Nihil Obstat — blogue de Martín Gelabert Ballester

Segundo conta o livro dos Atos dos Apóstolos, a primeira comunidade cristã gozava da simpatia de todo o povo. O que é que faziam para serem vistos com tão bons olhos? Entre outras coisas, a alegria com que viviam. Esta alegria manifestava-se, fundamentalmente, no momento em que partilhavam o pão: o que alimenta a vida temporal e o que alimenta a vida espiritual. Na primeira comunidade cristã, todos os crentes estavam de acordo e partilhavam o que tinham, de modo que ninguém passava necessidade. Este partilhar tinha dois momentos muito significativos: a celebração da Eucaristia e a refeição em comum. Partilhavam o pão do corpo e o pão do espírito. A vida estava organizava à volta da mesa. Na mesa, realiza-se a união dos crentes com Cristo, pela Eucaristia, e a união dos irmãos entre si, pelo pão partido, repartido e partilhado. Numa mesa assim, antecipa-se a alegria do Reino dos Céus.
A mesa partilhada é um dos temas recorrentes das parábolas de Jesus. O Reino dos Céus é comparado a um banquete, a uma mesa onde há comida boa e abundante para todos, onde todos se sentem alegres e solidários, onde o riso se contagia, onde ninguém se sente só. Estas parábolas não remetiam para um mundo futuro, mas para o mundo presente, para outra maneira de organizar este mundo. Se o Reino dos Céus se parece com um banquete, onde há lugar para todos, só quando organizarmos banquetes assim neste mundo é que compreenderemos o que é o Reino. Mais ainda, antecipamo-lo. Se não organizarmos refeições deste tipo, não entenderemos nada do Reino, não anteciparemos nada, nem teremos futuro algum.
A este respeito há uma palavra dita por um dos presentes numa das refeições onde Jesus estava. Dirigindo-se ao que o tinha convidado, Jesus disse-lhe: «Quando ofereceres um banquete, convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos; e serás feliz por eles não terem com que retribuir-te: ser-te-á retribuído na ressurreição dos justos». Ao ouvir isto um dos comensais disse-lhe: «Feliz o que comer no banquete do Reino de Deus!» (cf. Lucas 14, 14-15). Sugestiva reação! Se isto pode acontecer neste mundo, se neste mundo pode haver mesas assim, nas quais se sentam os pobres, desamparados e necessitados, uma mesa repleta de manjares para os desgraçados da terra, como será a mesa do Reino dos Céus! Pois bem, se não podermos realizar aqui mesas assim, não teremos nenhum elemento para comparar o Reino e, portanto, não teremos modo de o fazer compreender nem desejar.

© Martín Gelabert Ballester, OP

© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013
A utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização do autor



Nihil obstat - www.laboratoriodafe.net
Martín Gelabert Ballester, frade dominicano, nasceu em Manacor (Ilhas Baleares) e reside em Valencia (Espanha). É autor do blogue «Nihil Obstat» (em espanhol), que trata de questões religiosas, teológicas e eclesiais. Pretende ser um espaço de reflexão e diálogo. O autor dedica o seu tempo à pregação e ao ensino da teologia, especialmente antropologia teológica e teologia fundamental. 
Outros artigos publicados no Laboratório da fé


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 30.8.13 | Sem comentários
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