PREPARAR O DOMINGO: décimo sétimo domingo

28 DE JULHO DE 2013

Leonardo Boff, «O Pai-nosso. A oração da libertação integral», Vozes, 1991, 91-95


Com esta petição produz-se uma viragem na oração do Senhor. Na primeira parte o olhar dirigia-se ao céu: à rea­lidade divina de Deus como Pai, transcendente (nos céus) e ao mesmo tempo próximo (nosso) que deve ser sempre santificado, ao Reino que deve vir e se historizar entre os homens, realizando assim a vontade última de Deus; o tom era solene e as frases cadenciadas. Agora na segunda parte o olhar volta-se para a terra e para o homem nas suas necessidades: o pão necessário à vida, o perdão às quebras da fraternidade, a força contra a tentação e a libertação do mal; as frases são longas e o tom traduz a aflição em que se encontra a vida humana. Na primeira parte trata-se da causa de Deus; na segunda da causa do homem. Ambas são objeto de oração. Nesta segunda parte não notamos nenhuma mistificação ou espiritualização: é a vida humana na sua concretização histórica, infra-estrutural, biológica, social e sem­pre ameaçada. Ela não preocupa somente o homem; interessa também a Deus. Por isso é feita material de oração e de súplica. Não há, portanto, concorrência nenhuma entre o ver­tical de Deus e b horizontal do homem. Ambos se encontram sob o arco-íris da oração. A união inconfundível do material com o espiritual, do humano com o divino constitui a força do mistério da Encarnação. No Reino de Deus se encontram abraçados matéria e espírito, homem e cosmos, criação e Criador. Não nos admira, pois, se na oração do Senhor uma e outra coisa venham unidas; ao lado do mais sublime de­paramos com o mais banal. O que é quotidiano, evidente e banal como o pão tem o seu direito tanto diante de Deus quanto diante do homem. 0 pai-nosso reafirma vigorosa­mente esta verdade contra todos os espiritualismos.

O pão: a dimensão divina da matéria
A petição começa com a palavra pão. Precisamos ouvir a palavra nua e crua antes de ouvirmos as qualificações que a acompanham (nosso, de cada dia). A palavra pão possui um conteúdo de significação dos mais profundos; aí se re­sume parte importante da antropologia, vale dizer, da dou­trina sobre a realidade humana. Pão exprime mais do que o conglomerado físico-químico. Ele é símbolo do alimento huma­no, «do alimento necessário e suficiente», como se diz nas Escrituras (Provérbios 30, 8) ou do alimento simplesmente (Salmo 146, 7; Levítico 26, 5; Eclesiástico 9, 7; Eclesiastes  31, 27; Provérbios 6, 8). O pão é «pão da vida» (João 6, 35). A vida humana está indissociavelmente li­gada a uma infra-estrutura material. Por mais altos que forem os voos do espírito, por mais profundos os mergulhos da mística, por mais metafísicos os pensamentos abstratos, o ser humano depende sempre de um pouco de pão, de um copo de água, enfim de uma pequena porção de matéria. A infra-estrutura material é tão importante que ela se encon­tra, em última instância, na raiz e na base de tudo o que se pensar, projetar ou fizer. É como o fundamento de um edifício: a ele estão referidos, em última instância, tanto os andares todos, quanto cada objeto que se encontrar nas salas, as pessoas que moram nele. Ele é a condição de possi­bilidade de que tudo exista e persista. Assim é com o ali­mento humano simbolizado no pão: a vida depende dele, de sua materialidade opaca, de sua substância material. A vida é mais do que o pão, mas em nenhum momento pode dis­pensar o pão. Em termos teológicos a infra-estrutura humana é tão importante que Deus associou a salvação e a perdição ao atendimento justo e fraterno que fizermos dela ou não. Assim seremos julgados definitivamente pelo Juiz Supremo pelos critérios da infra-estrutura: se tivermos ou não aten­dido o faminto, o nu, o sedento e o encarcerado. No pão, na água, nas vestes, na solidariedade joga-se, finalmente, o destino eterno do ser humano (cf. Mateus 25, 31-46).
O estômago possui, portanto, o seu direito assegurado face à importância do coração e da cabeça. Nenhuma oração, nenhum ato espiritual dispensa o pão e o trabalho, muitas vezes oneroso, de ganhá-lo e de trazê-lo para a mesa dos famintos. Também nenhuma pia palavra matou a fome de um esfomeado. Deus quis que ganhássemos o pão com o trabalho que implica tempo, suor, lágrimas e um certo distanciamento de Deus, porque nos ocupamos com a terra e não com o céu. Deus quis que não houvesse apenas a Sua causa, o Seu Reino, a Sua vontade, o Seu nome, mas também a causa do homem, suas necessidades, sua fome, suas urgências de proteção e de salvação. O homem não está aí somente para Deus. Está também para si mesmo. É Deus que o quis assim. Ao rezar ele deve incluir tudo e apresentá-lo ao Pai, a causa de Deus e a causa do homem.
Se observarmos atentamente percebemos que na oração do Senhor verifica-se uma troca. Nas três primeiras petições (santificação do nome, vinda do Reino, realização da vontade divina) é o homem que se ocupa e preocupa com a causa de Deus. Nas quatro outras petições (pão, perdão das ofensas, tentação e libertação do mal) é Deus que se ocupa e preocupa da causa do homem. Estas duas dimensões não devem jamais ser dissociadas, porque o Senhor as uniu em sua oração. Não precisamos nos envergonhar de nossas necessidades; a fome preocupa a Deus; Ele quer atender a súplica do homem e saciar a boca faminta. Destarte a vida, o dom mais precioso que recebemos de Deus, é assegurada. A matéria, pois, é portadora de uma realidade divina; ela é sacramental; isto é tanto mais evidente quanto é certo que para as Escrituras o pão constitui o símbolo histórico do Reino de Deus representado como uma grande ceia; é o sinal temporal do alimento eterno que garantirá a eternidade da vida; o pão carrega a promessa da plenitude da vida; mais ainda, ele é a presencialização já agora, no meio do caminhar dos famintos e dos peregrinos, daquele pão que sacia completamente a fome salvífica do homem, vale dizer, de Jesus e de seu Reino. Tudo isto está presente na pequenina palavra, quotidiana, natural e simples: pão.

Nosso: o pão que traz a felicidade
A necessidade do pão é individual; a sua satisfação, no entanto, não pode ser individual, mas comunitária. Por isso não se reza: o pão meu, mas o pão nosso. Nisso vai um profundo significado presente na pregação de Jesus. É verdade que o Antigo Testamento conhece a satisfação individual: «Come com alegria o teu pão» (Eclesiastes 9, 7); «reparte o teu pão com o faminto» (Isaías 58, 7). Mas com Jesus alcançou-se a plena consciência da fraternidade humana. Temos um Pai que é de todos os homens, por isso é nosso Pai; somos todos filhos e por isso todos irmãos. A mera satisfação pessoal da fome sem tomar em consideração os demais irmãos seria quebra da fraternidade. O homem não quer apenas matar a fome e sobreviver de qualquer maneira. Comer nunca significa um mero nutrir-se; é sempre um ato comunitário e um rito de comunhão. Não come feliz, não se alimenta humanamente quem mata a fome vendo a miséria dos outros e os lázaros sentados ao pé da mesa esperando os restos de nossa abundância. O pão quotidiano produz a parca e necessária felicidade da vida. Toda a felicidade para ser felicidade precisa de se comunicar e ser compartida. Assim é com o pão: é pão humano enquanto é pão repartido e feito laço de comunhão. Então traz felicidade e sacia a fome humana.
O pão que consumimos diariamente esconde toda uma rede de relações anónimas que sempre devem ser recordadas. Antes de chegar à nossa mesa, passou pelo trabalho de muitos braços. Foi semente jogada na terra; houve quem tomou o cuidado de seu crescimento. Muitas mãos colheram os grãos ou muitos dedos manejaram potentes máquinas. Outras tantas mãos amassaram o trigo e confeccionaram o pão. Milhares de postos de distribuição. Em tudo isto vai grandeza e miséria humana. Pode ter havido relações de exploração; há lágrimas escondidas em cada pão que se come tranquilamente; mas há também sentido de fraternidade e de partilha. O pão quotidiano encerra todo o universo humano em sua luz e em sua sombra.
O pão que é produzido junto deve ser repartido junto e consumido junto. Só então podemos, verdadeiramente, pedir o pão nosso de cada dia. Deus não escuta a oração que apenas pede o pão para mim. A relação verdadeira para com Deus depende da relação que mantivermos para com os outros. Deus quer que ao apresentar-Lhe as nossas necessidades incluamos também aquelas de nossos irmãos. Caso contrário estaríamos desligados da fraternidade e viveríamos no egoísmo. A mesma necessidade básica nos iguala a todos; a satisfação coletiva nos confraterniza.
O pão que comermos, fruto da exploração do irmão, não é pão abençoado por Deus. É pão que apenas nutre mas não alimenta a vida humana que é somente humana enquanto vive na reta ordem da justiça e da fraternidade. O pão injusto não é nosso, mas é roubo; pertence ao outro. Bem dizia o grande místico medieval Mestre Eckhart: «Quem não dá ao outro o que é do outro não come o seu próprio pão, mas come o seu e também aquele do outro». Os milhares de famintos de nossas cidades e os milhões de esfomeados de nosso mundo acusam a qualidade do nosso pão: é pão amargo porque contém dentro de si demasiadas lágrimas de crianças; é pão duro porque encerra em sua substância o tormento de tantos estômagos vazios. Ele não pode ter a dignidade de ser considerado o nosso pão. O pão para ser nosso exige que transformemos o mundo e libertemos a sociedade de seus mecanismos de riqueza feita à custa do pão tirado da boca do outro. O pão convoca-nos para a conversão coletiva. É a condição necessária para que nossa oração não seja vazia e farisaica. O evangelho interdita-me de pedir apenas para mim, com descaso das necessidades dos irmãos que estão à minha volta. Unicamente o pão nosso é pão de Deus.

  • O pão nosso de cada dia nos dai hoje [2] > > >



  • Reflexão diária a partir do evangelho > > >
  • O «Pai nosso» no evangelho segundo Lucas > > >
  • É de vida partilhada que as nossas vidas se alimentam > > >
  • O Pai do Céu dará o Espírito Santo àqueles que Lho pedem > > >
  • Lucas 11, 1-13 — notas exegéticas > > >



Preparar o décimo sétimo domingo, ano C, no Laboratório da fé
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 25.7.13 | Sem comentários
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