Nihil Obstat — blogue de Martín Gelabert Ballester

«O meu espírito alegra-se em Deus, meu salvador» — canta a Virgem Maria, depois de receber o anúncio do anjo. Contudo, parece que os que acreditamos em Deus temos mais motivos para estar tristes, uma vez que, como diz Tomás de Aquino, «a ausência da realidade amada produz mais tristeza do que alegria». Enquanto vivemos neste mundo, estamos longe do Senhor, de acordo com a Segunda Carta aos Coríntios (5, 6). Pois bem, acrescenta São Tomás, do amor procedem a alegria e a tristeza, embora por motivos opostos. A alegria é causada pela presença do amado ou também pelo facto de saber que a pessoa amada se encontra bem, de perfeita saúde, feliz. Saber que o amigo está bem, ainda que esteja longe, é motivo de alegria. Pelo contrário, do amor nasce a tristeza quer pela ausência ou afastamento do amado, quer quando aquele a quem amamos sofre algum mal.
O que podemos concluir destas premissas no que se refere ao amor de Deus, um Deus invisível, que nem tocamos, nem palpamos, nem sentimos, nem vemos? Na relação com este Deus invisível aos olhos da carne, há motivos para a alegria. Primeiro, porque sabemos que Deus nos ama. Embora pareça afastado, interessa-se por nós; mais ainda, está sempre a pensar em nós, tem-nos permanentemente na sua memória. Mas, além disso, quando nós amamos a Deus, o próprio Deus torna-se presente na nossa vida, no nosso coração, na nossa mente e no nosso espírito, segundo diz a Primeira Carta de São João (6, 16): «o que permanece no amor, permanece em Deus e Deus nele». E também no evangelho segundo João (14, 23): «se alguém me ama, guardará a minha palavra, meu Pai o amará e nós viremos a ele e faremos nele a nossa morada».
Daí este magnífico comentário de Tomás de Aquino em relação ao texto da Segunda Carta aos Coríntios (5, 6) — enquanto vivemos neste corpo estamos longe do Senhor: «Afirma-se que, enquanto estamos no corpo, estamos longe de Deus por comparação aos que estão na sua presença e gozam assim da sua visão. Por isso, acrescenta-se no versículo sete: 'caminhamos na fé e não na visão'. Mas, ainda nesta vida, Deus torna-se presente naqueles que ama, pela graça que habita neles».

© Martín Gelabert Ballester, OP

© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013
A utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização do autor



Nihil obstat - www.laboratoriodafe.net
Martín Gelabert Ballester, frade dominicano, nasceu em Manacor (Ilhas Baleares) e reside em Valencia (Espanha). É autor do blogue «Nihil Obstat» (em espanhol), que trata de questões religiosas, teológicas e eclesiais. Pretende ser um espaço de reflexão e diálogo. O autor dedica o seu tempo à pregação e ao ensino da teologia, especialmente antropologia teológica e teologia fundamental. 
Outros artigos publicados no Laboratório da fé


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 11.9.13 | Sem comentários
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