As «chaves» do Concílio


Lumen Gentium — Constituição Dogmática sobre a Igreja


Reflexões sobre o sacerdócio batismal
No seu sentido mais básico, um sacerdote é alguém que oferece um sacrifício. Em certo sentido, ambos os termos, «sacerdote» e «sacrifício», podem ser problemáticos nos nossos dias. Verifica--se um mal-estar generalizado na sociedade ocidental frente à noção de sacrifício. Ian Bradley sugere que as noções de sacrifício não assentam bem numa cultura centrada em autorrealização, gratificação imediata, consumo gritante e autoabsorção vazia de sentido. Muitos, hoje em dia, rejeitam a noção de sacrifício religioso devido às suas conotações com matança ritual e outros atos de violência que pretendiam aplacar a Deus. Esta associação com a violência é largamente moldada pelo sacrifício tal como este funcionava nas antigas religiões fora da tradição judaico-cristã. Nessas religiões antigas, sacrifício podia assumir muitas formas, mas geralmente envolvia a matança ritual de um animal, a fim de aplacar ou restaurar a comunhão com algum deus. Dentro deste antigo paradigma religioso, o sacerdote é apenas aquele que oferece formalmente o sacrifício a Deus ou aos deuses.
A existência desta forma de entender o sacrifício e o sacerdócio noutras tradições religiosas antigas pode criar um problema para os cristãos, para quem as noções de sacerdócio e sacrifício devem ser entendidas de uma forma muitíssimo diferente. Por exemplo, mesmo no Antigo Testamento, embora houvesse muitas formas diferentes de sacrifício ritual, nenhuma delas era realmente oferecida para aplacar um Deus irado. Com efeito, à medida que os antigos conceitos hebraicos de sacrifício se foram desenvolvendo, o sacrifício sangrento de propiciação passou a ser entendido menos como uma ação humana destinada a restabelecer a relação com Deus, e mais como uma ação divina que pretendia restaurar a relação de Deus com a humanidade. Além disso, na tradição profética bíblica, nota-se o abandono total do sacrifício ritual em favor de uma vida sacrificial e das obras de justiça.
No Novo Testamento, um dos conceitos cristãos dominantes de sacrifício tem as suas raízes na teologia da «quenose» [em grego «kenosis»] de Paulo. O famoso hino de São Paulo aos Filipenses fala da «quenose» de Cristo, do seu autoesvaziamento de todas as prerrogativas divinas, numa radical autodoação ao mundo. Este pensamento encerra um importante princípio teológico. A ação sacrificial nunca começa com a humanidade a oferecer um sacrifício a Deus. Pelo contrário, é Deus que, num movimento descendente, dá início à obra de reconciliação, vindo a nós com um amor vulnerável, de autodoação. A noção cristã da morte propiciatória de Cristo, pelo menos nos escritos de Paulo, também não constituem, tecnicamente, uma expiação «por substituição», visto que, para Paulo, «o mistério pascal não é um acontecimento que ocorre simplesmente em nosso favor; é, antes, qualquer coisa em que nós estamos intimamente envolvidos; o tema da vida através da morte e da ressurreição deveria ser realizado através das nossas próprias vidas». 
A intuição mais profunda da nossa tradição cristã é que Jesus não foi oferecido como vítima por outro, a fim de aplicar ou pacificar Deus. Pelo contrário, Jesus é Aquele que se oferece livremente como a vítima inocente de uma ação violenta que não é perpetrada contra Ele por Deus, mas por uma humanidade pecadora. É por isso que a forma radical do sacrifício único de Cristo é completamente incompreensível sem a ressurreição. É a cruz e a ressurreição juntas, o mistério pascal como um todo, que revela ao mundo que a gramática profunda do cosmo, na intenção divina, não é um sacrifício violento, mas amor vulnerável, de auto­doação. Na vida, morte e ressurreição de Cristo encontramos um amor que ultrapassa todas as fronteiras, um amor que exclui apenas aqueles que se excluem a si próprios. É esse amor, e só esse amor, que merece ser chamado sacrifício cristão
Esta reflexão sobre a ação sacerdotal de Cristo que se oferece a si próprio como dom sacrificial pelo mundo, uma abordagem teológica testificada de modo tão profundo na carta aos Hebreus, rege a forma como devemos pensar na vida sacerdotal de todos os batizados. A vida sacerdotal dos cristãos comuns é sustentada pela ação sacerdotal e pelo amor sacrificial de Cristo. O seu amor de autodoação, manifestado na cruz e na ressurreição, torna-se a fonte da nossa própria capacidade de amar. Só através de uma dependência viva de Cristo podemos fazer da «gramática» pascal da autodoação a profunda «gramática» de autodoação das nossas vidas. 
James Alison apresenta uma imagem maravilhosa para comunicar o que significa viver o nosso sacerdócio batismal. Imaginem, sugere Alison, que vivem na Albânia, em 1989, e que acabaram de ouvir, na rádio, que o Muro de Berlim caiu. O poder do mal, que é o regime comunista, foi derrotado. Agora, os comunistas podem continuar no poder na Albânia, mas isso não importa, porque você sabe, e eles sabem que você sabe, que tudo acabou. Você começa a celebrar, pois sabe que os dias da «besta» estão contados. Ora, isso não significa que a polícia estatal e os «apparatchiks» do partido deixarão de agir como violentos opressores. Exteriormente, na Albânia, tudo pode parecer como se nada tivesse mudado, mas, na realidade, tudo mudou, e você agora sabe que é apenas uma questão de tempo até que os efeitos da queda do Muro de Berlim cheguem às ruas da Albânia. E, por isso, você começa já a celebrar, e, celebrando agora, talvez a sua celebração apresse a propagação dessa derrota decisiva para o seu próprio país.
O mesmo se passa na vida cristã. Qualquer coisa de decisivo ocorreu para o mundo, no acontecimento de Cristo. E, pelo nosso Batismo, devemos viver da realidade libertadora dessa «qualquer coisa» que aconteceu em Cristo. Devemos viver dessa realidade mesmo que, ao nível das aparências superficiais, nada pareça ter mudado. As vidas dos cristãos comuns são sacerdotais, na medida em que nos rendermos ao poder do amor de autodoa­ção, encarnado na autodoação salvífica de Jesus. Como Alison afirma, de forma provocadora, viver o nosso sacerdócio batismal significa estar envolvido «no início da celebração de um novo regime, mesmo que o antigo regime ainda não tenha tido notícia da sua própria queda».

© Richard R. Gaillardetz - Catherine E. Clifford
© Paulinas Editora, 2012
A utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização da editora

Catherine E. Clifford e Richard R. Gaillardetz, As «chaves» do Concílio, Paulinas Editora, Prior Velho, 2012 (material protegido por leis de direitos autorais)


  • Sacerdócio batismal e ministerial [1]  [2]  [3]  [4]


Reflexões sobre a Igreja no Laboratório da fé

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 21.8.13 | Sem comentários
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