Nihil Obstat — blogue de Martín Gelabert Ballester

A fé cristã é uma adesão firme e convicta ao Senhor Jesus. Mas, ao mesmo tempo, é compreensiva com aqueles que não tiveram a sorte e a alegria de conhecer o Senhor. Trata-se, pois, de uma atitude que, por um lado, dá uma grande segurança ao crente e, por outro, mostra-se respeitosa com aqueles que não partilham a convicção crente. Porque se trata de um ato livre que adere a realidades não evidentes.
A fé é livre pela sua própria natureza. Não pode impor-se, porque a imposição destrói a fé. Nisto a fé assemelha-se ao amor. Não há amor à força. Por outro lado, a fé refere-se ao que não se vê. Cristo ressuscitado «já não está aí», não é possível mostrá-lo como se faz com as realidades e pessoas deste mundo. Podemos encontrá-lo, mas sempre através de mediações, de sacramentos. As mediações podem ser interpretadas de muitas maneiras. Para encontrar Cristo ressuscitado nos sacramentos, é preciso um ato de confiança e transcender o sinal sacramental. Nem todos estão dispostos nem capacitados para o fazer. Mesmo quando Jesus estava sobre a terra e anunciava o Reino de Deus, também não era evidente que Deus atuava por meio dele. As pessoas viam um homem, e a sua atuação podia entender-se de muitas maneiras: enquanto uns descobriam nele um profeta enviado por Deus, outros diziam que quem agia por meio dele era, nem mais nem menos, Satanás. A presença de Deus em Jesus nunca é uma evidência. Só a partir da fé e da confiança podemos ir mais além da humanidade de Jesus para alcançar, nessa humanidade, a divindade.
Porque a fé se refere ao não evidente e, portanto, não se pode impor, não significa que não seja segura. O cego que vai bem acompanhado não vê, mas caminha seguro; confia em não tropeçar pelo caminho e em alcançar a meta. Isso é o que acontece ao crente: muitas vezes, avança por caminhos pouco claros, mas reconhece-se guiado pela Palavra de Deus acolhida na fé e, assim, caminha com firmeza «como se visse o invisível» (Hebreus 11, 27).
Precisamente, porque está seguro da sua fé, o crente mostra-se tranquilo quando tem que a expor e defender. Não se irrita perante aqueles que a questionam, seja porque não a conhecem, seja porque a desprezam. Nenhuma pessoa sensata se irrita perante alguém que nega que dois e dois são quatro. A segurança de uma convicção não depende da intransigência com que se defende. Em suma, a firmeza, a segurança, a força, a convicção da fé, não se manifesta à base de atitudes intransigentes ou intolerantes. Precisamente, estas atitudes apenas manifestam debilidade e medo. A força da fé torna-a livre, compreensiva, acolhedora, porque o seu clima natural é o amor.

© Martín Gelabert Ballester, OP

© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013
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Nihil obstat - www.laboratoriodafe.net
Martín Gelabert Ballester, frade dominicano, nasceu em Manacor (Ilhas Baleares) e reside em Valencia (Espanha). É autor do blogue «Nihil Obstat» (em espanhol), que trata de questões religiosas, teológicas e eclesiais. Pretende ser um espaço de reflexão e diálogo. O autor dedica o seu tempo à pregação e ao ensino da teologia, especialmente antropologia teológica e teologia fundamental. 
Outros artigos publicados no Laboratório da fé


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 27.8.13 | Sem comentários
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