PREPARAR O DOMINGO: décimo oitavo domingo

4 DE AGOSTO DE 2013

Carlos Maria Antunes, «Só o Pobre se faz Pão», Paulinas, 2013, 116-118


A propósito de que a vida não depende dos bens e da necessidade de nos preservarmos da ganância, no Evangelho de Lucas (12, 16-21), Jesus diz esta parábola: «Havia um homem rico, a quem as terras deram uma grande colheita. E pôs-se a discorrer, dizendo consigo: 'Que hei de fazer, uma vez que não tenho onde guardar a minha colheita?' Depois continuou: 'Já sei o que vou fazer: deito abaixo os meus celeiros, construo uns maiores e guardarei lá o meu trigo e todos os meus bens. Depois, direi a mim mesmo: Tens muitos bens em depósito para muitos anos; descansa, come, bebe e regala-te.' Deus, porém, disse-lhe: 'Insensato! Nesta mesma noite, vai ser reclamada a tua vida; e o que acumulaste para quem será?'». Não nos reconheceremos facilmente nesta parábola? A tentação de acumular mais e mais, e de encontrar aí uma segurança face a um futuro sempre incerto, preside à orientação de muitas vidas. Manifesta-se aqui um medo do amanhã. Seduz-nos tanto o futuro programado e garantido, como se tudo dependesse de nós. E vamos dizendo: «mais vale um pássaro na mão do que dois a voar». O que não nos damos conta é que, ao não aceitar a provisoriedade própria da vida, nos fechamos à possibilidade do novo, do revelado, do inesperado. Cercamos a vida nos limites dos próprios «celeiros» que vamos construindo.
E que fazer com esse medo, que nem sequer ousamos verbalizar, e que se chama morte? O medo do futuro é sempre, em última análise, medo da morte. Na tradição monástica sempre se deu visibilidade à morte. E ao contrário do que muitos pensam, isso nada tem de mórbido. Trata-se de uma grande sabedoria de vida. Quem vive ameaçado pela morte, não vive. Viver implica um grande desapego face à própria vida. Só se vive intensamente quando se está consciente que a qualquer momento podemos partir. Não podemos esquecer a nossa condição de peregrinos; e estes não constroem «celeiros», levam apenas uma pequena mochila com o mais essencial para a viagem.



  • Lucas 12, 13-21 — notas exegéticas > > >
  • A vida de uma pessoa não depende da abundância dos seus bens > > >



Preparar o décimo oitavo domingo, ano C, no Laboratório da fé
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 3.8.13 | Sem comentários
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