Esta é a nossa fé [40]


Reflexão semanal 
sobre o Credo Niceno-constantinopolitano

«O Credo cristão — profissão da nossa fé em Deus Pai, Filho e Espírito Santo, e na sua ação criadora, salvadora e santificadora — culmina na proclamação da ressurreição dos mortos, no fim dos tempos, e na vida eterna» (Catecismo da Igreja Católica, 988). [Para ajudar a compreender melhor, ler: Romanos 8, 18-25; Catecismo da Igreja Católica, números 988-1019]

«Foi na esperança que fomos salvos» — afirma Paulo, na Carta aos Romanos, num capítulo (oitavo) dedicado à reflexão sobre a presença no Espírito Santo em cada ser humano. Este capítulo oitavo da Carta aos Romanos apresenta um esquema bem definido. Começa por apresentar dois princípios fundamentais que animam o cristão: o Espírito que dá a vida (versículos 1 a 13) e a filiação divina (versículos 14 a 30). E conclui com um hino ao amor que Deus, através de Jesus Cristo, derramou sobre a humanidade (versículos 31 a 39). A partir da habitação do Espírito no ser humano e da filiação divina, Paulo reflete sobre a fé e a esperança na ressurreição. Esta é a meta oferecida à humanidade e a toda a Criação. «A ‘redenção’, a salvação, segundo a fé cristã, não é um simples dado de facto. A redenção é-nos oferecida no sentido que nos foi dada a esperança, uma esperança fidedigna, graças à qual podemos enfrentar o nosso tempo presente: o presente, ainda que custoso, pode ser vivido e aceite, se levar a uma meta e se pudermos estar seguros desta meta, se esta meta for tão grande que justifique a canseira do caminho. E imediatamente se levanta a questão: mas de que género é uma tal esperança para poder justificar a afirmação segundo a qual a partir dela, e simplesmente porque ela existe, nós fomos redimidos? E de que tipo de certeza se trata?» (Bento XVI, Carta Encíclica sobre a esperança cristã — «Spe Salvi», [SS] 1).

E espero. «É a esperança que dá sentido à vida. E a esperança baseia-se na perspetiva de poder um dia transformar o mundo atual num mundo possível, julgado melhor» (François Jacob, «O Jogo dos Possíveis. Ensaio sobre a Diversidade do Mundo Vivo», Gradiva, 1989, 137-138). Para o cristão, a esperança é uma característica fundamental da vida. É uma virtude teologal, um dom da presença de Deus em nós. No contexto bíblico, é uma «palavra central da fé, a ponto de, em várias passagens, ser possível intercambiar os termos ‘fé’ e ‘esperança’» (SS 2). Assim, quando proclamamos a esperança, confirmamos a fé. Não se trata de uma incerteza como um desejo de que se realize alguma coisa: «eu espero que aconteça». Trata-se sim de uma realidade já concretizada com a vitória definitiva de Jesus Cristo sobre o pecado e a morte (cf. temas 27, 28 e 29). A esperança cristã está já em ação! «A existência cristã desenrola-se entre o já aqui do Reino vivido na ressurreição de Cristo tornado presente na vida sacramental e o ainda não acontecido desse Reino de paz e de força no Espírito. Esta existência em tensão é, por vezes, difícil de viver. Há a tentação de sobrevalorizar um aspeto em detrimento do outro. É a articulação dos dois que abre à esperança. A esperança não é um sonho, é o futuro aberto em nome do projeto do amor de Deus» (Ph. Ferlay, J.-N. Bezançon, J.-M. Onfray, «Para compreender o Credo», ed. Perpétuo Socorro, Porto 1993, 161).

A ressurreição do mortos. A ressurreição é central na fé cristã. «Em certo sentido, a Ressurreição de Jesus é a única verdade cristã [...]. Mas este acontecimento único só assume a sua dimensão total na nossa ressurreição» (Ph. Ferlay..., 162). O que significa a «ressurreição dos mortos» ou a «ressurreição da carne», como se proclama no Credo batismal e no Símbolo dos Apóstolos? Há muita confusão sobre o verdadeiro significado da ressurreição (cf. tema 23). Até a própria linguagem usada nos documentos da Igreja (como por exemplo, no Catecismo da Igreja Católica), baseada na herança cultural e filosófica presente nos textos do Novo Testamento (nomeadamente nas cartas paulinas), pode interferir negativamente na compreensão desta realidade. Há termos como «carne» e «corpo» ou «espírito» e «alma» que podem conduzir a equívocos na capacidade de acolher o sentido da ressurreição. Por isso, não podemos ficar presos aos conceitos, mas procurarmos aprofundar o conteúdo. E sobre isso há claramente menos dúvidas! «Se não há ressurreição dos mortos, também Cristo não ressuscitou» (1Coríntios 15, 13).

«A ressurreição significa, no centro da fé, a verdade do nosso regresso ao Pai, Aquele que é a origem de tudo é também Aquele para quem caminhamos. Tomado no movimento trinitário, o ato de fé conduz-nos do Pai ao Pai, recapitulando a auto-revelação de Deus» (Ph. Ferlay..., 163).

© Laboratório da fé, 2013

Credo niceno-constantinopolitano, no Laboratório da fé  Credo niceno-constantinopolitano, no Laboratório da fé

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 18.7.13 | Sem comentários
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