PREPARAR O DOMINGO: décimo sétimo domingo

28 DE JULHO DE 2013

Leonardo Boff, «O Pai-nosso. A oração da libertação integral», Vozes, 1991, 101-103


Dai-nos hoje: o trabalho e a Providência
A Escritura está cheia de passagens que expressam a convicção de que é Deus quem dá o pão ou dá de comer. Todo o alimento é dádiva divina. Ao ser humano cabe agradecer. A primeira das orações à mesa dos judeus piedosos começa assim: «Bendito sois Vós, Senhor nosso Deus, Rei do universo, que alimentais todo mundo por Vossa bondade. Por graça, amor e misericórdia dá Ele o pão a toda criatura, pois sua graça permanece para sempre». Somente um pagão ou um ateu não sabe a quem agradecer pelo alimento quotidiano. Neste contexto devemos entender a petição: dai-nos hoje o pão nosso de cada dia.
Mas o que significa concretamente pedir a Deus o pão necessário? Não é o trabalho humano que traz o pão à mesa? Jesus sabe da importância do trabalho. Paulo recorda-nos muito realisticamente: «Se alguém não quiser trabalhar, também não coma» (2Tessalonicenses 2, 10). Mas o trabalho humano não é tudo no pão. Dependemos de tantas condições prévias, face às quais— eada ser humano se sente impotente e se vê remetido à Providência divina. É Ele que nos dá as estações favoráveis de tempo e de chuva; é Ele que garante as forças com as quais podemos trabalhar; é Ele que misteriosamente faz crescer a semente; é Ele o Senhor da criação, criação que nós modificamos com nosso trabalho mas que não geramos. Em cada pedaço de pão há mais presença da mão de Deus do que da mão do humano. Por isso o fiel tem sua razão em pedir o pão ao Pai do céu.
Além disso, o pedido pelo pão possui em nossos dias um sentido concretíssimo. Há milhões que vasculham o lixo em busca do mínimo necessário. Milhares morrem de fome cada ano por falta do pão suficiente. O espectro da subnutrição e da fome ameaça mais e mais a humanidade inteira. Para estes milhões de esfomeados a súplica pelo pão possui um sentido direto e imediato. Eles recordam aos saciados a súplica do próprio Deus: «Reparte com os famintos o teu pão» (cf. Isaías 58, 7). Como contundentemente apostrofava S. Basílio Magno (379) : «Ao faminto pertence o pão que se estraga em tua casa. Ao descalço pertence o sapato que cria bolor debaixo de tua cama. Ao nu pertencem as vestes que ficam em teus baús. Ao miserável pertence o dinheiro que desvaloriza em teus cofres»!
Na versão de S. Mateus se pede-se o pão para hoje; na de S. Lucas para cada dia. Ambos os sentidos são verdadeiros. A primeira versão (hoje) atende ao sentido imediato da súplica: pede-se o pão necessário para agora, para hoje. A segunda, implica um propósito do discípulo: de pedir dia após dia e cada dia o pão necessário e assim confiar-se à Providência divina.

A santidade do pão
Está presente na memória dos povos o facto de que diante do pão estamos face a uma realidade santa. O pão é tratado com respeito e veneração. Não se joga fora o pão; somente sociedades dessacralizadas o fazem porque perderam a referência básica para com o Santo e o Sublime do homem e do mundo. O pão é santo porque está associado ao mistério da vida que é sacrossanta. Para o homem bíblico o pão é um dos sinais primordiais da graça e do amor com que Deus nos sustenta e nos cerca. Por ele Deus exorciza os demónios da fome e da morte. Para o homem de fé cristã o pão é ainda mais santo porque simboliza a reconciliação terminal de todos os justos no banquete com Deus no Reino futuro. Ele é também o símbolo real de Jesus, pão da vida, que salvou a vida para sempre. O pão quotidiano é santo por um título ainda: é a matéria que, transubstanciada, constitui o sacramento da Eucaristia, o pão dos peregrinos com o qual se alimenta a vida para que ela seja ressuscitada e feliz eternamente.

  • O pão nosso de cada dia nos dai hoje [1] > > >



  • Reflexão diária a partir do evangelho > > >
  • O «Pai nosso» no evangelho segundo Lucas > > >
  • É de vida partilhada que as nossas vidas se alimentam > > >
  • O Pai do Céu dará o Espírito Santo àqueles que Lho pedem > > >
  • Lucas 11, 1-13 — notas exegéticas > > >



Preparar o décimo sétimo domingo, ano C, no Laboratório da fé
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 26.7.13 | Sem comentários
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