma vez por todas que o importante não são as formas externas, mas o que habita a profundidade do nosso coração?
Uma longa tradição da doutrina sobre o pecado insistiu nos atos pontuais (mais veniais ou mais mortais), na confissão detalhada, oral, semanal; num «dá e tira» com Deus através da nossa consciência... Que equívoco! Segundo Jesus Cristo, as coisas são muito mais profundas!
Então, em que se traduz a profundidade do coração? Nas opções fundamentais da nossa vida. E, para um cristão, só há duas decisões decisivas: viver em abundância (daí uma vontade permanente de perfeição integral) e contribuir para que haja vida em abundância à sua volta.
Com a curiosa observação de que, em grande parte, ambas as opções convergem: aperfeiçoamo-nos e vivemos no top, quando vivemos para os outros. O que nos faz mais «nós» são os outros!
O fariseu preocupava-se com a sua perfeição... mas faltava-lhe a humildade para reconhecer que a perfeição não dependia só dele. Bater com a mão no (próprio) peito nunca será demais! 
Ser uma pessoa honrada, cumpridora, trabalhadora, amiga dos seus amigos, tranquila... é bom e salutar. Mas não é isso que importa.
Ser egoísta, materialista, preocupado apenas com o próprio interesse, incapaz de perdoar, sem amigos... não é bom nem salutar. Mas não é isso que importa.
As boas obras não servem para nada se forem acompanhadas de soberba ou serem simplesmente para me sentir melhor do que os outros. Este aspeto afeta-nos a todos! Infelizmente, todos os dias nos assemelhamos ao fariseu. Achamos que temos o direito de apontar o dedo aos outros. E, às vezes, até ao próprio Deus. Como se Deus tivesse de nos agradecer ou retribuir pelo nosso comportamento. Isto mostra uma total falta de confiança em Deus, uma falta absoluta de fé. Não precisamos de Deus para nada!
Os nossos comportamentos têm origem na profundidade do nosso ser. É aí, no nosso fundo mais profundo, no santuário do coração e da consciência, onde habita Deus, onde somos confrontados com a presença de Deus, onde Deus nos examina e nos ajuda a descobrir a nossa verdadeira identidade: humildes (DOMINGO: «Meu Deus, tende compaixão de mim, que sou pecador») ou soberbos; necessitados da relação com Deus (SEGUNDA: «Passou a noite em oração») ou auto-suficientes; discretos (TERÇA: «É semelhante ao fermento») ou interessados em «dar nas vistas»; servos (QUARTA: «Há últimos que serão dos primeiros») ou senhores; verdadeiros ou falsos (QUINTA: «Ide dizer a essa raposa»); misericordiosos (SEXTA: «Bem-aventurados») ou duros de coração; amorosos (SÁBADO: «Manso e humilde de coração») ou odiosos; justos ou injustos.
Bem vistas as coisas, se o fariseu e o publicano, em vez de rezar cada um por sua conta, tivessem rezado juntos, talvez tivessem maior proveito. Não tenhamos reservas para rezar com os outros, mesmo que sejam diferentes; não são apenas os que pensam como nós ou os que nos dão sempre razão que nos ajudam a crescer e amadurecer como seres humanos (e como cristãos).

Com que atitude faço oração? A primeira e principal atitude a desenvolver nesta semana consiste em colocar-me diante de Deus com a humildade e a sinceridade de quem se reconhece pecador, pede perdão, sente necessidade da misericórdia divina, confia em Deus. Antes de dizer «fórmulas» decoradas, comecemos por invocar a graça divina, reconhecendo a nossa fragilidade.

A elaboração deste texto foi inspirada na obra de José Luis Cortés, El ciclo C, Herder Editorial,  nos textos publicados neste «Laboratório da fé» a propósito do trigésimo domingo.

© Laboratório da fé, 2013

Trigésima semana, no Laboratório da fé, 2013
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 27.10.13 | Sem comentários
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