As «chaves» do Concílio


Lumen Gentium — Constituição Dogmática sobre a Igreja


O sacerdócio batismal e ministerial no magistério conciliar
Quando os bispos conciliares receberam o projeto de documento sobre a Igreja, durante a primeira sessão do Concílio, ficaram desapontados com a sua qualidade global. Uma importante exceção foi o capítulo sobre os leigos, que oferecia uma reflexão bastante positiva sobre o papel dos leigos na Igreja e no mundo. O capítulo começava com uma reflexão sobre o sacerdócio universal de que todos os crentes participam em virtude do seu Batismo. Os redatores do documento invocavam a experiência do movimento da Ação Católica* durante as últimas décadas, afirmando os direitos e os deveres dos leigos. Afirmavam ainda que os leigos eram chamados não só a um envolvimento mais ativo no reino secular, mas também a uma participação mais plena na vida da Igreja. Este material seria conservado e desenvolvido ainda mais nas redações posteriores do documento.
O projeto da Constituição foi substancialmente reelaborado entre a primeira e a segunda sessão do Concílio. Compreendia agora quatro capítulos. O primeiro intitulava-se «O mistério da Igreja» e incorporava uma visão muito mais bíblica e trinitária da Igreja do que o esquema preparatório. O segundo capítulo era sobre a hierarquia, e o terceiro intitulava-se «O Povo de Deus e os Leigos em particular». O último capítulo era sobre o chamamento universal à santidade. Uma mudança ulterior deste novo esquema seria proposta durante a sessão intermédia. O cardeal Leo Suenens, da Bélgica, sugeriu que o terceiro capítulo — «O Povo de Deus e os Leigos» — fosse dividido e que o material sobre o Povo de Deus passasse a formar um capítulo separado, imediatamente a seguir ao capítulo de abertura e antes do capítulo sobre a hierarquia. Esse novo capítulo ofereceria uma das descrições da Igreja mais profundas, feitas pelo Concílio:
Este povo messiânico tem por cabeça Cristo, «o qual foi entregue pelos nossos pecados e ressuscitado para nossa justificação» (Romanos 4, 25) e, tendo agora alcançado um nome superior a todo o nome, reina glorioso nos Céus. É condição deste povo a dignidade e a liberdade dos filhos de Deus, em cujos corações o Espírito Santo habita como num templo. A sua lei é o novo mandamento, o de amar como o próprio Cristo nos amou (cf. João 13, 34). Por último, tem por fim o Reino de Deus, o qual, começado na terra pelo próprio Deus, se deve desenvolver até ser também por Ele consumado no fim dos séculos, quando Cristo, nossa vida, aparecer (cf. Colossenses 3, 4) e «a própria criação for libertada do domínio da corrupção, para a gloriosa liberdade dos filhos de Deus» (Romanos 8, 21). Por isso é que este povo messiânico, ainda que não abranja de facto todos os homens, e não poucas vezes apareça como um pequeno rebanho, é, contudo, para todo o género humano, o mais firme germe de unidade, de esperança e de salvação. Estabelecido por Cristo como comunhão de vida, de caridade e de verdade, é também por Ele assumido como instrumento de redenção universal e enviado a todo o mundo como luz do mundo e sal da terra (LG 9).
Talvez não haja nenhuma passagem nos documentos conciliares que resuma de forma tão poética os temas característicos empregues pelo Concílio nas suas reflexões sobre a Igreja. Nesta bela passagem, encontramos a determinação do Concílio em recuperar uma linguagem mais bíblica para refletir sobre a Igreja. Aqui, também vemos o rico fundamento cristológico e a nova apreciação do papel do Espírito Santo. Este texto apresenta a Igreja como povo enviado ao mundo em missão para servir o Reino vindouro de Deus. Por fim, este texto reflete a orientação mais escatológica do Concílio, ao pôr em destaque uma Igreja que olha para o futuro com humildade e esperança.
O que foi dito acima diz respeito a todo o Povo de Deus. Este capítulo apresenta a fé, o Batismo e o discipulado como realidades fundacionais na Igreja. A sua colocação antes do capítulo sobre a hierarquia sugeria uma recuperação das convicções da Igreja primitiva de que o ministério da hierarquia deve ser visto no contexto da dignidade comum de todos os batizados.
É neste capítulo sobre o Povo de Deus que encontramos o texto-chave que nos ocupa, uma passagem que explora tanto o sacerdócio ministerial como o sacerdócio de todos os crentes. Todos os cristãos, em virtude do seu Batismo, participam do sacerdócio de Cristo, e todos eles são chamados a entregar toda a sua vida a «um sacrifício vivo, santo e agradável a Deus» (LG 10). Este sacerdócio comum, como ensina o Concílio, diverge «essencialmente e não só em grau» do sacerdócio ministerial, embora ambos partilhem igualmente do sacerdócio único de Cristo. Esta recuperação conciliar da antiga teologia do sacerdócio dos batizados é tanto mais notável porquanto, durante séculos, fora um tema que se identificara fortemente com a teologia de Lutero e de outros reformadores.
Esta passagem é muitas vezes citada, mas menos frequentemente entendida. Por exemplo, há uma tendência para equacionar «o sacerdócio comum dos crentes» como um sacerdócio dos leigos. Tal leitura assume que o Concílio estava a colocar dois grupos diferentes de sacerdotes dentro da Igreja, um dos leigos e outro do clero. Trata-se de uma leitura perigosamente errada do magistério conciliar. Com efeito, o Concílio estava a descrever duas realidades sacerdotais interligadas. O sacerdócio de todos os fiéis era sinónimo do discipulado cristão; todos os cristãos, tanto leigos como clérigos, participam deste sacerdócio comum em virtude do seu Batismo. Todos eles são chamados a fazer da sua vida «um sacrifício vivo, santo e agradável a Deus».
O sacerdócio ministerial foi colocado então em relação com o sacerdócio dos fiéis. Isso sugere que a identidade sacerdotal não pode ser descoberta por contraposição e separação; só pode ser descoberta fazendo a pergunta mais básica: Que significa viver o sacerdócio comum dos fiéis? Quais são as exigências do autêntico discipulado cristão? Só quando tivermos uma noção das respostas a estas perguntas poderemos analisar de que modo o sacerdócio ministerial deve ser entendido.

* Ação Católica: Movimento de renovação espiritual que começou em Itália e se dedicou ao fomento da participação dos leigos na missão da Igreja mediante a sua atividade apostólica no mundo. Em 1930, o papa Pio XI aprovou formalmente a Ação Católica como movimento abrangente dos leigos. Em 1938, atingiu os 500 000 membros, em toda a Europa.

© Richard R. Gaillardetz - Catherine E. Clifford
© Paulinas Editora, 2012
A utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização da editora

Catherine E. Clifford e Richard R. Gaillardetz, As «chaves» do Concílio, Paulinas Editora, Prior Velho, 2012 (material protegido por leis de direitos autorais)


  • Sacerdócio batismal e ministerial [1]  [2]  [3]  [4]


Reflexões sobre a Igreja no Laboratório da fé


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 19.8.13 | Sem comentários
0 comentários:
Enviar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...
  • Recentes
  • Arquivo
  • Comentários