Carta encíclica sobre a fé [13]


A história de Israel mostra-nos ainda a tentação da incredulidade, em que o povo caiu várias vezes. Aparece aqui o contrário da fé: a idolatria. Enquanto Moisés fala com Deus no Sinai, o povo não suporta o mistério do rosto divino escondido, não suporta o tempo de espera. Por sua natureza, a fé pede para se renunciar à posse imediata que a visão parece oferecer; é um convite para se abrir à fonte da luz, respeitando o mistério próprio de um Rosto que pretende revelar-se de forma pessoal e no momento oportuno. Martin Buber citava esta definição da idolatria, dada pelo rabino de Kock: há idolatria, «quando um rosto se dirige reverente a um rosto que não é rosto» [10]Em vez da fé em Deus, prefere-se adorar o ídolo, cujo rosto se pode fixar e cuja origem é conhecida, porque foi feito por nós. Diante do ídolo, não se corre o risco de uma possível chamada que nos faça sair das próprias seguranças, porque os ídolos «têm boca, mas não falam» (Salmo 115, 5). Compreende-se assim que o ídolo é um pretexto para se colocar a si mesmo no centro da realidade, na adoração da obra das próprias mãos. Perdida a orientação fundamental que dá unidade à sua existência, o ser humano dispersa-se na multiplicidade dos seus desejos; negando-se a esperar o tempo da promessa, desintegra-se nos mil instantes da sua história. Por isso, a idolatria é sempre politeísmo, movimento sem meta de um senhor para outro. A idolatria não oferece um caminho, mas uma multiplicidade de veredas que não conduzem a uma meta certa, antes se configuram como um labirinto. Quem não quer confiar-se a Deus, deve ouvir as vozes dos muitos ídolos que lhe gritam: «Confia-te a mim!». A fé, enquanto ligada à conversão, é o contrário da idolatria: é separação dos ídolos para voltar ao Deus vivo, através de um encontro pessoal. Acreditar significa confiar-se a um amor misericordioso que sempre acolhe e perdoa, que sustenta e guia a existência, que se mostra poderoso na sua capacidade de endireitar os desvios da nossa história. A fé consiste na disponibilidade a deixar-se incessantemente transformar pelo chamamento de Deus. Paradoxalmente, neste voltar-se continuamente para o Senhor, o ser humano encontra uma estrada segura que o liberta do movimento dispersivo a que o sujeitam os ídolos.

[10] Martin Buber, Die Erzählungen der Chassidim (Zurique 1949), 793

A luz da fé [Carta Encíclica sobre a fé - «Lumen Fidei»]
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  • A tentação da incredulidade atravessa a história do povo de Israel
  • A idolatria é o contrário da fé
  • A adoração do ídolo parece ser mais atrativa do que a fé
  • O ídolo é um pretexto para se colocar a si mesmo no centro da vida
  • A idolatria conduz a um labirinto
  • A fé convida ao encontro pessoal com o Deus vivo
  • A fé consiste em deixar-se transformar pelo chamamento divino
  • Quais são as minhas tentações de incredulidade?
  • Porque é que a adoração do ídolo é mais atrativa do que a fé?
  • Quando é que me sinto mais vulnerável às tentações da idolatria?
  • A (minha) fé é um encontro com o Deus vivo?
  • Deixo-me transformar pelo amor misericordioso de Deus?
© Laboratório da fé, 2013

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Papa Francisco, Carta Encíclica sobre a fé (Lumen Fidei — A luz da fé)
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 24.8.13 | Sem comentários
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