PREPARAR O DOMINGO: décimo nono domingo

11 DE AGOSTO DE 2013


Há no evangelho do décimo nono domingo um convite à vigilância dirigido a todos: «Tende os rins cingidos e as lâmpadas acesas. [...] Felizes esses servos, que o senhor, ao chegar, encontrar vigilantes. [...] Estai vós também preparados, porque na hora em que não pensais virá o Filho do homem».
Estas frases do evangelho não pretendem intimidar-nos para vivermos obcecados com a chegada imprevista da morte.
Houve um tempo em que a pregação da Igreja abusou deste tema... Hoje, pela velha lei do pêndulo, quase eliminamos o tema das nossas reflexões e pregações...
E, hoje, vive-se absolutamente despreocupado em relação a esta realidade. Só quando a morte nos toca na pessoa de um familiar ou de ser mais próximo, é que se produz em nós um choque que desmonta os nossos esquemas e nos faz sentir a fragilidade e a debilidade do ser humano... Ou simplesmente quanto a doença nos visita, faz-nos sentir a fragilidade desta vida e de tudo o que a envolve...
Entre a constante obsessão pela morte e a despreocupação total está o caminho intermédio que nos aponta o evangelho...
Um dia morrerei. Pensemos que isso é bom. Isto me há de levar a refletir sobre a forma como estou a a viver. Como seria o projeto da minha vida no momento da morte? Como gostaria de viver o dia da minha morte? Igual ao que estou a viver?...
Quantas lutas, aspirações, desejos... parecem vãos nesse momento? Quantas das nossas divisões, ódios, rancores e razões... parecem absurdos e infantis nesse momento? Trata-se, pois, de mudar de valores ou de dar a volta aos binóculos... Porque em toda a vida humana há um momento em que damos a volta aos binóculos... Esta volta acontece quando vivemos uma grande dor ou quando se descobre um grande amor... Os valores invertem-se...
Uma rapariga contava, numa revista, como tinha dado a volta aos binóculos: o seu pai estava seriamente doente e tudo mudou de cor: «Quantas coisas — dizia — pelas quais antes lutava e me angustiava se tornaram fúteis e desnecessárias! Que tontos me parecem alguns desejos sem os quais pensava que seria impossível viver! Como se torna tudo de repente secundário e já só conta a luta pela vida e a felicidade dos seres que amas!».
É verdade: a grande doença dos seres humanos é essa miopia quotidiana que nos conduz ao engano sobre os valores.
Eu pergunto-me muitas vezes sobre o que pediria a Deus se um dia me concedesse um milagre. Acho que suplicaria a capacidade de ver as coisas como Deus as vê, desde a distância de quem entende tudo, de quem conhece o futuro e a autêntica dimensão das coisas. Se tivesse esse dom, como seria diferente a minha vida! Quanto mais amaria e quanto menos lugar teria dado às aparências! Pouco me importariam os êxitos e daria muito mais importância às amizades!
Dizia a rapariga: «Agora, 'ganho' as minhas tardes a fazer palavras-cruzadas com o meu pai. Sou feliz ao vê-lo sorrir. A seu lado, não tenho pressas. Cada minuto na sua companhia torna-se sagrado. E quando, à noite, regresso a casa «sem ter feio nada» (sem ter feito nada mais do que amar) sinto-me cheia e feliz, muito mais do que se tivesse ganho uma guerra, construído uma casa ou acumulado um montão de dinheiro. Falo com ele. Falamos de nada. Vivemos. Estamos juntos. Amo-o. Vejo-o feliz por estar a seu lado. Não há prémio maior neste mundo. Sei que um dia me irei arrepender de milhões de coisas da minha vida. Mas nunca me arrependerei destas horas 'perdidas a fazer palavras-cruzadas ao seu lado'».
Esta rapariga tem razão. Deu a volta aos binóculos. Virou os binóculos e de repente o cristal de aumento do seu coração fez-lhe descobrir o que a maioria dos seres humanos nem sequer chega a vislumbrar. E tudo o resto se tornou pequenito e distante: secundário.
A vida dos seres humanos, o sorriso das pessoas, a alegria de uma criança ou de um idoso, são muito mais importantes aos olhos de Deus... do que todas as ações do mundo... Trata-se, portanto, de, à luz do Evangelho, transformarmos a nossa escala de valores para a conformar um pouco mais de acordo com ele...

© Juan Jauregui Castelo

© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013



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Preparar o décimo nono domingo, ano C, no Laboratório da fé
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 9.8.13 | Sem comentários
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