Nihil Obstat — blogue de Martín Gelabert Ballester

As pinturas que representam a Assunção de Maria, juntamente com procissões, novenas, canções e outras manifestações populares, são os restos de um ritual que conheceu, na época do Barroco, o seu máximo esplendor. A imagem de Maria jacente, velada pelos anjos e pelos apóstolos, recorda a tradição declarada dogma de fé pela Igreja, que diz que a mulher que deu à luz Jesus Cristo subiu ao céu em corpo e alma, depois da sua morte, imitando assim o episódio da morte e ressurreição do seu Filho.
No mistério da sua Assunção, Maria pode ser considerada ícone e modelo da vida cristã. De facto, neste mistério contemplamos a realização do que todo o cristão espera encontrar ao terminar a sua peregrinação neste mundo. Maria está na glória celeste em «corpo e alma», segundo a antropologia com a qual se expressa a fé. Este é um bom modo de estar no céu: «em corpo e alma». Dito de outra maneira: a salvação, esse projeto de felicidade estável e completa que todos os cristãos aguardamos, integra todas as dimensões do humano. Primeiro as individuais: a salvação atinge a totalidade da pessoa, corpo e alma, coração e consciência, inteligência e vontade.
A salvação integra também as dimensões sociais da pessoa. Sem os outros, não estaríamos completos. Aí é onde o corpo ganha toda a importância. Na verdade, a corporeidade possibilita a relação com os outros e com o mundo. Este aspeto relacional, essencial à pessoa, será realizado no céu de forma nova, de acordo com a nossa situação de pessoas que alcançaram a meta e vivem para sempre com Deus. A nossa corporeidade estará totalmente modulada pelo Espírito Santo. Já não será possível a dissimulação ou o engano (nesta vida, o nosso rosto pode aparentar ou mentir). Tudo será limpo e transparente em nós.
Precisamente, porque a dimensão relacional é essencial à nossa vida, celebrar a festa da Assunção é um convite a nos relacionarmos como Maria, visitando aqueles que precisam (como ela fez com Isabel), cuidando da família (como ela fez com José e Jesus) e solidarizando-nos com os crucificados da terra. Assim, ao chegar à meta voltaremos a encontrar todos os bens do nosso esforço. Esses bens transfigurados integrar-se-ão na vida salva. Seria uma pena que não tivéssemos bens para integrar!

© Martín Gelabert Ballester, OP

© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013
A utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização do autor



Nihil obstat - www.laboratoriodafe.net
Martín Gelabert Ballester, frade dominicano, nasceu em Manacor (Ilhas Baleares) e reside em Valencia (Espanha). É autor do blogue «Nihil Obstat» (em espanhol), que trata de questões religiosas, teológicas e eclesiais. Pretende ser um espaço de reflexão e diálogo. O autor dedica o seu tempo à pregação e ao ensino da teologia, especialmente antropologia teológica e teologia fundamental. 
Outros artigos publicados no Laboratório da fé


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 15.8.13 | Sem comentários
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