Carta encíclica sobre a fé [27]


É conhecido o modo como o filósofo Ludwig Wittgenstein explicou a ligação entre a fé e a certeza. Segundo ele, acreditar seria comparável à experiência do enamoramento, concebida como algo de subjetivo, impossível de propor como verdade válida para todos [19]. De facto, aos olhos do ser humano moderno, parece que a questão do amor não teria nada a ver com a verdade; o amor surge, hoje, como uma experiência ligada, não à verdade, mas ao mundo inconstante dos sentimentos.
Mas, será esta verdadeiramente uma descrição adequada do amor? Na realidade, o amor não se pode reduzir a um sentimento que vai e vem. É verdade que o amor tem a ver com a nossa afetividade, mas para a abrir à pessoa amada, e assim iniciar um caminho que faz sair da reclusão no próprio eu e dirigir-se para a outra pessoa, a fim de construir uma relação duradoura; o amor visa a união com a pessoa amada. E aqui se manifesta em que sentido o amor tem necessidade da verdade: apenas na medida em que o amor estiver fundado na verdade é que pode perdurar no tempo, superar o instante efémero e permanecer firme para sustentar um caminho comum. Se o amor não tivesse relação com a verdade, estaria sujeito à alteração dos sentimentos e não superaria a prova do tempo. Diversamente, o amor verdadeiro unifica todos os elementos da nossa personalidade e torna-se uma luz nova que aponta para uma vida grande e plena. Sem a verdade, o amor não pode oferecer um vínculo sólido, não consegue arrancar o «eu» para fora do seu isolamento, nem libertá-lo do instante fugidio para edificar a vida e produzir fruto.
Se o amor tem necessidade da verdade, também a verdade precisa do amor; amor e verdade não se podem separar. Sem o amor, a verdade torna-se fria, impessoal, gravosa para a vida concreta da pessoa. A verdade que buscamos, a verdade que dá significado aos nossos passos, ilumina-nos quando somos tocados pelo amor. Quem ama, compreende que o amor é experiência da verdade, compreende que é precisamente ele que abre os nossos olhos para verem a realidade inteira, de maneira nova, em união com a pessoa amada. Neste sentido, escreveu São Gregório Magno que o próprio amor é um conhecimento [20], traz consigo uma lógica nova. Trata-se de um modo relacional de olhar o mundo, que se torna conhecimento partilhado, visão na visão do outro e visão comum sobre todas as coisas. Na Idade Média, Guilherme de Saint Thierry adopta esta tradição, ao comentar um versículo do Cântico dos Cânticos no qual o amado diz à amada: «Como são lindos os teus olhos de pomba!» (Cântico dos Cânticos 1, 15) [21]. Estes dois olhos — explica Saint Thierry — são a razão crente e o amor, que se tornam um único olhar para chegar à contemplação de Deus, quando a inteligência se faz «entendimento de um amor iluminado» [22].

[19] Cf. G. H. von Wright (coord.), Vermischte Bemerkungen / Culture and Value (Oxford 1991), 32-33 e 61-64
[20] Cf. Homiliae in Evangelia, II, 27, 4: PL 76, 1207 (« amor ipse notitia est »)
[21] Cf. Expositio super Cantica Canticorum, XVIII, 88: CCL, Continuatio Mediaevalis, 87, 67
[22] Ibid., XIX, 90: o. c., 87, 69


A luz da fé [Carta Encíclica sobre a fé - «Lumen Fidei»]
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  • A luz da fé — números publicados no Laboratório da fé > > >



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  • A modernidade pretende separar o amor da verdade
  • A modernidade quer reduzir o amor ao campo dos sentimentos
  • O amor não se pode reduzir a um sentimento passageiro
  • O amor tem como finalidade a união com a pessoa amada
  • O amor tem necessidade da verdade
  • O amor fundado na verdade permanece no tempo
  • O amor fundado na verdade supera o instante efémero
  • O amor fundado na verdade permanece firme para sustentar o caminho comum
  • Sem a verdade, o amor não permanece no tempo
  • Sem a verdade, o amor não pode oferecer um vínculo sólido
  • A verdade precisa do amor, como o amor precisa da verdade
  • Amor e verdade não se podem separar
  • Sem o amor, a verdade torna-se fria
  • Sem o amor, a verdade torna-se impessoal
  • Quem ama, compreende que o amor é experiência da verdade
  • Quem ama, compreende que o amor abre os nossos olhos para ver de maneira nova
  • O amor é um modo relacional de olhar o mundo
  • O amor proporciona uma visão comum sobre as coisas
  • A razão crente e o amor formam um único olhar para chegar à contemplação de Deus
  • O que é o amor?
  • Porque é que alguns querem separar o amor da verdade?
  • Pode-se reduzir o (verdadeiro) amor a um mero sentimento?
  • Que relação existe entre amor e verdade?
  • Amor e verdade não se podem separar? Porquê?
© Laboratório da fé, 2013

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Papa Francisco, Carta Encíclica sobre a fé (Lumen Fidei — A luz da fé)
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 7.9.13 | Sem comentários
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