Carta encíclica sobre a fé [22]


Deste modo, a vida do fiel torna-se existência eclesial. Quando São Paulo fala aos cristãos de Roma do único corpo que todos os crentes formam em Cristo, exorta-os a não se vangloriarem, mas a avaliarem-se «de acordo com a medida de fé que Deus distribuiu a cada um» (Romanos 12, 3). O crente aprende a ver-se a si mesmo a partir da fé que professa. A figura de Cristo é o espelho em que descobre realizada a sua própria imagem. E dado que Cristo abraça em Si mesmo todos os crentes que formam o seu corpo, o cristão compreende-se a si mesmo neste corpo, em relação primordial com Cristo e os irmãos na fé. A imagem do corpo não pretende reduzir o crente a simples parte de um todo anónimo, a mero elemento de uma grande engrenagem; antes, sublinha a união vital de Cristo com os crentes e de todos os crentes entre si (cf. Romanos 12, 4-5). Os cristãos sejam «todos um só» (cf. Gálatas 3, 28), sem perder a sua individualidade, e, no serviço aos outros, cada um ganha profundamente o próprio ser. Compreende-se assim por que motivo, fora deste corpo, desta unidade da Igreja em Cristo — desta Igreja que, segundo as palavras de Romano Guardini, «é a portadora histórica do olhar global de Cristo sobre o mundo»,[16] —, a fé perca a sua «medida», já não encontre o seu equilíbrio, nem o espaço necessário para se manter de pé. A fé tem uma forma necessariamente eclesial, é professada partindo do corpo de Cristo, como comunhão concreta dos crentes. A partir deste lugar eclesial, ela abre o indivíduo cristão a todos os humanos. Uma vez escutada, a palavra de Cristo, pelo seu próprio dinamismo, transforma-se em resposta no cristão, tornando-se ela mesma palavra pronunciada, confissão de fé. São Paulo afirma: «Realmente com o coração se crê (…) e com a boca se faz a profissão de fé» (Romanos 10, 10). A fé não é um facto privado, uma conceção individualista, uma opinião subjetiva, mas nasce de uma escuta e destina-se a ser pronunciada e a tornar-se anúncio. Com efeito, «como hão-de acreditar n’Aquele de quem não ouviram falar? E como hão-de ouvir falar, sem alguém que O anuncie?» (Romanos 10, 14). Concluindo, a fé torna-se operativa no cristão a partir do dom recebido, a partir do Amor que o atrai para Cristo (cf. Gálatas 5, 6) e torna participante do caminho da Igreja, peregrina na história rumo à perfeição. Para quem foi assim transformado, abre-se um novo modo de ver, a fé torna-se luz para os seus olhos.

[16] «Vom Wesen katholischer Weltanschauung (1923)», in: Unterscheidung des Christlichen. Gesammelte Studien 1923-1963 (Mainz 1963), 24

A luz da fé [Carta Encíclica sobre a fé - «Lumen Fidei»]
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  • A fé possui uma dimensão eclesial
  • O crente vê-se a partir da fé que professa
  • O cristão compreende-se como membro do Corpo de Cristo
  • A Igreja é o Corpo de Cristo
  • A imagem do corpo estabelece ligação com Jesus Cristo e com os outros
  • Há uma união vital de Jesus Cristo com os cristãos e destes entre si
  • Fora do Corpo de Cristo (Igreja), a fé perde o seu equilíbrio
  • A fé não é um facto privado
  • A fé não é uma conceção individualista
  • A fé não é uma opinião subjetiva
  • A fé nasce da escuta da Palavra de Deus
  • A fé destina-se a ser pronunciada
  • A fé destina-se a tornar-se anúncio
  • Acolhida como dom, a fé torna-se luz para os olhos do cristão
  • Porque é que a fé possui uma dimensão eclesial?
  • Sinto-me membro do Corpo de Cristo?
  • Que relação existe entre mim e Jesus Cristo?
  • Que relação existe entre mim e os outros cristãos?
  • Não é possível uma fé «privada», «individualista», «subjetiva»?
  • A fé, em mim, torna-se anúncio? Como?
© Laboratório da fé, 2013

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Papa Francisco, Carta Encíclica sobre a fé (Lumen Fidei — A luz da fé)
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 2.9.13 | Sem comentários
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