Ao ritmo da liturgia


Décima nona semana


O sentido escatológico da existência humana

As parábolas do evangelho do décimo nono domingo (Lucas 12, 32-48) têm uma conclusão semelhante: é preciso estar vigilante («sempre alerta»), fazendo bom uso do que nos foi confiado. Bem, e muito nos foi confiado! Tanto, que nem sempre temos consciência. Gostamos mais de lamentar as nossas carências, do que agradecer os dons que possuímos. Até que encontramos alguém que nos ajuda a compreender o quanto somos afortunados, porque eles têm muitíssimo menos. Alguma vez paraste para fazer a lista dos teus talentos, das tuas qualidades? Ainda estás a tempo de o fazer! Olha bem para ti, de certeza que vais encontrar talentos que nem sequer imaginas possuir!
A verdade é que não tomamos muito a sério a importância de explorar bem os nossos talentos. Pensamos que é opcional: podemos escolher fazê-lo ou não, de acordo com a nossa vontade. No entanto, parece que, aos olhos de Deus, tudo o que nos é dado, sem exceções, é para pormos a render. E não em proveito próprio. Mas para servir os outros. Porque os outros têm direito — sim, direito — a beneficiar dos nossos talentos.
É uma lógica dura; pois, nem sequer posso dizer que faço alguma coisa com o que é meu?! Mas é a lógica do Evangelho.
Na doutrina da Igreja, fala-se de «pecado mortal». Hoje, podemos dizer que é «pecado mortal» ter vivido sem atingir o máximo das capacidades, como é nossa obrigação; é morrer sem «estar preparado». E já sabemos que, para o cristão, viver é sempre viver com e para os outros.
Jesus Cristo proclama uma (nova) bem-aventurança associada à vigilância: «felizes» (DOMINGO: «Felizes esses servos, que o senhor, ao chegar, encontrar vigilantes»). Ela fala por experiência própria. Por isso, diz-nos para não termos medo. Para confiarmos. Para termos esperança (SEGUNDA: «Ao terceiro dia ressuscitará»). Para estarmos sempre atentos aos sinais de Deus. Para colocarmos o nosso coração naquilo que é realmente valioso.
Depois, diz que o senhor ao encontrar os servos vigilantes, «mandará que se sentem à mesa e, passando diante deles, os servirá». Esta atitude não faz lembrar nada? Não foi exatamente o que Jesus Cristo fez, na tarde de quinta-feira santa, quando colocou a toalha à cintura e começou a lavar os pés aos apóstolos? Sim, Jesus Cristo deu-nos um exemplo de genuína humildade (TERÇA: «Humilde como esta criança»). Sim, Jesus Cristo fez-se servo dos seus amigos (QUARTA: «Terás ganho o teu irmão»). Não por dever ou por obediência a uma lei. Mas para nos testemunhar o amor de Deus (QUINTA: «A sua misericórdia se estende de geração em geração»). Serviu os amigos para dar a conhecer o coração de Deus (SEXTA: «Quem puder compreender, compreenda»), para dar a conhecer o coração do Pai que ama a todos a começar pelos mais «pequenos» (SÁBADO: «Dos que são como elas é o reino dos Céus»), pelos «últimos» da sociedade.

Quais são as maiores dificuldades para viver os ensinamentos de Jesus Cristo? Uma grande dificuldade é o facto de se tratarem de recomendações que apontam para uma felicidade que não é imediata, que não parece evidente aos nossos olhos. Por isso, esta semana, somos desafiados a tomar consciência de que a luz da fé é capaz de iluminar toda a nossa vida, «até se tornar estrela que mostra os horizontes do nosso caminho» (Francisco, «A luz da Fé», 4).

A elaboração deste texto foi inspirada na obra de José Luis Cortés, El ciclo C, Herder Editorial
© Laboratório da fé, 2013

Décima nona semana, no Laboratório da fé, 2013
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 11.8.13 | Sem comentários
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