Jornada Mundial da Juventude


No dia 27 de julho de 2013, o papa Francisco presidiu à celebração da Eucaristia, na catedral de São Sebastião, em Copacabana (Rio de Janeiro, Brasil), com os bispos, presbíteros, diáconos, religiosos e seminaristas. Na homilia, o Papa refletiu sobre três aspectos da vocação: chamados por Deus; chamados para anunciar o Evangelho; chamados a promover a cultura do encontro. E desafiou os presentes a ter a mesma coragem de Paulo e Barnabé, para anunciar o Evangelho aos jovens.
Em primeiro lugar, recordou que no início da vocação está um convite de Deus, uma eleição divina. Por isso, é o «viver em Cristo» que configura a vocação. Não é a criatividade pastoral, não são as reuniões ou planeamentos que garantem os frutos, mas ser fiel a Jesus. 
Depois, recordou que o chamamento divino tem uma missão: anunciar o Evangelho. Ajudemos os jovens a perceberem que ser discípulo missionário é uma consequência de ser batizado, é parte essencial do ser cristão, e que o primeiro lugar onde evangelizar é a própria casa, o ambiente de estudo ou de trabalho, a família e os amigos. Neste ponto, reforçou a importância da escuta e a coragem de sair para ir ao encontro das periferias. Não podemos ficar encerrados na paróquia, nas nossas comunidades, quando há tanta gente à espera do Evangelho! Não se trata simplesmente de abrir a porta para acolher, mas de sair pela porta fora para procurar e encontrar. 
Em terceiro lugar, desafiou os presentes a promover a cultura do encontro. Isto para lutar contra a corrente da cultura da eficácia, da exclusão e do descartável. Às vezes parece que, para alguns, as relações humanas são regidas por dois «dogmas» modernos: eficiência e pragmatismo. Temos de ser servidores da comunhão e da cultura do encontro. 

Amados Irmãos em Cristo,
Vendo esta catedral lotada com Bispos, sacerdotes, seminaristas, religiosos e religiosas vindos do mundo inteiro, penso nas palavras do Salmo da Missa de hoje: «Que as nações vos glorifiquem, ó Senhor» (Salmo 66). Sim, estamos aqui reunidos para glorificar o Senhor; e o fazemos reafirmando a nossa vontade de sermos seus instrumentos, para que não somente algumas nações mas todas glorifiquem o Senhor. Com a mesma parresia – coragem, ousadia – de Paulo e Barnabé, anunciemos o Evangelho aos nossos jovens para que encontrem Cristo, luz para o caminho, e se tornem construtores de um mundo mais fraterno. Neste sentido, queria refletir convosco sobre três aspectos da nossa vocação: chamados por Deus; chamados para anunciar o Evangelho; chamados a promover a cultura do encontro.

Chamados por Deus
É importante reavivar em nós esta realidade que, frequentemente, damos por descontada em meio a tantas atividades do dia-a-dia: «Não fostes vós que me escolhestes, mas eu que vos escolhi», diz-nos Jesus (João 15, 16). Significa retornar à fonte do nosso chamamento. No início de nosso caminho vocacional, há uma eleição divina. Fomos chamados por Deus, e chamados para permanecer com Jesus (cf. Marcos 3, 14), unidos a Ele de um modo tão profundo que nos permite dizer com São Paulo: «Eu vivo, mas não eu, é Cristo que vive em mim» (Gálatas 2, 20). Este viver em Cristo configura realmente tudo aquilo que somos e fazemos. E esta «vida em Cristo» é justamente o que garante a nossa eficácia apostólica, a fecundidade do nosso serviço: «Eu vos designei para irdes e para que produzais fruto e o vosso fruto permaneça» (João 15, 16). Não é a criatividade pastoral, não são as reuniões ou planeamentos que garantem os frutos, mas ser fiel a Jesus, que nos diz com insistência: «Permanecei em mim, e eu permanecerei em vós» (João 15, 4). E nós sabemos bem o que isso significa: Contemplá-lo, adorá-lo e abraçá-lo, particularmente através da nossa fidelidade à vida de oração, do nosso encontro diário com Ele presente na Eucaristia e nas pessoas mais necessitadas. O «permanecer» com Cristo não é se isolar, mas é um permanecer para ir ao encontro dos outros. Vem-me à cabeça umas palavras da Bem-aventurada Madre Teresa de Calcutá: «Devemos estar muito orgulhosas da nossa vocação, que nos dá a oportunidade de servir Cristo nos pobres. É nas favelas, nos 'cantegriles' nas Villas miseria, que nós devemos ir procurar e servir a Cristo. Devemos ir até eles como o sacerdote se aproxima do altar, cheio de alegria» (Mother Instructions, I, 80). Jesus, Bom Pastor, é o nosso verdadeiro tesouro; procuremos fixar sempre mais n’Ele o nosso coração (cf. Lc 12, 34).

Chamados para anunciar o Evangelho
Queridos bispos e sacerdotes, muitos de vós, senão todos, vieram acompanhar os seus jovens à Jornada Mundial da Juventude. Eles também ouviram as palavras do mandato de Jesus: «Ide e fazei discípulos entre todas as nações» (cf. Mateus 28, 19). É nosso compromisso ajudá-los a fazer arder, no seu coração, o desejo de serem discípulos missionários de Jesus. Certamente muitos, diante desse convite, poderiam sentir-se um pouco atemorizados, imaginando que ser missionário significa deixar necessariamente o País, a família e os amigos. Deus quer que sejamos missionários. Onde estamos? Onde Ele nos coloca: na nossa Pátria ou onde Ele nos colocar. Ajudemos os jovens a perceberem que ser discípulo missionário é uma consequência de ser batizado, é parte essencial do ser cristão, e que o primeiro lugar onde evangelizar é a própria casa, o ambiente de estudo ou de trabalho, a família e os amigos. Ajudemos os jovens. Escutemos os seus sonhos. Eles precisam de ser escutados. Para escutar as suas deceções, as suas dificuldades, é preciso estar sentados, para escutar talvez o mesmo libreto, mas com múscia diferente, com identidades diferentes. A paciência de escutar! Peço-vos de todo o coração. No confessionário, na direção espiritual, no acompanhamento. Saibamos perder tempo com eles. Semear custa e cansa, cansa muitíssimo! Mas é muito mais gratificante gozar a colheita... Todos gozamos mais com a colheita! Mas Jesus pede-nos para semearmos a sério. Não poupemos esforços na formação dos jovens. São Paulo usa uma bela expressão, que se tornou realidade na sua vida, dirigindo-se aos seus cristãos: «Meus filhos, por vós sinto de novo as dores do parto até Cristo ser formado em vós» (Gálatas 4, 19). Também nós façamos que isso se torne realidade no nosso ministério! Ajudemos os nossos jovens a descobrir a coragem e a alegria da fé, a alegria de ser pessoalmente amados por Deus. Isto é muito difícil, mas quando um jovem o entende, quando um jovem sente-o com a unção que lhe dá o Espírito Santo, este ser amado pessoalmente por Deus acompanha-o durante toda a vida. A alegria que teve o seu Filho Jesus pela nossa salvação. Eduquemo-los para a missão, para sair, para partir, portadores da fé pelas ruas. Jesus fez assim com os seus discípulos: não os manteve colados a si, como uma galinha com os seus pintainhos; enviou-os! Não podemos ficar encerrados na paróquia, nas nossas comunidades, quando há tanta gente à espera do Evangelho! Não se trata simplesmente de abrir a porta para acolher, mas de sair pela porta fora para procurar e encontrar. Empurremos os jovens para saírem. Porventura, vão fazer asneiras. Não tenhamos medo! Os apóstolos fizeram-nas antes de nós. Empurremo-los para sair! Decididamente pensemos a pastoral a partir da periferia, daqueles que estão mais afastados, daqueles que habitualmente não frequentam a paróquia. Eles são os convidados VIP. Ide buscá-los às encruzilhadas dos caminhos.

Chamados a promover a cultura do encontro
Ser chamados por Jesus, chamados para evangelizar e, terceiro, chamados a promover a cultura do encontro. Em muitos ambientes, em geral neste humanismo economicista que se instalou no mundo, abriu-se espaço para a cultura da exclusão, a «cultura do descartável». Não há lugar para o idoso, nem para o filho não desejado; não há tempo para se deter com o pobre caído à margem da estrada. Às vezes parece que, para alguns, as relações humanas são regidas por dois «dogmas» modernos: eficiência e pragmatismo. Queridos Bispos, sacerdotes, religiosos e também vós, seminaristas, que vos preparais para o ministério, tende a coragem de ir contra a corrente. Tende coragem! Lembrem-se, a mim faz-me muito bem, medito-o com frequência. Tomem o Primeiro Livro dos Macabeus. Lembrem-se quando quiserem assumir a cultura da época. «Não! Não deixemos! Comamos de tudo como toda a gente... Bom, a Lei sim, mas que não seja tanto...». E foram deixando a fé para estar inseridos na corrente dessa cultura. Tende coragem para ir contra a corrente desta cultura do eficientismo, desta cultura do descartável. O encontro e o acolhimento de todos, a solidariedade, uma palavra que está a ser escondida por esta cultura, quase uma palavra feia, a solidariedade e a fraternidade são os elementos que tornam a nossa civilização verdadeiramente humana.
Temos de ser servidores da comunhão e da cultura do encontro. Deveríamos ser quase obsessivos neste aspecto! Não queremos ser presunçosos, impondo a «nossa verdade», mas guiados pela certeza humilde e feliz de quem foi encontrado, alcançado e transformado pela Verdade que é Cristo, e não pode deixar de anunciá-la (cf. Lucas 24, 13-35).
Queridos irmãos e irmãs, fomos chamados por Deus, com nome e apelido, cada um de nós, chamados para anunciar o Evangelho e a promover com alegria a cultura do encontro. A Virgem Maria seja o nosso modelo. Na sua vida, Ela deu «exemplo daquele amor de mãe que deve animar todos os que colaboram na missão apostólica da Igreja para gerar os seres humanos para uma vida nova» («Lumen Gentium», 65).
Pedimos-lhe que nos ensine a nos encontrarmos diariamente com Jesus. E, quando estivermos distraídos, porque temos muitas coisas, e o sacrário fica abandonado, que nos conduza pela mão. Peçamos-lhe. Olha, Mãe, quando andar meio assim, por outro lado, conduz-me pela mão. Que nos empurre a sair ao encontro de tantos irmãos e irmãs que estão na periferia, que têm sede de Deus e não há quem o anuncie. Que não nos tire a casa, mas que nos empurre a sair de casa. Assim, sejamos discípulos do Senhor. Que Ela nos conceda a todos esta graça.

Rio de Janeiro, 27 de julho de 2013
© Copyright - Libreria Editrice Vaticana

Chamados por Deus para anunciar o Evangelho e a promover a cultura do encontro
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 9.8.13 | Sem comentários
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