As «chaves» do Concílio


Lumen Gentium — Constituição Dogmática sobre a Igreja


Reflexões sobre o sacerdócio ministerial
Tendo estes antecedentes mais latos como pano de fundo, podemos analisar agora o sacerdócio ministerial. O ministério do sacerdote ordenado só pode ser entendido como uma chamada ministerial particular para estar ao serviço do sacerdócio de todos os batizados. Tal relação é afirmada no Catecismo da Igreja Católica (CIC): «Enquanto o sacerdócio comum dos fiéis se realiza no desenvolvimento da vida batismal — vida de fé, esperança e caridade, vida segundo o Espírito —, o sacerdócio ministerial está ao serviço do sacerdócio comum, ordena-se ao desenvolvimento da graça batismal de todos os cristãos» (CIC 1547). É o sacerdócio dos batizados que determina a forma do sacerdócio ministerial, e não o contrário. A «Lumen Gentium» 10 estabeleceu a ligação necessária entre o sacerdócio batismal e o sacerdócio ministerial. Essa relação seria especificada noutros textos conciliares.
No seu Decreto sobre o Ministério e a Vida dos Sacerdotes («Presbyterorum Ordinis» [PO]), o Concílio concebe o sacerdócio ministerial como um serviço ao sacerdócio dos batizados. Fá-lo, em primeiro lugar, através da ênfase dada ao ministério da Palavra (PO 4). O sacerdote é chamado a pregar a boa-nova de Jesus Cristo por palavras e por obras. Se nós, os cristãos, quisermos fazer da nossa vida comum um sacrifício vivo oferecido a Cristo, precisamos de ser alimentados e inspirados pela Palavra de Deus. O sacerdote deve estar tão «apanhado» pelo amor de Cristo, que esse amor impregne a sua pregação, permitindo-lhe transportar o mistério do amor de Cristo para os outros. Ao mesmo tempo, deve ser um observador perspicaz da condição humana, capaz de identificar a graça oculta de Deus já em ação nas vidas das pessoas a quem serve. Escreve o Concílio que: «A pregação sacerdotal, não raro dificílima nas circunstâncias hodiernas do mundo, se deseja tocar de forma mais eficaz as almas dos ouvintes, não se deve limitar a expor de modo geral e abstrato a Palavra de Deus, mas sim aplicar às circunstâncias concretas da vida a verdade perene do Evangelho» (PO 4). A pregação, para ser eficaz, requer tanto um profundo empenhamento no poder evangélico do Evangelho, como uma profunda compreensão das complexidades da vida moderna.
O sacerdote também servirá o sacerdócio batismal mediante o exercício do seu ministério sacramental dentro e não acima da comunidade cristã, de modo especial quando preside à liturgia eucarística (PO 5). O sacerdote reúne, para o culto, o povo de Deus que lhe foi confiado. Ele preside à liturgia, unindo as orações do povo, recebendo os seus dons e oferecendo-os ao Pai na pessoa de Cristo e em união com toda a assembleia eucarística. Na celebração da Eucaristia, a ligação profunda entre o sacerdócio ministerial e o sacerdócio batismal torna-se plenamente manifesta. Isso deve-se ao facto de a natureza sacrificial da Eucaristia atuar em duas direções. Recordemos o que foi dito atrás. Na economia cristã, o sacrifício começa sempre com a ação de Deus, não com a nossa. O primeiro movimento da Eucaristia é a autodoação de Deus em Jesus Cristo, oferecido para nossa salvação, pelo poder do Espírito Santo. Reconhecemo-lo na evocação dos atos salvíficos de Deus, feita na liturgia da Palavra e na oração eucarística recitada pelo sacerdote.
É só como grata resposta à autodoação de Deus, em Cristo, que a nossa própria oferta eucarística faz sentido. Levamos os nossos humildes dons ao altar, como símbolo das nossas vidas, acreditando que esses simples dons entrarão no dinamismo eterno da autodoação de Cristo. Em «Deus caritas est» (Deus é Amor), o papa Bento XVI escreveu que na celebração da Eucaristia «entramos na pró­pria dinâmica da sua autodoação [de Cristo]» (13). Tanto Santo Ireneu como Santo Agostinho descreveram a Eucaristia como uma espécie de pedagogia divina na qual somos «iniciados» no paradigma pascal, na forma sacerdotal do amor cristão. Não nos deve surpreender que os Padres da Igreja primitiva descrevessem com tanta frequência a Eucaristia como uma dupla transformação: a transformação dos elementos eucarísticos e a transformação da comunidade reunida. Assim, é sob a presidência eucarística do sacerdote que os batizados são formados na «gramática» sacerdotal e pascal do amor cristão e enviados em missão ao mundo. O ministério sacerdotal do sacerdote realiza-se mais profundamente quando ele preside à Eucaristia e no seu papel específico de oferecer o sacrifício eucarístico em favor do povo, mas não se limita ao domínio da liturgia. Todo o ministério sacramental do sacerdote, como, aliás, todo o seu ministério, deve ser visto como uma forma de convidar os homens e as mulheres a entrar no poder transformador do amor sacrificial de Cristo.
Finalmente, o Decreto «Presbyterorum Ordinis» aborda o ministério pastoral do sacerdote como líder pastoral do povo (PO 6). Aqui, o sacerdote também serve o sacerdócio batismal. Fá-lo através da liderança pastoral, através da promoção da maturidade do Povo de Deus e através da ordenação dos muitos dons dos batizados, de tal modo que esses dons possam edificar a Igreja, ao serviço da sua missão no mundo.
Vemos, no tratamento dado ao sacerdócio ministerial, o emprego de uma estrutura conciliar comum: o triplo ministério de Cristo*, como sacerdote, profeta e rei. Durante séculos, esse triplo ministério fora aplicado ao ministério dos ordenados, como se vê no Decreto sobre o Sacerdócio. Contudo, pela primeira vez, o Concílio ensinaria que todos os batizados participam desse triplo ministério. Com efeito, a nossa análise anterior do desenvolvimento feito pela «Lumen Gentium» 10 do sacerdócio batismal fazia parte de uma abordagem mais alargada da participação de todos os batizados no ministério de Cristo como sacerdote, profeta e rei. Não devemos menosprezar a importância de tal desenvolvimento. Empregando as «tria munera»*, o Concílio fundamentou toda a Igreja, e não só o clero, nas missões de Cristo e do Espírito Santo. É o Espírito Santo que capacita todos os batizados para participar na obra de Cristo como sacerdote, profeta e rei. Mais uma vez, isso aplica-se a todos os fiéis. Todos os cristãos são chamados à obra sacerdotal de oferecerem as suas vidas como sacrifício espiritual, todos são chamados a escutar e proclamar a Palavra, e todos são chamados a trabalhar pela vinda do Reino de Deus. Este desenvolvimento teológico forneceu ainda mais uma forma pela qual o Concílio foi capaz de transcender as tendências para a existência de uma Igreja dualista, e para nos fazer passar a uma Igreja baseada na unidade da fé, no Batismo e na missão cristã. Com efeito, a obra sacerdotal do Povo de Deus leva-o a participar na missão da Igreja no mundo, tema do nosso próximo capítulo.

* O «triplo ministério de Cristo» é muitas veies referido em latim como «triplex munus» ou «tria munera». Esta formulação teológica foi desenvolvida pela primeira vez pelo grande reformista João Calvino, sendo mais tarde introduzida na teologia católica por especialistas em direito canónico. Embora essa expressão tenha sido convencionalmente utilizada pelo Direito Canónico e pela Teologia católica em referência a posições de liderança, o Concílio Vaticano II parecia convidar a um significado mais lato, ao aplicá-la a todos os batizados. Nesse sentido, o Concílio estava a seguir o trabalho pioneiro de Yves Congar, que desenvolveu uma teologia do laicado com base nessa aplicação mais alargada.

© Richard R. Gaillardetz - Catherine E. Clifford
© Paulinas Editora, 2012
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Catherine E. Clifford e Richard R. Gaillardetz, As «chaves» do Concílio, Paulinas Editora, Prior Velho, 2012 (material protegido por leis de direitos autorais)


  • Sacerdócio batismal e ministerial [1]  [2]  [3]


Reflexões sobre a Igreja no Laboratório da fé


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 22.8.13 | Sem comentários
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